Fio de Ariadne: O menino e o tempo

29 agosto 2013

O menino e o tempo


“Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino...” Trilha sonora mental para a imagem que eu via, a música de Caetano Veloso se repetia na minha cabeça. Eu vi o menino correndo. Não era, porém, uma cena de recreação. Não era a cena comum da minha infância, da infância dos meus irmãos, dos meus amigos. Era a imagem de uma criança que, em meio ao trabalho do dia, “dava-se ao luxo” de ser criança por alguns segundos.

O sol de quase meio dia estourava os miolos de quem não tinha o abrigo de árvores, marquises ou do ar-condicionado. E lá estava ele, correndo à beira da avenida, arriscando-se próximo aos carros que acabavam de arrancar sem comprar sequer uma de suas balas ou chocolates. Sempre me soou estranha a imagem de uma criança vendendo doces. Logo os doces, ícones de uma infância feliz, cores e sabores para quem não deve ter com o que se preocupar. “É como tirar doce da boca de criança”, diz o ditado, ironicamente cabível ao caso. Uma criança que vende balas no sinal teve o doce tirado da boca, a infância roubada.

Naquele instante, o menino permitia-se ser criança. O sorriso ao correr atrás do amigo, que ali também era um colega de trabalho, revelava a beleza do pequeno ser, maltrapilho, suado e de corpo franzino. À medida em que corria, sem perceber, entretido na inocente brincadeira, abria espaço entre os passantes que, desconfiados, apertavam bolsas e escondiam objetos de valor.

Foi, então, que “vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino”. Diante dos meus olhos, havia uma criança. E isso era o que me tocava. Ele não seria criança para sempre. E isso era o que me doía. O tempo se encarregará de cumprir seu papel, sem relevar nada, sem ressalvas, sem medidas. Até quando aquele menino insistirá na venda frustrada de doces, na vida regrada, na escassez? Até quando será indiferente às bolsas que se escondem e aos trincos que se fecham a sua volta?

“Vida fácil” a que lhe oferecerão mais tarde. E bem provavelmente não tão tarde assim. A vida do crime talvez lhe pareça mais atraente que os dias debaixo de sol, chuva e preconceito. Talvez em breve “o menino correndo” não seja a imagem de uma brincadeira, mas a de uma fuga: da polícia, da violência, da disputa, dos tiros, do tráfico, da vida difícil em que se criou.

Segui com Caetano na cabeça. Trilha e imagem. Filme de triste fim o que criei. Olhei para trás e tive tempo de ver o pequeno garoto de volta ao sinal, com sua caixa de balas e chocolates. Levaria algum sonho? Sinal aberto para os carros e uma venda apenas. Ele sorria satisfeito. Até quando?

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