Fio de Ariadne: Tolices do amor

16 julho 2013

Tolices do amor


Ela passava ali todos os dias. Cumprimentava. Raramente puxava papo. Normalmente eram diálogos breves, mas duravam tempo suficiente para o coração quase sair pela boca. Ele trabalhava na banca de revistas perto do trabalho dela. Tudo começou com um comentário sobre a capa de um magazine que ela comprou. Ele também gostava daquele tipo de leitura. E, assim, um gosto em comum puxou a imensa lista de afinidades. Na maioria das vezes, a timidez só permitia dizê-las com um oi e um sorriso. E isso bastava. As coincidências cabiam todas ali, naquela pequena curva do rosto.

Não demorou e ela percebeu que sorria pra ele em outros momentos: quando ele não estava por perto! Eram sorrisos ainda mais espontâneos. Surgiam das lembranças. E, então, ela quis passar pela banca com mais frequência, comprar novas revistas, cumprimentar mais vezes, puxar outros assuntos. Tudo tinha sabor de peraltice da adolescência. Esfriava a barriga, rendia boas memórias, mas não ia além. Os assuntos eram rigorosamente pautados pelas manchetes do dia, o sorriso era sempre pueril e os olhares brincavam de pique-esconde.

Ela contentou-se, então, em querê-lo às escondidas, nas horas vagas, entre uma lembrança e outra. Triste amor platônico, despertaria a piedade do coração mais frio! À cada passagem em frente à banca, ela procurava por ele e esperava em silêncio que ele tomasse uma atitude. Ele limitava-se a sorrir ou comentar as novas edições das revistas. Ela afligia-se com o desinteresse dele. Mal sabia que nele também doía o desinteresse dela. E, assim, seguiam, limitados pela timidez trocada. A promessa de felicidade abafada pelo medo.

O ritual era diário: esperavam-se, sorriam, cumprimentavam-se e controlavam heroicamente a emoção de estarem juntos. Depois seguiam cada qual o seu dia, a pensarem um no outro, imaginando como seria se aquele singelo encantamento fosse correspondido.

2 comentários :

Flávio Orsini disse...

Isso é mais comum do que se imagina... parabéns pela crônica!

Ariadne Lima disse...

Obrigada,Flávio! Acho que as pessoas estão deixando de acreditar no amor e não arriscam mais. Deixam o tempo passar e engolir uma história que poderia ter sido legal.