Fio de Ariadne: 2013

29 dezembro 2013

Tintin


Minha amiga Elis diria que é clichê, que eu sou muito sugestionável e que nada muda além de um número. Eu me aborreceria, se não a conhecesse tão bem. Elis se faz de durona e banca a diferente, mas no fundo é igualzinha a todo mundo: ela também faz autoavaliações todo fim de ano. Eu nem faço questão de disfarçar: impossível não me render à egrégora mundial. Eu, que penso demais o ano inteiro, vou me privar disso justo agora, quando a renovação do calendário bate à porta e me oferece milhões de variáveis filosóficas?

É dezembro. O corpo está cansado, se arrasta sob a promessa do descanso e da chegada de um novo ciclo. Cabeça e coração sofreram estímulos diversos ao longo do ano. Hora de incinerar todo o lixo emocional. O que eu levo do ano que se vai é leve. E o melhor é saber que de leve o tal ano teve pouca coisa. 

A vantagem de parar um pouco no fim do ano é exatamente esta: faxinar a alma, peneirar os meses que passaram, deixando apenas o que eles trouxeram de bom: as relações, o amadurecimento, as gargalhadas e os abraços que se instalaram na memória. As decepções e as dores já cumpriram seu papel. Então, que fiquem lá, no meio do lixo não-reciclável de 2013. As cicatrizes, se inevitáveis, que sejam esquecidas no dia-a-dia e, quando lembradas, sirvam apenas para dizer que fui forte e venci os traumas. Aprendi, cresci. E deixei os pesos todos para trás.

Normal que agora também venham expectativas e curiosidade sobre o que Deus vai escrever em mais um capítulo da vida. Ainda não inventaram uma vacina contra as tolices humanas. Então, eu sigo, como todo mundo, esperando o que a vida vai trazer. Vou trilhando o caminho, tentando acertar pra diminuir o lixo a ser incinerado no final do ano que vem. Melhor do que jogar fora o que não serve mais é aproveitar ao máximo o que você construiu ao longo dos meses: porque é fácil de carregar, porque traz conforto, porque alimenta a alma. Que sejam muitas as doçuras e levezas que eu carregue comigo em 2014.  

À minha amiga Elis, e a você que me lê, sugiro esse saudável exercício de limpeza. E deixo os votos de um delicioso e feliz número novo. Tintin. ;)

17 novembro 2013

Sobre relacionamentos e expectativas


Gente é terreno espinhoso, campo minado. Tem que explorar com cuidado, delicadeza. E sabedoria. Relacionar-se é das tarefas mais difíceis na vida. Tem que praticar sabendo que há mil e uma possibilidades, combinações, reações. O tempo tem me ensinado que, entre todos os elementos necessários para uma convivência saudável, o desprendimento é indispensável. Tem que haver flexibilidade, solidariedade, comunhão, compreensão. Mas, ainda que tenhamos tudo isso, se não houver desprendimento, a coisa pode se complicar, ainda que seja apenas no campo interno, dentro da gente.

Explico: relacionamento, seja de qual tipo for, sempre tem boa pitada de expectativa. Eis o segredo: não esperar (ou esperar menos) das pessoas. Pequenas situações do cotidiano nos chateiam porque esperávamos que elas seguissem outro rumo. Queríamos outra reação, outra resposta, outra atitude, outra escolha. Temos que interiorizar a ideia de que, na maioria das vezes, reações, palavras e atitudes vão ser de fato diferentes do que esperávamos por um motivo óbvio: ali está outra pessoa. Nela mora uma personalidade única, um conjunto inimitável de sentimentos, conhecimentos, histórias, pontos de vista.

Receitinha de bolo: interaja com o universo sem pré-visualizações. Deixe que as pessoas te surpreendam. Talvez isso torne a vida mais saborosa. Se a resposta for diferente da que você daria, comemore: o mundo seria muito chato se todos fossem iguais. Se aquela situação não te faz feliz, analise-a, questione-se. As pessoas que se foram, as atitudes que te chatearam, os pequenos incômodos do dia a dia: tudo tem um significado e revelam algo bacana demais: as pessoas são livres, podem e devem fazer o que acham melhor. Nem sempre conseguimos entender, mas me pergunto: temos realmente que entender? O peso que damos às diferenças é o que vai determinar o quanto conhecemos da felicidade. Partilhar momentos felizes é delicioso, mas condicioná-los a pessoas e situações é arriscado.

