Fio de Ariadne: Sobre olhares, gaiolas e feridas

25 dezembro 2014

Sobre olhares, gaiolas e feridas


Hoje eu vi uma mulher. Cabelos e olhos claros, pequenina. O corpo magro sugeria fragilidade. Quando a olhei, os olhos cheios d'água pareciam assustados. Eu a vi! E isso a surpreendeu. Há tempos aquela mulher não era vista. Acostumou-se a ser invisível. Habituou-se a ser só mais uma entre tantas. Perdida no emaranhado de almas, muitas cegas ou míopes, incapazes de enxergar além do óbvio. 

Eu a olhei e percebi suas dores. Consegui captar mais que o aspecto franzino e o olhar perdido. Ela era uma alma atordoada, presa em si mesma, clamando por socorro. Alguém que, de tanto ser ignorada, passou a crer que realmente não tem valor. Deletou-se aos poucos: beleza, harmonia, magnetismo. Tornou-se uma sombra criada pela insensibilidade alheia. 

As lágrimas daqueles olhos brotaram nos meus. A ferida daquele coração doeu em mim. Talvez porque percebi que ela poderia ser eu. Ou por lembrar que eu já tive medos e tristezas semelhantes. Muitas vezes, por não ser vista, acabei não me vendo também.

A crueldade humana cria gaiolas invisíveis . Hoje eu vi aquela mulher e meu olhar disse a ela o seu valor. Deixei a gaiola aberta. Espero que ela consiga sair. A tolice do homem pode causar feridas profundas. A sensibilidade é o remédio. O exercício de perceber o outro além das aparências é restaurador. Basta abrir os olhos e, ainda que por um minuto, doar-se. A cura é para todos.

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