Fio de Ariadne: Setembro 2013

26 setembro 2013

Desaceleração


Eu preciso de pausas. Silêncio (ou música), respiro, solidão. É meu auto-resgate. A maneira que tenho de me reencontrar quando o mundo pesa. Sou movida a pensamentos. Gosto de observar. Isso inclui os outros e a mim mesma. A maneira como lidamos com gente e situações diz muito sobre nós e é peça fundamental na busca do auto-conhecimento. Cada um tem seu tempo, seu ritmo, suas necessidades. Eu exijo pausas. Caso contrário, eu me afogo. Perco-me em meio a tantas informações, tantas energias. O mundo tem áudio e vídeo demais. Nem sempre dá pra acompanhar. Não dá pra editar a vida, né? Mas dá pra colocar um respiro, fazer uns efeitos e, de alguma forma, selecionar (e deletar) o que não nos faz bem. Sou mais passional do que aparento. E não dá pra ser assim o tempo todo. É bom desacelerar de vez em quando. Deixar as coisas seguirem em slow motion pra depois dar conta de apertar firme no flash forward. Enquanto eu puder, vou lutar por isso: minhas paradas, meus silêncios, estar comigo mesma. É saudável e motivador. São as pequenas pausas que me movem.

23 setembro 2013

Primavera


Começou a primavera. Linda, doce, inspiradora estação. Com ela, o renascimento, o chorinho vibrante das flores e seu colorido. O calor, a beleza, a esperança.

O que espero agora é que também renasça algo em mim. Um inverno gélido e cinzento me tomou nos últimos tempos. Não quero mais. Digo a ele que pegue sua brisa fria e vá embora. Sou primavera. Tenho cor, tenho sol, luz, perfume. Sinto muito, Seu Inverno, o senhor não cabe mais aqui!

Meu coração palpita, quer deixar brotar o que é bom. E tem muita planta bonita neste jardim. Elas andaram secas, podadas pelas chateações da vida, mas vão renascer agora. Belas e cheias de histórias pra contar. Cada flor, uma memória. E o alívio da superação. A certeza de que, ainda que o inverno seja rigoroso e pareça interminável, um dia o cinza transforma-se em colorido. E todo o esforço do plantio ou da poda terá valido a pena.Viver é um paciente exercício de jardinagem.

15 setembro 2013

Do caos à estrela


Não saber é dolorido. O desconhecido me amedronta. Estar sozinha me intimida. Não tem você pra me dar a mão. E aqui dentro está tudo tão bagunçado que eu não posso te dar a mão também. Eu com a minha bagunça, você com a sua. Vamos seguindo com nossos caos internos sem que possamos nos ajudar.

Tenho medo. Sou um bichinho encolhido, acuado pelas incertezas da vida. Você é uma delas. Mas, não se preocupe, a culpa é toda minha. E isso é uma das poucas coisas que eu sei. Sei também que não dá pra relaxar quando alguém pode te derrubar da nuvem a qualquer instante. Deveria haver um passaporte só de ida pra Felicidade. Eu te levaria comigo, se você quisesse. É certo que assim não existiriam tantas dúvidas, nem medos.

Ir ao estado feliz e ter que voltar, sem longa estadia, é mais difícil do que nunca ter ido. Da próxima vez, quero ir pra ficar. O convite está feito. Uma hora nosso caos interno há de virar estrela, como prenunciou Nietzsche. Então, fica combinado assim: a gente se encontra lá, na Felicidade. Ou, quem sabe, partimos juntos. Aposto que a paisagem da estrada é sensacional.

10 setembro 2013

Não me chama de Sininho, que eu cansei do Peter Pan


Amiga leitora, acontece com todo mundo. Você conheceu o cara, achou que ele fosse bacana, quis conhecê-lo melhor. Não foi um pedido de casamento. Você só pensou em conhecê-lo melhor, explorar a possibilidade. Nenhuma letra a mais. Ele não entendeu. Colocou naquela cabeça pré-histórica que você o havia eleito príncipe do cavalo branco. Ficou confuso (eles adoram essa palavra) e fugiu. Afinal, a possibilidade de conhecer uma mulher bonita, legal e independente é mesmo assustadora. Para os garotos, é claro. 

