Fio de Ariadne: 2016

18 outubro 2016

Silenciando


Quando o mundo está em caos, eu me calo. Faz barulho lá fora, tem ruído aqui dentro. Então, eu me calo. Não entendo o que dizem, quando leio o que não dizem e as informações não batem. Então, eu me calo. Tem gente que diz sem dizer. Ou que ouve sem ouvir. Falta matéria ou explicação científica, mas os sinais caminham pelo ar. Eu capto. Tem um radar supersônico na minha cabeça. Quando ele apita, eu me calo. O silêncio é meu sistema de segurança. Uma espécie de capa voadora, que me leva pra longe quando é preciso. Às vezes pinica, incomoda, porque, afinal, o silêncio nunca silencia de verdade. Ainda assim, suaviza as agressões que vêm de fora. O silêncio é meu refúgio sempre que os sons do mundo me atacam. Ou quando são confusos demais. Sou mais a confusão do meu silêncio! Aqui dentro, a gente se entende e as coisas acabam voltando à velha ordem. Eu me guardo e não machuco ninguém. Todo mundo devia vir com o silêncio configurado de fábrica. Ou aprender a programá-lo em algum ponto da vida. É fácil, não gasta energia e nos leva do caos para um espaço, talvez não menos caótico, mas bem mais interessante. Quando nos damos conta, o autoconhecimento, a resiliência e a sabedoria já estão batendo à porta. Vale o esforço da solitude. O silêncio melhora a qualidade da minha fala. E a saúde do meu coração.

04 outubro 2016

Verdade



Gosto daqueles que são loucos, mas são de verdade.
São sistemáticos, mas são de verdade.
Dos que têm TOC, mas são de verdade.
De quem se recolhe, mas é de verdade.
Dos ogros. Mas são de verdade.

Agradam-me os super sinceros e suas gafes. Sem maquiagem. Sem firulas. Sem afetação.

Não me pertencem os que encenam. Não gosto do falso interesse, nem da curiosidade maliciosa. Não me agradam os manipuladores, os injustos, os fofoqueiros, os preconceituosos, os cínicos, os debochados.

Gente fake não me representa.

Sou esquisita, mas plenamente verdadeira.

25 março 2016

Procurando Clarice


Clarice dia desses veio falar comigo. Está perdida. O tempo passou e ela não viu. Lembranças fortes e ainda coloridas estão em outro lugar, ficaram distantes e ela nem percebeu. Pediu ajuda para se reencontrar. Quer alguém para trazer de volta as coisas boas que deixou no caminho. Eu disse a ela que certos reencontros só acontecem dentro de nós. 

Clarice é moça boa, mas acabou trazendo pesos que não precisa carregar. Perdeu-se ao tentar construir formas de não se perder mais. Bobagem. A natureza de Clarice é assim mesmo, perdida. Ela tem a sabedoria de quem está sempre em busca. Fazer perguntas é para os fortes. Entender que novas respostas vão gerar novas dúvidas nos faz mais leves. À Clarice também. Ainda que ela tenha se distraído, em seu interrogatório diário, vai se achar novamente. 

No fundo, ela sabe que a dor é o fio que serve de guia para fora do labirinto. Lá tudo é mais suave. Fora da caixa, dentro de si mesma. Exatamente ali, onde moram as canções de chuveiro, as caretas dos retratos, os poemas de Cecília. Ainda está tudo lá, à espera dessa Clarice perdida, que cedo ou tarde vai se rever. Quando a saudade apertar mais, Clarices do passado vão saltitar à sua frente e dizer coisas esquecidas. Lembrar desejos, motivações, qualidades. E afirmar que, não importa quantas vezes ela se perca, a essência vai estar sempre ali, firme e segura, à espera de um reencontro. Basta estender os braços e abraça-la.

08 março 2016

O cansaço destes dias


Não é o noticiário deprimente. Nem o olhar de quem me subestima. Não é o abraço que me falta. Nem os brancos da minha cabeça. Nunca foi Freud, nem Murphy. Tampouco aqueles livros que eu li. Não é a máquina que falha. Não é o grito que cala ou a fala que corta. Não é o texto inacabado, nem as poesias que guardei. Não é esse sorriso amarelo ou o oi que eu não dei. Não são os quilos a mais, o bolo que solou ou o doce que perdi.  Não é a dor de cabeça, nem a pressão que cismou de subir.

O cansaço destes dias tem um quê de apatia e outro tanto de desesperança. Tem um pouco de dúvida e de inexperiência talvez. Tem medo e uma vontade louca de dar um pulinho no futuro pra saber o que vem por aí. O desgaste destes dias tem, sim, um bocado de grilos soltos, capatazes da minha mania de querer tudo perfeito. Cansei de ser chicoteada por eles.

Não é o meu silêncio: meus olhos gritam cada vez que eu calo. Não são os amores que deixei: nunca chorei mais de um dia. Não é o não: eu sempre convivi bem com ele. Não é a falta de inspiração: a gente acaba fazendo as pazes. 

O que é, ao certo, eu ainda não sei. Se há quem saiba, decidiu não me contar. Ou fui eu que não quis ouvir. Sigo, então, com os pés cansados e descalços, deslocada, sem GPS. Pode ser que ainda ache o caminho. Ou então que ele me encontre. Na vida tudo é uma questão de ponto de vista. Ou de estar no lugar certo. Eu ainda descubro. E espero poder, enfim, descansar em paz. 

16 janeiro 2016

(Feliz) 2016!


Sempre que chega o fim do ano fico com a sensação de ter esquecido alguma coisa: de ter abraçado alguém, ter ligado, dito "obrigada", "você é importante pra mim", "não foi nada", "precisa de ajuda?". Talvez não seja apenas uma sensação. O mais provável é que eu de fato tenha me esquecido de algumas dessas coisas. Então, para este ano novinho, cheio de páginas pra colorir e escrever, eu desejo paz, saúde, amor... mas sobretudo que não esqueçamos do outro. Que não fique nenhum abraço ou agradecimento para trás. Que não falte um sorriso para quebrar o gelo e começar uma amizade, perdoar um tropeço ou simplesmente dizer "estou aqui, conte comigo".

Que não nos faltem gentilezas, nem compaixão, nem tolerância, nem grandezas. A grandeza de entender e respeitar as diferenças, de partilhar privilégios e de perceber que, sim, temos muitos deles. Que em 2016 a gente reclame menos, agradeça mais!

Que uma tal vida online seja mero instrumento para a vida real, ao vivo, repleta de pessoas pra curtir e adicionar, de bons momentos pra compartilhar e memes divertidos pra viver. E que, mesmo diante de tanta fartura, não nos percamos de nós mesmos. Haja o que houver, a nossa essência esteja lá, firme, forte e cada vez mais independente de opiniões e influências externas.

Desejo, enfim, um 2016 de verdades, doçuras e presenças. O "feliz" que costumamos escrever antes do número será simples consequência.

PS: Este post vale um abraço. Pessoalmente.
💜