Fio de Ariadne: À deriva

06 março 2014

À deriva



Um abraço talvez bastasse pra acalmar a dor de quem sabe pouco da vida. Mas não têm outros braços. Não tem calor. Não tem ninguém agora.

A dúvida é a única certeza que restou. Certeza? Já houve alguma? Não sei. Viver é estar sempre à deriva. Terra firme é paisagem. Ou passagem. Lugar de barco é em alto mar.

Sou um barquinho safado, sem bote salva-vidas e sem regras pra navegar. Por isso, a dúvida. Por isso, a dor. A liberdade nem sempre é suave. Às vezes desce rasgando a garganta, como água salgada num afogamento. O corpo, prudente, busca uma forma de expulsá-la, mas sabe que, no fundo, afogar-se é construtivo. Sobreviver às águas é sempre uma redenção.

Não saber dói e vai doer sempre. Quem sofre a própria ignorância tem a estranha mania de nunca saber o suficiente. Aprender não significa conquistar tudo. A sabedoria é como o mar. Impossível explorá-la inteira. Quando você acha que vai alcançá-la, um vento sopra o barco para o horizonte e, então, surge o infinito. De águas e de saberes. Difícil estar à deriva nessa hora. Talvez um abraço resolvesse. Talvez.

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