Fio de Ariadne: 2017

21 agosto 2017

Mundos paralelos



Às vezes paro e penso no quanto levou de mim. Tive de aprender a ser outra, ainda que, no íntimo, eu seja a mesma. A sensibilidade aqui de dentro, aí fora, virou tolice. A empatia, os medos, os sonhos... Tudo teve de ser guardado numa caixinha escura, num canto qualquer. Por muitas vezes, eles arranham a tampa da caixa e se debatem, como um animal querendo sair. Desejam viver em liberdade, num mundo sem regras ou julgamentos, sem teatro. Sei, porém, que não sobreviveriam aqui fora. Difícil ser de verdade em um mundo de mentira. Impossível ser leve onde tudo ganha o peso que não deveria. 

Vou tentando seguir, no pequeno mundo paralelo que me restou, enquanto ele resiste. Doloroso vê-lo encurtando no tamanho e no encanto, contaminado pelas mazelas da vida real. Mais triste é saber que não precisava ser assim. O mundo moderno não tinha que, necessariamente, vir num pacote de desumanidade. Não tinha de ser tão árido. Um cenário onde não me encaixo, apenas disfarço pra não ser descoberta. Ironia de um universo que entendo, mas não aceito. 

A vida segue desse jeito torto e dividido: metade de mim grita por liberdade, outra só quer permanecer  invisível na tarefa de viver. Ambas são partes da mesma pessoa, com a mesma essência, a mesma sede de justiça e exatamente o mesmo amor pela humanidade. Essa tal raça que domesticou tantos animais e nunca foi capaz de dominar a si mesma.

21 maio 2017

Saindo da rota

É preciso aprender a improvisar, a vida nem sempre é previsível.” A frase saiu naturalmente durante uma conversa entre amigas. Poderia ter passado despercebida, mas ecoou na cabeça de Clarice por um fim de semana inteiro. Apertou o botão, acionou o alarme. A moça deu-se conta de sua ignorância na arte de improvisar! Percebeu que, até então, tudo o que saiu do script foi resolvido de uma forma torta e dolorida. O improviso até pode, sim, ser um pouco torto, mas não dolorido. Ele serve para tornar mais leve o que acabou pesando mais do que deveria. É a forma criativa de viver. 

Não só de improvisos deve ser a vida, mas ela tampouco tem de estar em uma planilha de Excel. Perceber que fez da vida uma tabela incomodou Clarice. Horários, números, traçados, metas. Tudo milimetricamente calculado, enquanto o mundo seguia girando, presenteando com a delícia do inesperado a quem não se deixou abalar por uma mudança de rota. 

Desvios acontecem e obstáculos também fazem parte do trajeto. Só assim é possível buscar outros cenários, ver outros ângulos, novas formas de chegar a um mesmo lugar. Essa descoberta não precisa causar medo, nem dor ou qualquer sentimento ruim. É apenas um novo modus operandi. Muitas vezes, por inexperiência, ou despreparo mesmo, vai ser estranho, mas sempre enriquecedor. Clarice lembrou a velha frase de Nietsche: “o que não me mata me fortalece”. Encarar o que não estava escrito (pelo menos nas nossas planilhas), pode não só fortalecer, como desvendar opções que não surgiriam se tudo desse certo. Ou melhor: se tudo fosse como planejado, já que o improviso também pode nos ensinar que nem sempre o certo é o que estava no roteiro. 

Sair da linha pode ter um sabor especial e, ainda que vez ou outra não tenha, pode não ser tão terrível assim. Clarice achou graça da própria tolice. Não estava nos planos descobrir, agora, que ela pode sair deles. Largou o computador ligado, improvisou o melhor sorriso e foi lá fora ver o que o inesperado tem pra ela. Sem receitas. Sem tabelas. Somente ela e a capacidade que a vida tem de surpreender.