Fio de Ariadne: Agosto 2013

30 agosto 2013

Portas



Estou deixando todas as portas abertas. As que me levam a algum lugar e as que trazem as pessoas aqui. São portas diversas. Estou cercada delas. Não faço distinção, nem penso em fechá-las. Quero o intercâmbio, a movimentação. Quero a benção da escolha. Portas são como pontes. Sempre ligam a alguma coisa. Deixá-las abertas pede coragem. Nunca se sabe quem vai entrar e nem sempre temos ideia do lugar aonde levam. Mas uma coisa é certa: algo será diferente. Portas são anti-monotonia. Levam a outras perspectivas, outras possibilidades. O excesso de zelo, às vezes, faz a vida chata. Deixo todas as portas abertas e jogo todos os trincos fora. Menos armada, mas nem por isso menos segura. É sempre bom ressignifcar a vida.

29 agosto 2013

O menino e o tempo


“Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino...” Trilha sonora mental para a imagem que eu via, a música de Caetano Veloso se repetia na minha cabeça. Eu vi o menino correndo. Não era, porém, uma cena de recreação. Não era a cena comum da minha infância, da infância dos meus irmãos, dos meus amigos. Era a imagem de uma criança que, em meio ao trabalho do dia, “dava-se ao luxo” de ser criança por alguns segundos.

O sol de quase meio dia estourava os miolos de quem não tinha o abrigo de árvores, marquises ou do ar-condicionado. E lá estava ele, correndo à beira da avenida, arriscando-se próximo aos carros que acabavam de arrancar sem comprar sequer uma de suas balas ou chocolates. Sempre me soou estranha a imagem de uma criança vendendo doces. Logo os doces, ícones de uma infância feliz, cores e sabores para quem não deve ter com o que se preocupar. “É como tirar doce da boca de criança”, diz o ditado, ironicamente cabível ao caso. Uma criança que vende balas no sinal teve o doce tirado da boca, a infância roubada.

Naquele instante, o menino permitia-se ser criança. O sorriso ao correr atrás do amigo, que ali também era um colega de trabalho, revelava a beleza do pequeno ser, maltrapilho, suado e de corpo franzino. À medida em que corria, sem perceber, entretido na inocente brincadeira, abria espaço entre os passantes que, desconfiados, apertavam bolsas e escondiam objetos de valor.

Foi, então, que “vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino”. Diante dos meus olhos, havia uma criança. E isso era o que me tocava. Ele não seria criança para sempre. E isso era o que me doía. O tempo se encarregará de cumprir seu papel, sem relevar nada, sem ressalvas, sem medidas. Até quando aquele menino insistirá na venda frustrada de doces, na vida regrada, na escassez? Até quando será indiferente às bolsas que se escondem e aos trincos que se fecham a sua volta?

“Vida fácil” a que lhe oferecerão mais tarde. E bem provavelmente não tão tarde assim. A vida do crime talvez lhe pareça mais atraente que os dias debaixo de sol, chuva e preconceito. Talvez em breve “o menino correndo” não seja a imagem de uma brincadeira, mas a de uma fuga: da polícia, da violência, da disputa, dos tiros, do tráfico, da vida difícil em que se criou.

Segui com Caetano na cabeça. Trilha e imagem. Filme de triste fim o que criei. Olhei para trás e tive tempo de ver o pequeno garoto de volta ao sinal, com sua caixa de balas e chocolates. Levaria algum sonho? Sinal aberto para os carros e uma venda apenas. Ele sorria satisfeito. Até quando?

23 agosto 2013

Quando a vida resolve falar


Era uma manhã agradável. Meia estação. A brisa soprava suave, brincando de vai e vem nos cabelos de Alice. Ela nem se dava conta, tão entretida estava lá com seus botões. Sentou-se no banco à beira da lagoa, abraçando as pernas contra o corpo. Era sua maneira inconsciente de se proteger.  Queria se esconder. Estava decidida a se isolar. Conviver é uma arte difícil.

Alice é uma pessoa sem escudos. Entrega-se de cara limpa. Acredita de fato na capacidade humana de adaptar-se às situações pelo bem comum ou de entender o que não precisa ser dito. Acontece que vez ou outra a vida resolve falar. E não tem papas na língua. A vida não se condói. Então, nos mostra sem cerimônia que a grama não era tão verde assim. Revela o que o coração de gente como Alice tenta encobrir: o lado feio do mundo.

Agora Alice tenta, em sua concha, resguardar-se de novas revelações. Nem gente, nem lugares, nem coisas. Nada mais cabe no seu espaço. Abraçou as pernas com mais força e deixou a insegurança umedecer o rosto. Ela, que sempre gostou de pontes, resolveu que é mais seguro ser ilha. Só não sabe ainda o que fazer com aquele abraço guardado e agora fadado ao desuso. Estar sozinho é para os fracos. E Alice já foi forte tempo demais.

20 agosto 2013

Temperinhos pra viver



Acho a vida mais bonita nos detalhes. Sempre gostei de apreciar as miudezas. Sou do tipo que para pra ver as flores no caminho, dou risada da criança que ensaia os primeiros passinhos e fico horas ouvindo as histórias da velhinha na praça. É disso que é feita a vida. Uma mistura de ingredientes casuais que dão muito mais sabor ao prato.

