Fio de Ariadne: Março 2014

25 março 2014

A importância de desistir


Conferi no dicionário. Desistir: renunciar; abrir mão de; não querer continuar; abster-se. Lembrei dos conselhos tantas vezes recebidos: não desista, siga em frente, persevere! Normalmente obedeço. Sou das mais resistentes. Mas chega hora em que o corpo cansa, a cabeça esquenta, o coração quer sossego.

Hoje eu quero desistir. E não há mal algum nisso. Desistir nem sempre é abrir mão de algo bom. Muitas vezes insistimos no que já não funciona (ou nunca funcionou). Arrastamos histórias, acumulamos mágoas, alimentamos expectativas que só aumentam a ansiedade e a insônia.

Eu desisto. Renuncio a esperanças infundadas e desejos escondidos. Abro mão do risco. Não quero continuar o que já não me faz bem. Abstenho-me da espera.

Desisto e ponto. Sem olhar para trás. O novo é o que me interessa. Às vezes desistir nada mais é que ganhar um mundo de outras possibilidades. Não é o fim. É o início de um novo caminho. Mais divertido, mais leve, e sem essa corrente incômoda que me impede de desbravar o mundo.


06 março 2014

À deriva



Um abraço talvez bastasse pra acalmar a dor de quem sabe pouco da vida. Mas não têm outros braços. Não tem calor. Não tem ninguém agora.

A dúvida é a única certeza que restou. Certeza? Já houve alguma? Não sei. Viver é estar sempre à deriva. Terra firme é paisagem. Ou passagem. Lugar de barco é em alto mar.

Sou um barquinho safado, sem bote salva-vidas e sem regras pra navegar. Por isso, a dúvida. Por isso, a dor. A liberdade nem sempre é suave. Às vezes desce rasgando a garganta, como água salgada num afogamento. O corpo, prudente, busca uma forma de expulsá-la, mas sabe que, no fundo, afogar-se é construtivo. Sobreviver às águas é sempre uma redenção.

Não saber dói e vai doer sempre. Quem sofre a própria ignorância tem a estranha mania de nunca saber o suficiente. Aprender não significa conquistar tudo. A sabedoria é como o mar. Impossível explorá-la inteira. Quando você acha que vai alcançá-la, um vento sopra o barco para o horizonte e, então, surge o infinito. De águas e de saberes. Difícil estar à deriva nessa hora. Talvez um abraço resolvesse. Talvez.