Fio de Ariadne: Julho 2013

25 julho 2013

As paradas do tempo


Um sopro gelado entra sorrateiro pela fresta da janela. Arrepia o corpo inteiro. Olho no relógio. Dez pra meia noite. Penso no tempo e seus mistérios. O ano passa rápido. Já é setembro. Plena primavera. Minha estação favorita. As pessoas ficam mais leves, eu acho. Cores, sorrisos, perfume. A vida mais gostosa de seguir. De novo, penso no tempo. Que chamem de clichê, mas a verdade seja dita: ele sabe das coisas. Fico intrigada como tudo acontece quando tem que ser. Nós e nossa ansiedade, coberta de insapiência, queremos sempre o agora. Não dá pra esperar. A urgência nos consome. E aí é que ele, o Tempo, resolve brincar de estátua. As coisas não andam, não acontecem, não chega novidade alguma. A urgência ainda nos consumindo. E o senhor Tempo lá, divertindo-se às custas da nossa infância evolutiva. Até que cansamos de nos consumir. Resolvemos olhar pro lado, enxergar o que a ansiedade acabou escondendo. Gostamos do que vemos. Percebemos novas nuances. Arriscamos outros caminhos. E, então, numa noite dessas qualquer, o Tempo resolve que a brincadeira acabou. É hora de colocar os ponteiros para andar e as histórias voltam a acontecer. Começam exatamente do ponto onde pararam. A vida segue. Até a próxima parada, que pode servir para dar fôlego, entendimento ou simplesmente nos ensinar que a espera é o que dá sabor ao fruto. Bacana mesmo esse troço chamado vida...

16 julho 2013

Tolices do amor


Ela passava ali todos os dias. Cumprimentava. Raramente puxava papo. Normalmente eram diálogos breves, mas duravam tempo suficiente para o coração quase sair pela boca. Ele trabalhava na banca de revistas perto do trabalho dela. Tudo começou com um comentário sobre a capa de um magazine que ela comprou. Ele também gostava daquele tipo de leitura. E, assim, um gosto em comum puxou a imensa lista de afinidades. Na maioria das vezes, a timidez só permitia dizê-las com um oi e um sorriso. E isso bastava. As coincidências cabiam todas ali, naquela pequena curva do rosto.

Não demorou e ela percebeu que sorria pra ele em outros momentos: quando ele não estava por perto! Eram sorrisos ainda mais espontâneos. Surgiam das lembranças. E, então, ela quis passar pela banca com mais frequência, comprar novas revistas, cumprimentar mais vezes, puxar outros assuntos. Tudo tinha sabor de peraltice da adolescência. Esfriava a barriga, rendia boas memórias, mas não ia além. Os assuntos eram rigorosamente pautados pelas manchetes do dia, o sorriso era sempre pueril e os olhares brincavam de pique-esconde.

Ela contentou-se, então, em querê-lo às escondidas, nas horas vagas, entre uma lembrança e outra. Triste amor platônico, despertaria a piedade do coração mais frio! À cada passagem em frente à banca, ela procurava por ele e esperava em silêncio que ele tomasse uma atitude. Ele limitava-se a sorrir ou comentar as novas edições das revistas. Ela afligia-se com o desinteresse dele. Mal sabia que nele também doía o desinteresse dela. E, assim, seguiam, limitados pela timidez trocada. A promessa de felicidade abafada pelo medo.

O ritual era diário: esperavam-se, sorriam, cumprimentavam-se e controlavam heroicamente a emoção de estarem juntos. Depois seguiam cada qual o seu dia, a pensarem um no outro, imaginando como seria se aquele singelo encantamento fosse correspondido.

04 julho 2013

Esperando sinais


Gosto dos sinais. É a forma de Deus nos falar nas entrelinhas.

Uma página aberta ao acaso, um encontro inesperado, uma cena vista na rua. A música que toca na sala de espera do consultório, a ligação do amigo com quem você não falava há tempos, um programa descoberto na TV enquanto você zapeava. Um elogio repentino, um comentário descabido, um sonho absurdo, um erro de itinerário.

É a forma preferida de Deus dar seu recado. Nem sempre ouvimos, nem sempre entendemos. Nem sempre abrimos de fato o coração para receber a mensagem: sem filtros, sem desvios arquitetados pela nossa vontade.

Estar atento aos sinais é estar de olho na própria vida. Passado, presente, futuro. E quando, ainda que estejamos atentos, os sinais pareçam não vir, a conclusão é simples: o silêncio fala. A ausência é um sinal em si. E daqueles que gritam.