Não seja bom nem flexível se espera algo em troca. Boas ações e gentilezas são presentes que damos ao mundo, sem esperar recompensas. Elas naturalmente virão, mas serão exatamente a consequência da liberdade das pessoas em fazer o que lhes dá prazer. E retribuir doçuras é delicioso. Ainda que não seja uma recompensa imediata e recíproca, o mundo vai tratar de trazê-la a você.

Seja você mesmo e deixe que as pessoas sejam. A maior prova de amor que podemos dar a alguém é respeitar seu livre-arbítrio. Quando a decepção bater, pense apenas no tempo precioso que ela pode te roubar. Respire fundo e continue vivendo. Sem pesos. Eu escolho o que eu carrego. E é sempre muito leve.

30 outubro 2013

Em manutenção


Hoje eu quero o silêncio. Não quero discutir o mundo, nem as pessoas. Não quero gastar minha energia tentando parecer isso ou aquilo. Cansei de encenar essa peça inacabada que é viver. Hoje, na pauta, só eu mesma. É dia de faxina aqui dentro. Um dia útil, como outro qualquer. Melhor assim: tentar entender a vida vivendo. É dia de mexer nas caixas, mesmo as que estão guardadas há tanto tempo. Dia de limpar a poeira, jogar fora o que não preciso e selecionar o que merece ser guardado.

Hoje eu acumulo menos que antes. A sabedoria dos anos me ajudou a exercitar o desapego. Ideias, pessoas, sentimentos, coisas. Tudo no seu devido lugar. Eu no meu devido lugar. A rotina me roubou de mim mesma. É por isso que hoje eu não quero estar em lugar algum a não ser em mim. Desculpe o transtorno, estou em manutenção.

Na estante agora, só o que realmente me ensina. E o que me torna mais leve. Os pesos eu jogo fora. Papéis sem história nem na memória eu quero mais. E mesmo as memórias merecem criteriosa seleção: se ainda me servem, deixo-as num bom lugar à sombra, sempre à mão, para quando precisar. Se não me ajudam, são descartadas na lixeira de não-recicláveis. Já não fazem diferença no enredo.

É um solitário e complexo trabalho de limpeza. Árduo. Necessário. Às vezes, deixamos o entulho tomar nosso espaço. Sufoca. E, nesse caso, só nós mesmos pra trazer o ar de volta.

O resultado é compensador.

19 outubro 2013

Criando asas


Alice não sabe. E isso a incomoda. Sai andando pela rua, contando os ladrilhos, como quando era criança. Faz 15 graus, mas ela sente muito mais frio por dentro. Difícil explicar. Nem as botas e o casaco pesado conseguem aquecê-la. Tem algo faltando. Ou sobrando, talvez. Só o que ela sabe é que não é mais a mesma. Talvez seja só uma tempestade. Vai passar. Amanhã o dia vai estar ensolarado de novo e a boa e velha Alice vai estar de volta. Mas o coração diz que, ainda que a chuva passe, algo vai amanhecer diferente. E isso não é ruim.

Transformações sempre foram doloridas. Talvez por isso a lagarta precise do casulo. Alice também queria um, mas viver exige relações e a vida não para pra gente virar borboleta. Tudo segue enquanto as asas rasgam a pele pra crescer. Dói, é claro, mas Alice desconfia que vai valer a pena. Dá pra ver mais do mundo quando se tem asas, não é, Dona Borboleta? Um par de asas é como um par de olhos a mais, pra enxergar a vida de outros ângulos, novas perspectivas. É exatamente o que Alice precisa: perceber as diferentes formas de ser feliz. Aprumar as asinhas iniciantes e saber onde buscar o sol sempre que estiver frio como naquele dia. Ou, então, usar o novo olhar para vislumbrar o frio lá do alto e ver que ele, às vezes, é necessário e pode formar belas paisagens.