Por vezes, uma avalanche de modernidade nos ataca e tenta roubar o ponto da receita, parece que vai desandar. Trânsito demais, trabalho demais, decepções demais, problemas demais. Um milhão de pensamentos por minuto. O excesso de sal faz a vida perder o gosto.

Sempre que sinto os exageros me tomando, vou lá e meço tudo de novo. Às vezes é preciso se esvaziar pra sentir-se pleno. E as pequenas belezas do mundo, por mais que pareçam escondidas no recheio, fazem toda a diferença no gostinho final.

Olhar ao redor não significa perder o foco. Dá pra conquistar tudo o que a gente quer sem perder a capacidade de encantar-se com o que acabou de acontecer aqui ao lado. Aconteceu, passou, a vida seguiu com todos os seus compromissos chatos, mas, pra quem viu, agora ela tem muito mais doçura e está bem mais leve de carregar.

18 agosto 2013

Amanhã


E, então, ele bateu à porta. Era discreto e silencioso, mas, eu sabia, tinha muito a me dizer. Carente, estendi os braços assim que o vi. Só eu sabia o quanto esperei. Ele pareceu constrangido, mas abraçou-me de volta. Um abraço xôxo, mas nem por isso menos importante. Ele me olhou nos olhos e nessa hora, senti-me tragada, tomada, encantada. Sim, ele tinha muito a me dizer e começou assim, naquele olhar. Meus sonhos estavam ali. Meus planos, meus medos, minhas alegrias, as lágrimas escondidas e os sorrisos bobos de quem espera que as coisas um dia sejam diferentes. 

Convidei-o para entrar. Ele não fez cerimônia. Já passava da hora. Carecia dele na minha vida. E ele, àquela altura, precisava de mim para ser. Ao entrar pela porta, ele entrava na minha história. Estava feito. Não tínhamos como voltar. Contou-me um bocado do que eu precisava saber. Outro tanto deixou que eu simplesmente vivesse. Certas coisas a gente só entende quando vive. “Estou pronta”, eu disse. Foi, então, que a transformação se deu e, de futuro, ele chegou para ficar e transformou-se em presente. No melhor sentido da palavra.

15 agosto 2013

Sobre amor e liberdade


Hoje quero exaltar o amor. Mas não o amor-prisão, ao qual muita gente se auto-condena. Reverencio o amor-liberdade, que é o amor genuíno, sem misturas erradas e que, por isso mesmo, é o que está mais perto da felicidade. Os relacionamentos felizes são como laços, que além de bonitos podem ser desfeitos a qualquer momento sem deixar marcas. Isso não significa que sejam frágeis e se desfaçam à toa. Muito pelo contrário: fazemos questão de manter os laços porque eles nos unem sem apertar. Relacionamentos doloridos funcionam como algemas. E das algemas queremos nos livrar o quanto antes!

Amar de verdade é deixar o outro livre para  ter seus próprios momentos, fazer suas próprias escolhas. E, curiosamente, nos relacionamentos onde há liberdade, na maior parte do tempo a escolha é justamente estar com o parceiro. É claro: relacionar-se é exatamente uma escolha e nós gostamos de estar onde somos livres.

Tristes são os relacionamentos em que o casal limita-se ao outro. Todos temos uma infinidade de conexões possíveis com outras pessoas, outras atividades e com nós mesmos. Por que não aproveitá-las? Explorar as diferentes possibilidades da vida não significa trair ou ser um mau companheiro. A fidelidade ao outro começa quando somos fiéis a nós mesmos.

Assim, desejo que, antes de mergulhar em um relacionamento, todos entendamos bem a diferença entre submissão e respeito, possessividade e cuidado, sufocamento e presença, falatório e diálogo, obrigação e opção, dependência e liberdade, apego e amor.

E que, uma vez comprometidos, sejamos LIVRES para sempre.

06 agosto 2013

De olhos fechados



Olho nos seus olhos imaginários e penso no quanto gosto dos seus olhos reais. Verdadeiros, porque são de carne e córnea e porque dizem quase tudo o que eu quero saber. Quase, porque guardam um tantinho de mistério, de propósito, só pra judiar ainda mais deste coração que tem gosto especial pelo oculto. Ter que descobrir tem mais sabor do que achar exposto, de graça, sem investigação nenhuma. Por isso, nunca fui de me revelar. Pelo menos não de cara. Tem que dar um trabalhinho. Faz parte do processo. É meu seguro de vida, caso as coisas não saiam como eu gostaria. Talvez eu até me jogue depois. Mas só a partir do momento em que você disser que eu posso pular. Não caio sem rede de proteção. É que já me estropiei algumas vezes.

Hoje você está presente como nunca. Quase posso sentir o toque, o compasso da respiração. De olhos fechados, ouço baixinho uma voz cantarolar sua música predileta. É você, que chega de leve no meu pensamento, a passos calmos para não me acordar. Doce brincadeira de idas e vindas. Escondo-me, mas aqui você sempre me acha. Dá raiva ser assim tão descoberta! Reclamo da sua perspicácia, mas não demora eu me rendo. Gargalho contigo, sem pudores. Entregue. Segura pela certeza de que pelo menos ali, no meu salão imaginário, basta abrir os olhos para não me machucar.