Fio de Ariadne: Um pão anda à luz

02 fevereiro 2015

Um pão anda à luz

"A cesta de pão", de Salvador Dalí, 1945 

As vezes me sinto num filme de vanguarda. Sou daquelas personagens que, de tão normais, dão charme à trama. O surreal parece ainda mais extraordinário pra pessoas como eu. Quase posso ouvir a trilha sonora enquanto caminho à tardinha pra buscar o pão. Gosto dos queimadinhos. Na verdade, sou solidária a eles, quase sempre preteridos, condenados a viver no porão dos pães até que alguém os resgate.

As vezes eu me sinto como um pão queimado. Talvez daí venha a minha solidariedade. Mas não se assuste nem se apiede de mim: também tenho meus dias de pão fresco, levemente corado, que exala perfume e saliva a boca. O mundo é mesmo assim: ora somos o pão queimado; ora, o quitute mais esperado da padaria.

Vou sempre caminhando no meu filme de vanguarda, que é pra vida ter um pouco mais de leveza. O surreal é uma deliciosa defesa contra a realidade. O contrassenso, na verdade, não choca. Ele desperta. Tira-nos deste mundinho sem sal em que vivemos. Cores e elementos inesperados transformam o cenário e tornam os personagens mais interessantes. O normal cansa. Às vezes, é melhor mesmo ser o pão queimado.

Volto pra casa dançando com a sacola de pães. Eles passeiam comigo, à luz da tardinha, colorida como meus sonhos vanguardistas. Irreais, espetaculares, inesperados, extraordinários, ousados. Como todo sonho deve ser. É minha fuga. Receita infalível contra o tédio. A maneira mais saborosa de controlar o que parece incontrolável.

O "the end", afinal, pode vir quando menos esperamos. E, quando nos damos conta, não sabemos onde foi parar o mocinho da história. O vilão acaba sendo a gente mesmo, perdido num enredo sem personagens, sem grandes cenários, um fracasso de bilheteria. Prefiro incrementar a história. Gosto das surpresas, da luz colorida, das trilhas doces, alegres e misteriosas do meu filme particular.

4 comentários :

Cristina disse...

Pão queimadinho e pequenininho que dà graça às nossas vidas! <3
Adorei o texto! Boa maneira de se começar o ano! :)
Bjos!

Ariadne Lima disse...

Obrigada,amiga! Amei seu comentário. Sei que você me entende. :)

Talita Cruz disse...

Ás vezes também me sinto um pão queimado, mas até os pãezinhos torrados tem sem gostinho diferente rs. Estou ouvindo a trilha sonora do post, muito boa! Bjus

Ariadne Lima disse...

Há sempre quem goste do pão queimado, Talita. É a nossa alegria. :) Beijo!