Fio de Ariadne: Criando asas

19 outubro 2013

Criando asas


Alice não sabe. E isso a incomoda. Sai andando pela rua, contando os ladrilhos, como quando era criança. Faz 15 graus, mas ela sente muito mais frio por dentro. Difícil explicar. Nem as botas e o casaco pesado conseguem aquecê-la. Tem algo faltando. Ou sobrando, talvez. Só o que ela sabe é que não é mais a mesma. Talvez seja só uma tempestade. Vai passar. Amanhã o dia vai estar ensolarado de novo e a boa e velha Alice vai estar de volta. Mas o coração diz que, ainda que a chuva passe, algo vai amanhecer diferente. E isso não é ruim.

Transformações sempre foram doloridas. Talvez por isso a lagarta precise do casulo. Alice também queria um, mas viver exige relações e a vida não para pra gente virar borboleta. Tudo segue enquanto as asas rasgam a pele pra crescer. Dói, é claro, mas Alice desconfia que vai valer a pena. Dá pra ver mais do mundo quando se tem asas, não é, Dona Borboleta? Um par de asas é como um par de olhos a mais, pra enxergar a vida de outros ângulos, novas perspectivas. É exatamente o que Alice precisa: perceber as diferentes formas de ser feliz. Aprumar as asinhas iniciantes e saber onde buscar o sol sempre que estiver frio como naquele dia. Ou, então, usar o novo olhar para vislumbrar o frio lá do alto e ver que ele, às vezes, é necessário e pode formar belas paisagens.

Transformar-se é uma questão de perspectiva. Olhar a si e aos outros de outro ângulo pode responder muita coisa. Ainda que faça frio e mesmo que doa, vai ser importante para aprender a voar. E quando Alice já estiver usando suas asas, vai ficar claro como água: voar é tudo o que ela deveria ter feito a vida inteira.

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