Fio de Ariadne: 2017

23 novembro 2017

As muitas portas de si mesma


Era um longo corredor, com muitas portas. Portas que a revelavam. Mostravam o que ela foi a vida inteira. Guardavam episódios que doeram, mas ensinaram; que curaram e libertaram. Atrás daquelas portas, ela estava inteira. Tudo o que a construiu e a fez assim: lábios silentes, olhos falantes. O coração saiu do passo ao mirar aquele longo caminho. (Re)descobrir-se dá frio na barriga. Sabia tudo o que aquelas portas guardavam, mas reviver é revirar gavetas que nem sempre queremos voltar a abrir.

A primeira lembrança, então, foi a coragem. Do seu jeito torto, ela nunca deixou de encarar desafios. Tinha medo, mas seguia ainda assim. E foi por isso que, diante daquele corredor cheio de portas, ela não recuou. Caminhou devagar, coração na boca, levada pela curiosidade de descobrir novas nuances daquilo que é tão familiar. Abriu a primeira porta, olhou para dentro, examinou atentamente tudo o que viu. Assim foi com a segunda, com a terceira e com todas as outras. Sentiu novamente muito do que estava exposto ali. Chorou de novo, sorriu de novo, compreendeu de novo. E, mais uma vez, teve vontade de continuar vivendo.

Os cômodos e incômodos da vida são muitos, cada um tem a sua importância. Cada um, uma vivência, um aprendizado. Nas múltiplas experiências, vamos nos construindo, desconstruindo, reformulando. O que fica é a essência aperfeiçoada. Uma versão revista e atualizada de nós mesmos. Mais madura, mais forte e mais sensível. Bom reforçar que esses dois últimos adjetivos nunca foram antagônicos.

Fazia tempo que ela não passeava por aquele corredor. Há anos não tinha coragem de abrir aquelas portas. Sorte que o tempo calcula a cura e mostra a hora de tudo. Revisitar o passado também exige o período de maturação. Ela estava pronta. Reviu e sentiu o que aquelas portas guardavam, sem precisar atravessá-las novamente. O que estava lá já teve seu momento. Agora era como um quadro que não mais se pinta, apenas se admira. Talvez por isso, ela tenha passado por todas aquelas portas sem se preocupar em fechá-las. Estão prontas e fazem parte do caminho. São e continuarão sendo importantes para os próximos destinos. Não existe destino final. O corredor segue levando às próximas portas, construindo novas estradas, enriquecendo a caminhada. E ela, mais preparada, pode ir e voltar por esse corredor sem grandes impactos, porque o que as tantas portas guardam em comum é a maturidade e a sabedoria. Sem dúvida, as melhores guias para um caminho mais leve e mais feliz.

12 novembro 2017

EnvelheSER


Um dia você percebe que o tempo passou, a idade chegou e algumas coisas mudaram. Não porque os anos pesam, mas porque eles ensinam. A sabedoria é um presente com laço dourado que o tempo nos traz. Você entende que o que importa não são os cabelos brancos que te denunciam ao mundo, mas as histórias que eles têm pra contar. E, por falar em contar, você percebe que mais vale o crédito que você tem com os amigos do que o que você tem no banco. O do banco importa, é claro, mas quem vai te tirar dos apertos mais dolorosos são os amigos. E, falando em amigos, a essa altura da vida você já sabe que a família reúne os melhores e mais autênticos que alguém pode ter. E eles são a forma mais genuína de amor também. E, por falar em amor, você percebe e compreende que amor próprio e egoísmo são coisas bem diferentes. E aprende a se amar também. Passa a ver que o não pode ser uma boa escolha e que estar sozinho nem sempre é solidão. Falando em solidão, com o tempo, você passa a olhar as relações com outros olhos. Elas precisam ser saudáveis para que continuem sendo laços. Isso significa que cada um deve ter o seu espaço e que o espaço de encontro precisa respeitar diferenças, permitir a troca e trazer leveza. Ser leve é entender que o mundo e as pessoas não são perfeitos, que aquela gordurinha ainda vai incomodar e que a receita do bolo pode não dar certo, mas você ainda tem muitas outras coisas para celebrar. E, por falar em celebrar, os anos ensinam que a celebração pode ter formas bem diferentes daquelas da adolescência. E que são mais saborosas se resgatarmos o melhor da infância. Quando se é criança, uma caixa de papelão e um pedaço de madeira podem fazer a festa. A maturidade nos lembra que o que traz alegria aos momentos está dentro de nós. Basta acessar a criança que fomos e usar a imaginação. As razões mais legais para comemorar não são palpáveis nem valem dinheiro. E, por falar em dinheiro, com a idade você aprende a lidar melhor com ele. Dinheiro também precisa ser tratado com respeito e justiça. Ele serve para pagar contas e realizar alguns desejos. Não é mocinho nem vilão. Cabe a nós significá-lo da maneira certa e lembrar que ele é feito de trabalho. E, falando em trabalho, os cabelos brancos ensinam que ele é a forma como ganhamos o pão. Pode ser um lugar onde fazemos amigos, mas não precisa ser o lugar onde fazemos úlceras, nem frustrações. Trabalho é parte importante da vida, mas não precisa tomar uma vida inteira. E, por falar em vida, o professor tempo ainda explica que ela é um sopro, alguns anos de oportunidade para se tornar alguém melhor, para si e para os outros. Um ínterim na eternidade que, para ganhar sentido, precisa dos olhos crédulos da criança, das lições da experiência e da fé. Essa tal confiança de que, ainda que não possamos entender tudo, há motivos para seguir. Assimilar os ensinamentos no caminho nos ajuda a torná-lo mais doce e a chegada mais feliz.

