Fio de Ariadne: Tempo de reviver

26 maio 2013

Tempo de reviver

           

            
Mais um natal se aproximava. O novo ano era anunciado com festa. Nas ruas de Belo Horizonte, pessoas dividiam espaço com sacolas e as indispensáveis sombrinhas no chuvoso dezembro. João andava a passos largos; passos de quem tinha urgência de viver. Debaixo do braço, o jornal trazia marcada a oferta de emprego. O salário não seria dos melhores, mas João já não se importava. Precisava trabalhar. Eram três anos de desemprego, desde a falência da empresa onde trabalhara a vida inteira.

O homem subiu a rua, procurou o número. Pela imensa fila formada à porta, não demorou a identificar o endereço. Incorporou-se ao grupo, tentando não permitir que o desânimo o mandasse de volta para casa. Precisava passar o tempo de alguma maneira, ocupar a mente. Aquele seria um longo dia. Pegou o jornal. Na primeira página, o jornal anunciava o aumento salarial para parlamentares: R$ 24.500, dizia a edição. João olhou novamente a seção de classificados e conferiu o salário oferecido pelo emprego ao qual era candidato. Estava longe de alcançar os quatro dígitos! Sentiu um aperto no peito; como o daqueles que não vêem mais o que fazer.

Na fila, uma mulher carrancuda distribuía fichas cadastrais aos candidatos. João retirou a caneta do bolso e pôs-se a preencher o papel. Nome, telefone, endereço, dados convencionais. Mais adiante, pediam-se informações sobre o último emprego. João desviou os olhos do papel, reticente. Doeu-lhe a lembrança da empresa onde fizera sua vida. Nela, havia aprendido tudo o que precisava para ter o respeito dos colegas. Lá, também conhecera a esposa, mãe dos quatro filhos que, já adultos, demonstravam a educação e a hombridade que lhes foram passadas na criação.

Tentando não se emocionar, João desviou novamente o olhar para a publicação que trazia nas mãos. As manchetes não conseguiram, porém, sustentar-lhe a fuga. Mais uma vez, o homem perdeu-se em seus pensamentos. O jornal também suscitava lembranças. Sempre gostara de acompanhar as notícias. Ainda estava fresco na memória o dia em que anunciou satisfeito, à mulher e aos filhos, a compra da assinatura de “O Tempo”, recém-lançado na época.

Naquelas páginas, João havia acompanhado os últimos 10 anos de sua vida e do mundo em que estava inserido. As conquistas e dores da humanidade, as grandes catástrofes, as guerras. A morte da princesa Diana, o pentacampeonato brasileiro, o 11 de setembro, a despedida de João Paulo II, a eleição do primeiro presidente de esquerda da história do Brasil, as grandes fraudes, o mensalão.

Folheando o caderno de economia, João recordou o dia em que, com olhos marejados, leu a notícia da falência da empresa da qual fora funcionário durante anos. Ele de fato “vestira a camisa” daquele lugar. Diversas foram as vezes em que recebera títulos de destaque pelo desempenho e dedicação. Tentava retribuir ao emprego o que este proporcionava em sua vida: os estudos dos filhos, o conforto da família, os momentos de lazer.

João fechou os olhos, respirou fundo. Já de volta do passado, observou a fila. Pessoas jovens e maduras disputavam a vaga. Diversos deveriam ser os seus anseios e múltiplas as suas experiências e necessidades. João sentia-se mal por ter de estar ali depois de toda uma vida de dedicação e amadurecimento. Seus 20 anos de experiência já não valiam. Muitas foram as vezes em que perdeu uma oportunidade por “não se enquadrar no perfil”.

Aos poucos a fila caminhava. Nos candidatos, o semblante era de quem esperava. Não por uma entrevista de emprego, mas por uma chance. Era tudo o que João também esperava naquele momento. Uma chance de voltar a despertar o orgulho dos filhos, de ter novamente a admiração da esposa, de abandonar o sentimento de vergonha que sentia a cada vez que voltava para casa trazendo um não como resposta. Suspirou. Olhou o papel em suas mãos e continuou a preenchê-lo.

João sentiu falta de alguns itens naquela ficha cadastral. Nela, não se perguntava sobre o homem, o ser humano que a estava preenchendo. Suas perguntas não iam muito além de um nome acompanhado de informações práticas. João sabia que, lá dentro, na sala de entrevistas, ele seria apenas um número em um papel com algumas anotações.

A fila andava lentamente. Alguns ambulantes aproveitavam a oportunidade para garantir o pão do dia. João os observava admirado. “É uma saída”, pensou. A economia informal sempre foi a rede de amparo de muitos dos que se cansam de enfrentar, em vão, as longas filas por um emprego. João, porém, não pensava em desistir. Ele mantinha a crença de que o novo ano pudesse ser realmente melhor.

Já se aproximando do primeiro lugar da fila, o homem apressou-se em concluir o preenchimento do cadastro. Foi então que se deparou com a última pergunta. Deu um sorriso leve, com a malícia que os três anos de desemprego haviam tornado rara em seus dias. À pergunta, - “Por que você merece a vaga?” – João respondeu com um desabafo. Sua história, seus desejos e frustrações, seus anseios. Entregou o papel na recepção, sem participar da entrevista. Talvez isso lhe custasse outro não. Talvez os selecionadores julgassem que ele “não se enquadra no perfil”, mas, certamente saberiam quem era aquele homem e que ele merecia, como poucos, aquela vaga.

João saiu em paz, com a leveza de quem se fez ouvir. Cantarolava sua música predileta e seguia na chuva, entre as sacolas e as sombrinhas alheias. O espaço já não importava. Pelo menos naquele instante, ele era o mesmo de anos atrás. As mãos se encaixavam nos bolsos vazios. O coração, porém, estava pleno de esperanças. Era tempo de reviver.

* Conto classificado em quinto lugar no concurso Tempo de Contos, do jornal O Tempo. 2007.