Outro cenário: ele conseguiu avançar. Vocês estão saindo, está bom assim. Tudo na velocidade um. Ninguém conheceu a família de ninguém ainda. As afinidades são muitas, o papo rende, vocês se divertem. É, então, que você demonstra que está gostando. Nada demais. Limita-se a ser fofa. Velocidade um e meio. Pra ele, não dá. Está convicto de que você quer dançar a valsa nupcial no castelo do rei. Demorou só mais um pouquinho: ele ficou confuso e fugiu. Afinal, estar com uma mulher segura, divertida e inteligente é mesmo assustador. Pra quem mesmo? Ah! Para os garotos, é claro.

Dados do Instituto Internacional de Pesquisa em Homens Infantis mostram que 85% da população masculina sofre de um grave distúrbio: a síndrome de Peter Pan. Vivem na Terra do Nunca, onde é permitido ser criança pra sempre. Crescer é mesmo confuso e fugir pode parecer a melhor saída. Nossos Peter Pans foram criados em uma sociedade machista em que há mulher pra casar e mulher pra se divertir. Um mundinho quadrado em que aquela que demonstra interesse é piriguete ou quer levá-lo ao altar. Cara amiga, não temos escolha: ou somos reduzidas a boa bisca ou a solteirona casadoira. Não tem conversa, não tem meio termo.  

É que na Terra do Nunca, não existem mulheres modernas. Na verdade, na Terra do Nunca não existem mulheres. Cercados de fadas que resolvem qualquer coisa com seu pó estrelado, eles esquecem como é viver de verdade. E não entendem que a princesinha que eles têm na cabeça ficou nos filmes da Disney. E nos dos anos cinquenta.

04 setembro 2013

Rasgue os rótulos, por favor



Nunca gostei de rótulos. As pessoas têm ingredientes demais para serem rotuladas. O nerd, a santa, o porra-louca, a piriguete, o inteligente, a grosseirona, o safado, a boazinha. Não! Tem muito mais elementos aí debaixo. Tem sangue correndo, hormônios pipocando, pensamentos gritando, coração batendo. Tem a vida ensinando. Tem a mudança acontecendo diariamente.

Ninguém é 100% alguma coisa. Ninguém é pra sempre a mesma coisa. Viva! É isso que dá sentido à vida: a oportunidade de fazer diferente, de aprender, de mudar, de experimentar. Essência, é claro, cada um tem a sua. Ela nos norteia, mas não nos torna imutáveis. Ela não nos faz um rótulo, um carimbo, um passaporte para o destino certo. Gente é algo maravilhosamente complexo. E surpreendente! Não dá pra ser taxativo ao descrever quem quer que seja.

Ganhei alguns rótulos ao longo da vida e sei o quanto eles são superficiais. Sei o quanto eu sou mais do que eles e, por isso mesmo, entendi que as pessoas não podem ser descritas em poucas palavras. Os rótulos são sempre cruéis. Mesmo aqueles que parecem positivos. São cruéis porque não dão oportunidade à pessoa de ser outra coisa. Se ela compra a embalagem para si, corre o risco de ser o tal rótulo a vida inteira e nunca descobrir suas muitas possibilidades.

Quem rotula o outro normalmente se baseia na superficialidade. E o bom da vida é olhar além, descobrir as múltiplas nuances de ser. E, então, quem gosta de carimbar pessoas, nem percebe, mas está se rotulando (e limitando) também.


PS: A foto que ilustra o post é do fotógrafo Steve Rosenfield, autor da série What I be Project, na qual retrata pessoas exibindo os principais julgamentos que carregaram a vida inteira. Mais sobre o projeto aqui