Fio de Ariadne: Março 2016

25 março 2016

Procurando Clarice


Clarice dia desses veio falar comigo. Está perdida. O tempo passou e ela não viu. Lembranças fortes e ainda coloridas estão em outro lugar, ficaram distantes e ela nem percebeu. Pediu ajuda para se reencontrar. Quer alguém para trazer de volta as coisas boas que deixou no caminho. Eu disse a ela que certos reencontros só acontecem dentro de nós. 

Clarice é moça boa, mas acabou trazendo pesos que não precisa carregar. Perdeu-se ao tentar construir formas de não se perder mais. Bobagem. A natureza de Clarice é assim mesmo, perdida. Ela tem a sabedoria de quem está sempre em busca. Fazer perguntas é para os fortes. Entender que novas respostas vão gerar novas dúvidas nos faz mais leves. À Clarice também. Ainda que ela tenha se distraído, em seu interrogatório diário, vai se achar novamente. 

No fundo, ela sabe que a dor é o fio que serve de guia para fora do labirinto. Lá tudo é mais suave. Fora da caixa, dentro de si mesma. Exatamente ali, onde moram as canções de chuveiro, as caretas dos retratos, os poemas de Cecília. Ainda está tudo lá, à espera dessa Clarice perdida, que cedo ou tarde vai se rever. Quando a saudade apertar mais, Clarices do passado vão saltitar à sua frente e dizer coisas esquecidas. Lembrar desejos, motivações, qualidades. E afirmar que, não importa quantas vezes ela se perca, a essência vai estar sempre ali, firme e segura, à espera de um reencontro. Basta estender os braços e abraça-la.

08 março 2016

O cansaço destes dias


Não é o noticiário deprimente. Nem o olhar de quem me subestima. Não é o abraço que me falta. Nem os brancos da minha cabeça. Nunca foi Freud, nem Murphy. Tampouco aqueles livros que eu li. Não é a máquina que falha. Não é o grito que cala ou a fala que corta. Não é o texto inacabado, nem as poesias que guardei. Não é esse sorriso amarelo ou o oi que eu não dei. Não são os quilos a mais, o bolo que solou ou o doce que perdi.  Não é a dor de cabeça, nem a pressão que cismou de subir.

O cansaço destes dias tem um quê de apatia e outro tanto de desesperança. Tem um pouco de dúvida e de inexperiência talvez. Tem medo e uma vontade louca de dar um pulinho no futuro pra saber o que vem por aí. O desgaste destes dias tem, sim, um bocado de grilos soltos, capatazes da minha mania de querer tudo perfeito. Cansei de ser chicoteada por eles.

Não é o meu silêncio: meus olhos gritam cada vez que eu calo. Não são os amores que deixei: nunca chorei mais de um dia. Não é o não: eu sempre convivi bem com ele. Não é a falta de inspiração: a gente acaba fazendo as pazes. 

O que é, ao certo, eu ainda não sei. Se há quem saiba, decidiu não me contar. Ou fui eu que não quis ouvir. Sigo, então, com os pés cansados e descalços, deslocada, sem GPS. Pode ser que ainda ache o caminho. Ou então que ele me encontre. Na vida tudo é uma questão de ponto de vista. Ou de estar no lugar certo. Eu ainda descubro. E espero poder, enfim, descansar em paz.