21 agosto 2017

Mundos paralelos




Às vezes paro e penso no quanto levou de mim. Tive de aprender a ser outra, ainda que, no íntimo, eu seja a mesma. A sensibilidade aqui de dentro, aí fora, virou tolice. A empatia, os medos, os sonhos... Tudo teve de ser guardado numa caixinha escura, num canto qualquer. Por muitas vezes, eles arranham a tampa da caixa e se debatem, como um animal querendo sair. Desejam viver em liberdade, num mundo sem regras ou julgamentos, sem teatro. Sei, porém, que não sobreviveriam aqui fora. Difícil ser de verdade em um mundo de mentira. Impossível ser leve onde tudo ganha o peso que não deveria.

Vou tentando seguir, no pequeno mundo paralelo que me restou, enquanto ele resiste. Doloroso vê-lo encurtando no tamanho e no encanto, contaminado pelas mazelas da vida real. Mais triste é saber que não precisava ser assim. O mundo moderno não tinha que, necessariamente, vir num pacote de desumanidade. Não tinha de ser tão árido. Um cenário onde não me encaixo, apenas disfarço pra não ser descoberta. Ironia de um universo que entendo, mas não aceito.

A vida segue desse jeito torto e dividido: metade de mim grita por liberdade, outra só quer permanecer invisível na tarefa de viver. Ambas são partes da mesma pessoa, com a mesma essência, a mesma sede de justiça e exatamente o mesmo amor pela humanidade. Essa tal raça que domesticou tantos animais e nunca foi capaz de dominar a si mesma.

21 maio 2017

Saindo da rota



“É preciso aprender a improvisar, a vida nem sempre é previsível.” A frase saiu naturalmente durante uma conversa entre amigas. Poderia ter passado despercebida, mas ecoou na cabeça de Clarice por um fim de semana inteiro. Apertou o botão, acionou o alarme. A moça deu-se conta de sua ignorância na arte de improvisar! Percebeu que, até então, tudo o que saiu do script foi resolvido de uma forma torta e dolorida. O improviso até pode, sim, ser um pouco torto, mas não dolorido. Ele serve para tornar mais leve o que acabou pesando mais do que deveria. É a forma criativa de viver.

Não só de improvisos deve ser a vida, mas ela tampouco tem de estar em uma planilha de Excel. Perceber que fez da vida uma tabela incomodou Clarice. Horários, números, traçados, metas. Tudo milimetricamente calculado, enquanto o mundo seguia girando, presenteando com a delícia do inesperado a quem não se deixou abalar por uma mudança de rota.

Desvios acontecem e obstáculos também fazem parte do trajeto. Só assim é possível buscar outros cenários, ver outros ângulos, novas formas de chegar a um mesmo lugar. Essa descoberta não precisa causar medo, nem dor ou qualquer sentimento ruim. É apenas um novo modus operandi. Muitas vezes, por inexperiência, ou despreparo mesmo, vai ser estranho, mas sempre enriquecedor. Clarice lembrou a velha frase de Nietsche: “o que não me mata me fortalece”. Encarar o que não estava escrito (pelo menos nas nossas planilhas), pode não só fortalecer, como desvendar opções que não surgiriam se tudo desse certo. Ou melhor: se tudo fosse como planejado, já que o improviso também pode nos ensinar que nem sempre o certo é o que estava no roteiro.

Sair da linha pode ter um sabor especial e, ainda que vez ou outra não tenha, pode não ser tão terrível assim. Clarice achou graça da própria tolice. Não estava nos planos descobrir, agora, que ela pode sair deles. Largou o computador ligado, improvisou o melhor sorriso e foi lá fora ver o que o inesperado tem pra ela. Sem receitas. Sem tabelas. Somente ela e a capacidade que a vida tem de surpreender.