Fio de Ariadne: 2015

14 dezembro 2015

Azul do meu tamanho


Abriu a janela. O azul do céu, tão vivo e tão claro, quase doía nos olhos recém acordados. Respirou fundo e sorriu. Era um presente de Deus. Tomou uma ducha fria. Gostava do efeito que isso causava. Acreditava que a água fresca toca na pele para lembrar às pessoas que elas estão vivas. É sempre mais excitante viver depois de um banho frio! Vestiu uma roupa confortável, comeu algo leve. Os dois toques breves de buzina avisaram que o amigo já estava no portão.

Alice saiu com a sensação de que algo, além do amigo, a esperava lá fora. Entrou no carro, cumprimentou o rapaz com um beijo e um sorriso, como era de costume. Foram em frente. Enquanto ele dirigia, ela selecionava a trilha sonora. Música boa para combinar com o dia ensolarado e a companhia sempre confortável daquele jovem motorista.

Enquanto o carro subia e sacolejava pelas ladeiras, dentro de Alice a viagem era suave e plana. Apenas uma fresta deixava o frio na barriga entrar. Ela estava feliz. Virou-se para o amigo e o olhar fez o convite. Seguiram cantando juntos por quase todo o caminho. O silêncio veio quando perceberam que estavam chegando. A cidade vista do alto parecia pequena e inofensiva.

Desceram do carro e apreciaram embasbacados o quadro pintado pela natureza. O medo bateu à porta mais uma vez, mas o desejo de ser livre sempre foi o impulso mais fiel do homem. Alice e o amigo entreolharam-se. Subiram abraçados. Sabiam que, embora estivessem juntos, teriam que absorver a experiência sozinhos. O abraço trazia coragem. O silêncio, reflexão. 

Cumpriram todas as exigências, ouviram as orientações, vestiram os aparatos e seguiram, finalmente, para o primeiro vôo de asa delta. Nos intermináveis segundos antes de saltar, Alice olhou o vazio e percebeu o quanto ele pode ser contraditório. Então, correu e voou. A imensidão de nada a fez perceber-se grande e pequena ao mesmo tempo. Entender e administrar isso pode ser o maior desafio da vida. Mas pelo menos ali, de asas abertas, ela conseguiu a façanha.

26 agosto 2015

Sem scripts


Esbarrei com a inspiração ontem na rua. Comentei que ela andava sumida, perguntei da família, lembramos velhas histórias... esse ritual que todos reproduzimos e nos faz tão normais e sem graça. 

Segui feliz com o reencontro, mas me perdi em pensamentos logo depois. Mais uma vez a estranha mania de deixar passar o que deveria, pelo menos, borrifar o ar de bom ânimo. Insistimos em deixar pesar o que poderia ser leve. Aceleramos o que mereceria contemplação. E, assim, escravos do tempo, ficamos presos ao relógio, como em um filme de ficção científica. Sem máquina do tempo. 

Dona Consciência às vezes chama. E eu escuto. Tenho crises de lucidez que me doem. Difícil enxergar-se parte do sistema. Ruim notar que há algo em você escondido ou maltratado, seja porque você não usou, seja porque as pessoas não perceberam. Às vezes nos ocupamos tanto em seguir o script que deixamos de ver a graça do improviso. Nos preocupamos tanto em sermos certos e perfeitos que não olhamos, não ouvimos, não sentimos o outro. E acabamos taxando de desinteressante tudo o que foge à regra. Sensibilidade e bondade são percebidas como tolice. 

Eu, sempre que acordo desse transe em que a rotina me coloca, tenho prazer em ser tola. Viva!

Acho que vou convidar a inspiração para um café. Quem vem também?



24 maio 2015

Sobre teatros, labirintos e um lugar que existe em mim

"Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo"

Caetano Veloso



Ninguém nunca me disse que viver seria fácil. Mas também ninguém nunca me disse que seria em vão. Algum sentido tem que haver neste circo todo. Não pode ser só isso: nascer, viver, morrer e todo o tom shakespeariano que há em volta. Um teatro permanente que nos distrai do que é real. É muito fácil perder-se diante de tantos papéis que nos oferecem para interpretar.

Haja novelos, fios de Ariadne, para nos levar de volta ao lugar certo: a essência. Cansei de me perder nesse labirinto. Ainda bem que sempre existe o fio. Mesmo que muitas vezes eu me esqueça de usá-lo, ele está lá. De tempos em tempos, eu me perco. Até que um dia, cansada de caminhar em círculos ou de andar em corredores que não levam a lugar algum, eu me lembro do fio. Ele me guia de volta ao que tenho de mais valioso: este lugar em mim que ninguém altera. Nele, eu não me estranho, não me confundo, não sofro. Tenho a sabedoria e a serenidade que me fizeram topar esta empreitada de ser gente. É onde eu entendo o valor e o lugar de cada coisa. Tudo é mais simples, mais claro e menos doloroso. É onde eu me lembro que não é em vão. E que por mais que o mundo pareça o cenário de uma obra de Shakespeare, o autor da vida é real e sabe bem o que está fazendo.

