Fio de Ariadne: Julho 2014

29 julho 2014

Tristes prisioneiros


Eu tinha dito que são seus olhos. Não. São os meus. Eles e a antiga miopia que os acomete. São meus olhos que vêem o que não existe. São eles que vislumbram cores onde só existe cinza. Seus olhos, é certo, nunca olharam os meus de verdade. Sequer sabem o quanto carregam esses dois castanhos tristes e sempre marejados, cheios da água que você teve medo de explorar.

São meus olhos, quase infantis, que encaram os seus como não deveriam. Atrevidos, ousados olhos, que chegaram a pensar que teriam os seus. Ingênuos, tristes e esperançosos olhos. Um dia haveriam de cair em si.

Fique tranquilo: não são seus olhos. São os meus. Os seus são tolos e mais míopes que os meus. Não percebem o mal que me fazem quando me olham sem me querer. Não se preocupe: eu os absolvo. Entendi que eles procuram outras paisagens. Os meus olhos não encantam os seus. E os meus, baixos, seguem sozinhos. Até encontrarem outros olhos, menos duros e mais entregues, que não resistam em mergulhar em águas tão castanhas e profundas, guardiãs de velhos tesouros.

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09 julho 2014

Despedidas


Despedidas costumam doer. Dar adeus a pessoas, lugares, momentos. Parar de viver alguma coisa é dolorido, mas dói mais despedir-se de algo que você quis viver e não viveu. A expectativa frustrada é como uma estátua erguida em praça pública, escancarando ao mundo o que você não alcançou. Pelo menos, ao seu mundo interno, que nunca mais será o mesmo, colecionando histórias que não aconteceram. Difícil apagar o que só existiu no plano das ideias. O imaterial tem a força do indestrutível. Fica preso na memória, em um replay interminável. A desistência, a verdade nunca dita, a vitória inalcançada, o beijo nunca dado, o e-mail não enviado, o desejo reprimido, o convite nunca feito (ou nunca aceito), as passagens não compradas, a palavra engasgada, o amor escondido, a conquista negada. Todos, impiedosamente todos, os “quases” em que esbarramos na vida. Ainda que muitos acabem arquivados pelas artimanhas da memória, eles ainda estarão lá, prontos para pipocar na primeira oportunidade. São doloridos, mas ensinam. Professores à moda antiga, munidos de palmatórias e cantinhos do pensamento. Sim, despedidas costumam doer. Mas, em boa parte das vezes, são absolutamente necessárias. Inclusive, quando se referem ao que queríamos viver e não vivemos. Difícil é saber quando deveríamos ter insistido ou tentado mudar o destino. Viver exige sabedoria. Abortar a operação ou segui-la a todo vapor? Melhor recorrer aos arquivos nessas horas. Eles remexem as feridas, mas ensinam, não é isso? Tomara que tenhamos sido bons alunos.