Transformar-se é uma questão de perspectiva. Olhar a si e aos outros de outro ângulo pode responder muita coisa. Ainda que faça frio e mesmo que doa, vai ser importante para aprender a voar. E quando Alice já estiver usando suas asas, vai ficar claro como água: voar é tudo o que ela deveria ter feito a vida inteira.

14 outubro 2013

Em busca da felicidade


Felicidade é sob medida. O que me faz feliz é diferente do que te faz feliz. Não existe fórmula pronta. Não tem regra pra ser feliz. Felicidade é aquilo que me faz caber exatamente nesta roupa chamada eu. Seguir o próprio coração talvez seja o único conselho pertinente. Ao longo da vida, você vai ouvir muitos outros. Receitas mágicas que valem pela intenção, mas deixam a dúvida. O que é ser feliz, afinal? É instintivo. Cada um sabe bem onde está a sua felicidade. Não está no outro. Não está em uma atitude programada. Não está nas tantas regras que a vida em sociedade nos impõe. E, principalmente, a felicidade não está em modelo algum. É como um teste de DNA. O que me faz feliz tem que ser compatível comigo mesma. Ser feliz é estar confortável nesta missão esquisita de ser gente. Para isso, há muitos caminhos. Podemos experimentar quantos forem possíveis, se quisermos. Em algum momento, achamos exatamente o que nos cabe melhor. E, então, não importa o que digam, nem quantas receitas prontas nos ofereçam. A consciência de si e do que nos faz bem já é uma conquista. Ser feliz é só uma consequência.

26 setembro 2013

Desaceleração


Eu preciso de pausas. Silêncio (ou música), respiro, solidão. É meu auto-resgate. A maneira que tenho de me reencontrar quando o mundo pesa. Sou movida a pensamentos. Gosto de observar. Isso inclui os outros e a mim mesma. A maneira como lidamos com gente e situações diz muito sobre nós e é peça fundamental na busca do auto-conhecimento. Cada um tem seu tempo, seu ritmo, suas necessidades. Eu exijo pausas. Caso contrário, eu me afogo. Perco-me em meio a tantas informações, tantas energias. O mundo tem áudio e vídeo demais. Nem sempre dá pra acompanhar. Não dá pra editar a vida, né? Mas dá pra colocar um respiro, fazer uns efeitos e, de alguma forma, selecionar (e deletar) o que não nos faz bem. Sou mais passional do que aparento. E não dá pra ser assim o tempo todo. É bom desacelerar de vez em quando. Deixar as coisas seguirem em slow motion pra depois dar conta de apertar firme no flash forward. Enquanto eu puder, vou lutar por isso: minhas paradas, meus silêncios, estar comigo mesma. É saudável e motivador. São as pequenas pausas que me movem.

23 setembro 2013

Primavera


Começou a primavera. Linda, doce, inspiradora estação. Com ela, o renascimento, o chorinho vibrante das flores e seu colorido. O calor, a beleza, a esperança.

O que espero agora é que também renasça algo em mim. Um inverno gélido e cinzento me tomou nos últimos tempos. Não quero mais. Digo a ele que pegue sua brisa fria e vá embora. Sou primavera. Tenho cor, tenho sol, luz, perfume. Sinto muito, Seu Inverno, o senhor não cabe mais aqui!

Meu coração palpita, quer deixar brotar o que é bom. E tem muita planta bonita neste jardim. Elas andaram secas, podadas pelas chateações da vida, mas vão renascer agora. Belas e cheias de histórias pra contar. Cada flor, uma memória. E o alívio da superação. A certeza de que, ainda que o inverno seja rigoroso e pareça interminável, um dia o cinza transforma-se em colorido. E todo o esforço do plantio ou da poda terá valido a pena.Viver é um paciente exercício de jardinagem.

15 setembro 2013

Do caos à estrela


Não saber é dolorido. O desconhecido me amedronta. Estar sozinha me intimida. Não tem você pra me dar a mão. E aqui dentro está tudo tão bagunçado que eu não posso te dar a mão também. Eu com a minha bagunça, você com a sua. Vamos seguindo com nossos caos internos sem que possamos nos ajudar.