Não é fácil, de fato, mas pode ser mais leve quando estamos no lugar certo. E mesmo que não pareça, tem sentido, tem propósito e vai valer algo mais que aplausos quando se fecharem as cortinas.


19 maio 2015

Novelas


São tantos recortes, cenas aleatórias na cidade. Protagonistas de esquina, mocinhos das próprias histórias, coadjuvantes das alheias. Gosto de observar o mundo e imaginar os enredos escondidos em cada quarteirão. Sigo pra casa em silêncio e rio ao pensar que as pessoas que cruzam o meu caminho também desconhecem minhas novelas pessoais.

O pensamento é mesmo uma dádiva! E é ele que me leva à cena daquele velho capítulo. Eu, a mocinha. Você ainda não sei se o mocinho ou o vilão. No recorte, você me olha e não diz nada. Decepcionada, eu baixo os olhos e também sigo muda. É um silêncio dolorido. Você não faz nada. Não toca nada. Não transforma nada. E o nada faz morada entre nós dois. São três verões e alguns outonos de inércia. Apenas olhos covardes que olham e não dizem. Onde já se viu? Olhos mudos! Calados e surdos diante de tudo o que gritam os meus. 

Lembrando da cena, eu chorei. Os olhos desaguaram o que você nunca me deixou dizer.

24 março 2015

Nota de falecimento



Pagina 34.000 do livro da vida. Registrou-se nesta data, às dez é nove horas, horário de Brasília, o óbito da Exma Sra. Expectativa Esperança da Silva. Causa da morte ainda desconhecida. A falecida não deixa herdeiros, o que, cá entre nós, não deve ser motivo de lamento. Aos possíveis descendentes, restaria de herança a farta perda de tempo, acumulada nos muitos anos vividos. Desconfia-se, inclusive, que a morte tenha sido em razão de velhice, já que Expectativa sempre travou árdua batalha pela sobrevivência.

Nas redondezas, a distinta senhora é lembrada pelo otimismo exacerbado e a notável criatividade nas relações humanas. Não raro, ouvem-se relatos de homens e mulheres que, anos a fio, apegados aos encantos de Expectativa, jamais conseguiram livrar-se dela.

O velório será ainda nesta noite, no Cemitério da Realidade, onde são previstas longas e chorosas visitas ao pé do caixão. As cabeças mais brancas da comunidade recomendam expressamente que o corpo seja cremado. Registros históricos relatam que outras Expectativas, mal enterradas, voltaram para assombrar a população.

Findas as informações do obituário, passamos a outro comunicado: registrou-se nesta mesma data, às dez é nove horas e um minuto, horário de Brasília, o nascimento de Felicidade Libertas Quae Sera Tamen. Página 34.001 do livro da vida. Que sigam os registros.

02 fevereiro 2015

Um pão anda à luz

"A cesta de pão", de Salvador Dalí, 1945

As vezes me sinto num filme de vanguarda. Sou daquelas personagens que, de tão normais, dão charme à trama. O surreal parece ainda mais extraordinário pra pessoas como eu. Quase posso ouvir a trilha sonora enquanto caminho à tardinha pra buscar o pão. Gosto dos queimadinhos. Na verdade, sou solidária a eles, quase sempre preteridos, condenados a viver no porão dos pães até que alguém os resgate. 

As vezes eu me sinto como um pão queimado. Talvez daí venha a minha solidariedade. Mas não se assuste nem se apiede de mim: também tenho meus dias de pão fresco, levemente corado, que exala perfume e saliva a boca. O mundo é mesmo assim: ora somos o pão queimado; ora, o quitute mais esperado da padaria. 

Vou sempre caminhando no meu filme de vanguarda, que é pra vida ter um pouco mais de leveza. O surreal é uma deliciosa defesa contra a realidade. O contrassenso, na verdade, não choca. Ele desperta. Tira-nos deste mundinho sem sal em que vivemos. Cores e elementos inesperados transformam o cenário e tornam os personagens mais interessantes. O normal cansa. Às vezes, é melhor mesmo ser o pão queimado.

Volto pra casa dançando com a sacola de pães. Eles passeiam comigo, à luz da tardinha, colorida como meus sonhos vanguardistas. Irreais, espetaculares, inesperados, extraordinários, ousados. Como todo sonho deve ser. É minha fuga. Receita infalível contra o tédio. A maneira mais saborosa de controlar o que parece incontrolável. 

O "the end", afinal, pode vir quando menos esperamos. E, quando nos damos conta, não sabemos onde foi parar o mocinho da história. O vilão acaba sendo a gente mesmo, perdido num enredo sem personagens, sem grandes cenários, um fracasso de bilheteria. Prefiro incrementar a história. Gosto das surpresas, da luz colorida, das trilhas doces, alegres e misteriosas do meu filme particular.