Fio de Ariadne: Procurando Clarice

25 março 2016

Procurando Clarice


Clarice dia desses veio falar comigo. Está perdida. O tempo passou e ela não viu. Lembranças fortes e ainda coloridas estão em outro lugar, ficaram distantes e ela nem percebeu. Pediu ajuda para se reencontrar. Quer alguém para trazer de volta as coisas boas que deixou no caminho. Eu disse a ela que certos reencontros só acontecem dentro de nós. 

Clarice é moça boa, mas acabou trazendo pesos que não precisa carregar. Perdeu-se ao tentar construir formas de não se perder mais. Bobagem. A natureza de Clarice é assim mesmo, perdida. Ela tem a sabedoria de quem está sempre em busca. Fazer perguntas é para os fortes. Entender que novas respostas vão gerar novas dúvidas nos faz mais leves. À Clarice também. Ainda que ela tenha se distraído, em seu interrogatório diário, vai se achar novamente. 

No fundo, ela sabe que a dor é o fio que serve de guia para fora do labirinto. Lá tudo é mais suave. Fora da caixa, dentro de si mesma. Exatamente ali, onde moram as canções de chuveiro, as caretas dos retratos, os poemas de Cecília. Ainda está tudo lá, à espera dessa Clarice perdida, que cedo ou tarde vai se rever. Quando a saudade apertar mais, Clarices do passado vão saltitar à sua frente e dizer coisas esquecidas. Lembrar desejos, motivações, qualidades. E afirmar que, não importa quantas vezes ela se perca, a essência vai estar sempre ali, firme e segura, à espera de um reencontro. Basta estender os braços e abraça-la.

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