Tenho medo. Sou um bichinho encolhido, acuado pelas incertezas da vida. Você é uma delas. Mas, não se preocupe, a culpa é toda minha. E isso é uma das poucas coisas que eu sei. Sei também que não dá pra relaxar quando alguém pode te derrubar da nuvem a qualquer instante. Deveria haver um passaporte só de ida pra Felicidade. Eu te levaria comigo, se você quisesse. É certo que assim não existiriam tantas dúvidas, nem medos.

Ir ao estado feliz e ter que voltar, sem longa estadia, é mais difícil do que nunca ter ido. Da próxima vez, quero ir pra ficar. O convite está feito. Uma hora nosso caos interno há de virar estrela, como prenunciou Nietzsche. Então, fica combinado assim: a gente se encontra lá, na Felicidade. Ou, quem sabe, partimos juntos. Aposto que a paisagem da estrada é sensacional.

10 setembro 2013

Não me chama de Sininho, que eu cansei do Peter Pan


Amiga leitora, acontece com todo mundo. Você conheceu o cara, achou que ele fosse bacana, quis conhecê-lo melhor. Não foi um pedido de casamento. Você só pensou em conhecê-lo melhor, explorar a possibilidade. Nenhuma letra a mais. Ele não entendeu. Colocou naquela cabeça pré-histórica que você o havia eleito príncipe do cavalo branco. Ficou confuso (eles adoram essa palavra) e fugiu. Afinal, a possibilidade de conhecer uma mulher bonita, legal e independente é mesmo assustadora. Para os garotos, é claro. 

Outro cenário: ele conseguiu avançar. Vocês estão saindo, está bom assim. Tudo na velocidade um. Ninguém conheceu a família de ninguém ainda. As afinidades são muitas, o papo rende, vocês se divertem. É, então, que você demonstra que está gostando. Nada demais. Limita-se a ser fofa. Velocidade um e meio. Pra ele, não dá. Está convicto de que você quer dançar a valsa nupcial no castelo do rei. Demorou só mais um pouquinho: ele ficou confuso e fugiu. Afinal, estar com uma mulher segura, divertida e inteligente é mesmo assustador. Pra quem mesmo? Ah! Para os garotos, é claro.

Dados do Instituto Internacional de Pesquisa em Homens Infantis mostram que 85% da população masculina sofre de um grave distúrbio: a síndrome de Peter Pan. Vivem na Terra do Nunca, onde é permitido ser criança pra sempre. Crescer é mesmo confuso e fugir pode parecer a melhor saída. Nossos Peter Pans foram criados em uma sociedade machista em que há mulher pra casar e mulher pra se divertir. Um mundinho quadrado em que aquela que demonstra interesse é piriguete ou quer levá-lo ao altar. Cara amiga, não temos escolha: ou somos reduzidas a boa bisca ou a solteirona casadoira. Não tem conversa, não tem meio termo.  

É que na Terra do Nunca, não existem mulheres modernas. Na verdade, na Terra do Nunca não existem mulheres. Cercados de fadas que resolvem qualquer coisa com seu pó estrelado, eles esquecem como é viver de verdade. E não entendem que a princesinha que eles têm na cabeça ficou nos filmes da Disney. E nos dos anos cinquenta.

04 setembro 2013

Rasgue os rótulos, por favor



Nunca gostei de rótulos. As pessoas têm ingredientes demais para serem rotuladas. O nerd, a santa, o porra-louca, a piriguete, o inteligente, a grosseirona, o safado, a boazinha. Não! Tem muito mais elementos aí debaixo. Tem sangue correndo, hormônios pipocando, pensamentos gritando, coração batendo. Tem a vida ensinando. Tem a mudança acontecendo diariamente.

Ninguém é 100% alguma coisa. Ninguém é pra sempre a mesma coisa. Viva! É isso que dá sentido à vida: a oportunidade de fazer diferente, de aprender, de mudar, de experimentar. Essência, é claro, cada um tem a sua. Ela nos norteia, mas não nos torna imutáveis. Ela não nos faz um rótulo, um carimbo, um passaporte para o destino certo. Gente é algo maravilhosamente complexo. E surpreendente! Não dá pra ser taxativo ao descrever quem quer que seja.

