Fio de Ariadne: Faxineiro Chico

02 maio 2013

Faxineiro Chico



A tela em branco provoca-me. Faz questão de lembrar-me o quanto tenho a dizer e não consigo. Ouço Chico para ver se sai alguma coisa. Ele, claro, remexe tudo aqui dentro, constata a bagunça e diz: “Joga algumas coisas fora, menina!” Eu bem queria. Sacolejar tudo, colocar de cabeça pra baixo e deixar cair o que não serve mais. Mania boba essa que a gente tem de se apegar às coisas, inclusive a sentimentos e pensamentos que já não fazem bem. 

Acho que Chico tem razão: tô precisando de uma faxina. Limpar tudo é abrir espaço para que coisas novas se aproximem. Não vale deixar aquele sentimentozinho que um dia, quem sabe, a gente possa precisar. Faxina é faxina. Tem que ser geral, sem sobras. Nenhuma poeirinha pra contar história. A Leveza agradece o espaço. O Novo também fica feliz. Agora ele pode vir sem medo, sem tralhas no meio do caminho. Está varrido, banido, exterminado tudo o que ocupava um lugar que pode ter um inquilino melhor. 

É isso aí, Chico! Sem asfixia, sem apego, sem bagunça interna. Assim fica mais fácil dizer o que quer que seja. Como toda faxina, dá trabalho e o corpo, desacostumado, vai doer depois. Não importa. Vale a desobstrução. A brisa circulando aqui dentro de novo. E o prazer de acordar com a sensação de ter-lhe soprando em meus ouvidos: “O mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.” É, Chico... Você sabe das coisas!

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