Fio de Ariadne: Junho 2013

21 junho 2013

Dirces do Brasil


Era um junho atípico. Os dias, normalmente frios, fervilhavam. E Dirce estava lá, no meio do fogo. Saiu às ruas como milhares de brasileiros, empurrados por uma onda que nasceu aparentemente pequena e desacreditada, mas virou um tsunami e abalou as estruturas do poder.

Dirce estava lá. Não sabia exatamente pelo que estava, mas não cogitava sair. Estava certa apenas de que precisava estar ali. Não era estudada, conhecia pouco de política, mas tinha um senso cívico que lhe dava a certeza de que era importante. O grito ainda parecia disforme. Talvez por ter estado na garganta, entalado, por muito tempo. Ou por haver tantos motivos para gritar. Normal que saísse indeciso. Ainda assim era necessário.

Dirce seguia a multidão mesmo sem compreender o que alguns repudiavam. PEC 37, estatuto do nascituro? "Essa juventude sabe tanta coisa!", dizia. E não é que sabe mesmo, Dirce? Bom que decidiram mostrar e levar consigo gente como você, que sabe muito também, mas nunca foi ouvido. Dirce tinha a sabedoria dos anos, aquela trazida pela labuta. A inteligência de quem tem que administrar a vida com um salário mínimo e conviver com a dor, porque o médico do posto só tem horário daqui a quatro meses. Dirce sabe como ninguém que não são só vinte centavos. Sabe, inclusive, que os vinte centavos viram trinta reais no fim do mês e que trinta reais é muita coisa para quem tem o salário e as responsabilidades dela.

Por isso, Dirce seguia. No meio do tsunami. No olho do furacão. Sem muitas certezas, mas cheia de esperança. Confiante de que algo já havia mudado. A começar por ela própria. Dirce já não é a mesma. Agora sabe que tem voz. E que, fazendo-se ouvir, estará mais perto de ter a sua vez, por tanto tempo esperada.

04 junho 2013

Ser ou não ser


Acordou naquele dia e decidiu ser feliz. Abriu as janelas, deixou a brisa de outono entrar. O sol não esquentava muito, mas o céu tilintava de tão azul. Reparou nas plantas do jardim. Há quanto tempo não parava para apreciá-las? Puxou o ar e, com ele, o perfume verde de que tanto gostava. Foi até o aparelho de som e pôs sua música predileta. Saiu dançando, leve, como estava a sua alma, como tinha decidido que seria a partir de agora. De moletom, encardindo a meias no chão, os cabelos despenteados, decidiu viver. Decidiu que seria. Assim: o simples estado de ser. E, para ser, ninguém precisa do outro. Só se é alguma coisa sozinho. Relacionar-se é oferecer às pessoas a oportunidade de trocar impressões, colher informações, sentimentos e entendimentos que, claro, nos ajudam a ser, mas nunca serão nada em nós, sem que nós mesmos façamos algo por isso.


Ela, então, entendeu que seria feliz. A felicidade (ou qualquer outro sentimento) é o resultado do que construímos com todos os elementos que o mundo e as pessoas nos oferecem. Dê tinta, tela e pincéis a diferentes pessoas e você terá as mais diversas manifestações. Cada um usa as cores e as formas que tem em si. E ela resolveu que, a partir dali, seu mundo seria colorido. Sua história seria escrita com os elementos que a vida trouxesse. Sem obsessões por gente, coisas ou lugares. O que viesse viraria pintura. Seria arte. Teria cor, felicidade e leveza. Seria ela.