Fio de Ariadne: Outubro 2013

30 outubro 2013

Em manutenção


Hoje eu quero o silêncio. Não quero discutir o mundo, nem as pessoas. Não quero gastar minha energia tentando parecer isso ou aquilo. Cansei de encenar essa peça inacabada que é viver. Hoje, na pauta, só eu mesma. É dia de faxina aqui dentro. Um dia útil, como outro qualquer. Melhor assim: tentar entender a vida vivendo. É dia de mexer nas caixas, mesmo as que estão guardadas há tanto tempo. Dia de limpar a poeira, jogar fora o que não preciso e selecionar o que merece ser guardado.

Hoje eu acumulo menos que antes. A sabedoria dos anos me ajudou a exercitar o desapego. Ideias, pessoas, sentimentos, coisas. Tudo no seu devido lugar. Eu no meu devido lugar. A rotina me roubou de mim mesma. É por isso que hoje eu não quero estar em lugar algum a não ser em mim. Desculpe o transtorno, estou em manutenção.

Na estante agora, só o que realmente me ensina. E o que me torna mais leve. Os pesos eu jogo fora. Papéis sem história nem na memória eu quero mais. E mesmo as memórias merecem criteriosa seleção: se ainda me servem, deixo-as num bom lugar à sombra, sempre à mão, para quando precisar. Se não me ajudam, são descartadas na lixeira de não-recicláveis. Já não fazem diferença no enredo.

É um solitário e complexo trabalho de limpeza. Árduo. Necessário. Às vezes, deixamos o entulho tomar nosso espaço. Sufoca. E, nesse caso, só nós mesmos pra trazer o ar de volta.

O resultado é compensador.

19 outubro 2013

Criando asas


Alice não sabe. E isso a incomoda. Sai andando pela rua, contando os ladrilhos, como quando era criança. Faz 15 graus, mas ela sente muito mais frio por dentro. Difícil explicar. Nem as botas e o casaco pesado conseguem aquecê-la. Tem algo faltando. Ou sobrando, talvez. Só o que ela sabe é que não é mais a mesma. Talvez seja só uma tempestade. Vai passar. Amanhã o dia vai estar ensolarado de novo e a boa e velha Alice vai estar de volta. Mas o coração diz que, ainda que a chuva passe, algo vai amanhecer diferente. E isso não é ruim.

Transformações sempre foram doloridas. Talvez por isso a lagarta precise do casulo. Alice também queria um, mas viver exige relações e a vida não para pra gente virar borboleta. Tudo segue enquanto as asas rasgam a pele pra crescer. Dói, é claro, mas Alice desconfia que vai valer a pena. Dá pra ver mais do mundo quando se tem asas, não é, Dona Borboleta? Um par de asas é como um par de olhos a mais, pra enxergar a vida de outros ângulos, novas perspectivas. É exatamente o que Alice precisa: perceber as diferentes formas de ser feliz. Aprumar as asinhas iniciantes e saber onde buscar o sol sempre que estiver frio como naquele dia. Ou, então, usar o novo olhar para vislumbrar o frio lá do alto e ver que ele, às vezes, é necessário e pode formar belas paisagens.

Transformar-se é uma questão de perspectiva. Olhar a si e aos outros de outro ângulo pode responder muita coisa. Ainda que faça frio e mesmo que doa, vai ser importante para aprender a voar. E quando Alice já estiver usando suas asas, vai ficar claro como água: voar é tudo o que ela deveria ter feito a vida inteira.

14 outubro 2013

Em busca da felicidade


Felicidade é sob medida. O que me faz feliz é diferente do que te faz feliz. Não existe fórmula pronta. Não tem regra pra ser feliz. Felicidade é aquilo que me faz caber exatamente nesta roupa chamada eu. Seguir o próprio coração talvez seja o único conselho pertinente. Ao longo da vida, você vai ouvir muitos outros. Receitas mágicas que valem pela intenção, mas deixam a dúvida. O que é ser feliz, afinal? É instintivo. Cada um sabe bem onde está a sua felicidade. Não está no outro. Não está em uma atitude programada. Não está nas tantas regras que a vida em sociedade nos impõe. E, principalmente, a felicidade não está em modelo algum. É como um teste de DNA. O que me faz feliz tem que ser compatível comigo mesma. Ser feliz é estar confortável nesta missão esquisita de ser gente. Para isso, há muitos caminhos. Podemos experimentar quantos forem possíveis, se quisermos. Em algum momento, achamos exatamente o que nos cabe melhor. E, então, não importa o que digam, nem quantas receitas prontas nos ofereçam. A consciência de si e do que nos faz bem já é uma conquista. Ser feliz é só uma consequência.