Fio de Ariadne: Janeiro 2013

19 janeiro 2013

Amor de passagem


Ele tinha o destino dele. Ela tinha o dela. Eram destinos diferentes que, por acaso, se cruzaram no caminho. Única missão na vida um do outro: encontrarem-se. Simples assim. Sem fortes impactos ou grandes transformações. Um amor de passagem, que não levou muita bagagem consigo. Uns beijinhos aqui, uns pegas acolá, um sentimento que pensou em nascer, mas acabou encruado.

Sábio destino! Tinham coisas grandiosas a fazerem sozinhos. Um sem o outro. Livres. A lembrança agora era como a dedicatória anotada no velho livro. Ficaria ali, perdida, encerrada em uma estante da memória, que um dia, talvez, em uma das mudanças do destino, será reencontrada, relida, e novamente guardada.

Nem todo romance tem papel de destaque. Aquele não teve função alguma. Pelo menos nada que renda boas histórias na velhice. Foi um romance, porém. Teve frio na barriga, pupila dilatada e beijos intermináveis. Teve arrepios, noites em claro e sorrisos cúmplices. Deu choque, deu febre. E foi embora. Sem alarde. Assim como chegou.

Ele seguiu o caminho dele. Ela seguiu o dela. E fizeram coisas muito melhores assim.

10 janeiro 2013

Literatura sempre, por favor



A literatura é uma paixão. Paixão mesmo, dessas que dão um siricutico, um troço quente que vai subindo dos pés à cabeça. Às vezes, essa paixão adormece. Sei lá, algo estremece a relação. Talvez seja a vida moderna extrapolando ou, quem sabe, o excesso de jornalismo. No primeiro dia de faculdade já ouvi, nas palavras do mestre, que, invariavelmente, em algum momento da vida, o jornalismo corrompe o homem. Com algum descuido, também corrompe a poesia inerente a essa característica que me levou a escolher o jornalismo como profissão: gosto de olhar as pessoas e imaginar suas histórias, suas cargas e libertações.

Jornalismo nada mais é que contar histórias. Um primo da literatura, que muitas vezes se mostra seco e insensível, mas pode, sim, revelar belezas escondidas na correria diária. Nem sempre a forma como se conta uma história é capaz de eliminar a humanidade que ela carrega. É esta a minha interna luta permanente: não deixar que a objetividade que o jornalismo, ou mesmo a modernidade, me pede leve embora minha capacidade de ver dor, doçura, necessidade, leveza e todas essas coisas que fazem da vida um livro em tempo real. É quando me dou conta disso que a paixão pela literatura vem latejante, louca para gritar e compartilhar com todos as lentes com as quais eu vejo o mundo. Paixão que é paixão é assim: estremece, silencia, dá meia volta e ressurge. Mais inquietante do que nunca. Ainda bem.