Fio de Ariadne: Quando a vida resolve falar

23 agosto 2013

Quando a vida resolve falar


Era uma manhã agradável. Meia estação. A brisa soprava suave, brincando de vai e vem nos cabelos de Alice. Ela nem se dava conta, tão entretida estava lá com seus botões. Sentou-se no banco à beira da lagoa, abraçando as pernas contra o corpo. Era sua maneira inconsciente de se proteger.  Queria se esconder. Estava decidida a se isolar. Conviver é uma arte difícil.

Alice é uma pessoa sem escudos. Entrega-se de cara limpa. Acredita de fato na capacidade humana de adaptar-se às situações pelo bem comum ou de entender o que não precisa ser dito. Acontece que vez ou outra a vida resolve falar. E não tem papas na língua. A vida não se condói. Então, nos mostra sem cerimônia que a grama não era tão verde assim. Revela o que o coração de gente como Alice tenta encobrir: o lado feio do mundo.

Agora Alice tenta, em sua concha, resguardar-se de novas revelações. Nem gente, nem lugares, nem coisas. Nada mais cabe no seu espaço. Abraçou as pernas com mais força e deixou a insegurança umedecer o rosto. Ela, que sempre gostou de pontes, resolveu que é mais seguro ser ilha. Só não sabe ainda o que fazer com aquele abraço guardado e agora fadado ao desuso. Estar sozinho é para os fracos. E Alice já foi forte tempo demais.

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