Fio de Ariadne: Tristes prisioneiros

29 julho 2014

Tristes prisioneiros


Eu tinha dito que são seus olhos. Não. São os meus. Eles e a antiga miopia que os acomete. São meus olhos que vêem o que não existe. São eles que vislumbram cores onde só existe cinza. Seus olhos, é certo, nunca olharam os meus de verdade. Sequer sabem o quanto carregam esses dois castanhos tristes e sempre marejados, cheios da água que você teve medo de explorar.

São meus olhos, quase infantis, que encaram os seus como não deveriam. Atrevidos, ousados olhos, que chegaram a pensar que teriam os seus. Ingênuos, tristes e esperançosos olhos. Um dia haveriam de cair em si.

Fique tranquilo: não são seus olhos. São os meus. Os seus são tolos e mais míopes que os meus. Não percebem o mal que me fazem quando me olham sem me querer. Não se preocupe: eu os absolvo. Entendi que eles procuram outras paisagens. Os meus olhos não encantam os seus. E os meus, baixos, seguem sozinhos. Até encontrarem outros olhos, menos duros e mais entregues, que não resistam em mergulhar em águas tão castanhas e profundas, guardiãs de velhos tesouros.

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2 comentários :

Talita Cruz disse...

Que lindo, um dos textos mais legais que já li aqui ;). Meus olhos nunca tiveram muita sorte rs.

Bjus

Ariadne Lima disse...

Os meus também, querida, mas eles nunca deixaram de ver a vida com delicadeza e buscar a face mais bonita das pessoas. A sorte, que não é boba nada, um dia vem. :)