Ganhei alguns rótulos ao longo da vida e sei o quanto eles são superficiais. Sei o quanto eu sou mais do que eles e, por isso mesmo, entendi que as pessoas não podem ser descritas em poucas palavras. Os rótulos são sempre cruéis. Mesmo aqueles que parecem positivos. São cruéis porque não dão oportunidade à pessoa de ser outra coisa. Se ela compra a embalagem para si, corre o risco de ser o tal rótulo a vida inteira e nunca descobrir suas muitas possibilidades.

Quem rotula o outro normalmente se baseia na superficialidade. E o bom da vida é olhar além, descobrir as múltiplas nuances de ser. E, então, quem gosta de carimbar pessoas, nem percebe, mas está se rotulando (e limitando) também.


PS: A foto que ilustra o post é do fotógrafo Steve Rosenfield, autor da série What I be Project, na qual retrata pessoas exibindo os principais julgamentos que carregaram a vida inteira. Mais sobre o projeto aqui

30 agosto 2013

Portas



Estou deixando todas as portas abertas. As que me levam a algum lugar e as que trazem as pessoas aqui. São portas diversas. Estou cercada delas. Não faço distinção, nem penso em fechá-las. Quero o intercâmbio, a movimentação. Quero a benção da escolha. Portas são como pontes. Sempre ligam a alguma coisa. Deixá-las abertas pede coragem. Nunca se sabe quem vai entrar e nem sempre temos ideia do lugar aonde levam. Mas uma coisa é certa: algo será diferente. Portas são anti-monotonia. Levam a outras perspectivas, outras possibilidades. O excesso de zelo, às vezes, faz a vida chata. Deixo todas as portas abertas e jogo todos os trincos fora. Menos armada, mas nem por isso menos segura. É sempre bom ressignifcar a vida.

29 agosto 2013

O menino e o tempo


“Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino...” Trilha sonora mental para a imagem que eu via, a música de Caetano Veloso se repetia na minha cabeça. Eu vi o menino correndo. Não era, porém, uma cena de recreação. Não era a cena comum da minha infância, da infância dos meus irmãos, dos meus amigos. Era a imagem de uma criança que, em meio ao trabalho do dia, “dava-se ao luxo” de ser criança por alguns segundos.

O sol de quase meio dia estourava os miolos de quem não tinha o abrigo de árvores, marquises ou do ar-condicionado. E lá estava ele, correndo à beira da avenida, arriscando-se próximo aos carros que acabavam de arrancar sem comprar sequer uma de suas balas ou chocolates. Sempre me soou estranha a imagem de uma criança vendendo doces. Logo os doces, ícones de uma infância feliz, cores e sabores para quem não deve ter com o que se preocupar. “É como tirar doce da boca de criança”, diz o ditado, ironicamente cabível ao caso. Uma criança que vende balas no sinal teve o doce tirado da boca, a infância roubada.

Naquele instante, o menino permitia-se ser criança. O sorriso ao correr atrás do amigo, que ali também era um colega de trabalho, revelava a beleza do pequeno ser, maltrapilho, suado e de corpo franzino. À medida em que corria, sem perceber, entretido na inocente brincadeira, abria espaço entre os passantes que, desconfiados, apertavam bolsas e escondiam objetos de valor.

Foi, então, que “vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino”. Diante dos meus olhos, havia uma criança. E isso era o que me tocava. Ele não seria criança para sempre. E isso era o que me doía. O tempo se encarregará de cumprir seu papel, sem relevar nada, sem ressalvas, sem medidas. Até quando aquele menino insistirá na venda frustrada de doces, na vida regrada, na escassez? Até quando será indiferente às bolsas que se escondem e aos trincos que se fecham a sua volta?

“Vida fácil” a que lhe oferecerão mais tarde. E bem provavelmente não tão tarde assim. A vida do crime talvez lhe pareça mais atraente que os dias debaixo de sol, chuva e preconceito. Talvez em breve “o menino correndo” não seja a imagem de uma brincadeira, mas a de uma fuga: da polícia, da violência, da disputa, dos tiros, do tráfico, da vida difícil em que se criou.

Segui com Caetano na cabeça. Trilha e imagem. Filme de triste fim o que criei. Olhei para trás e tive tempo de ver o pequeno garoto de volta ao sinal, com sua caixa de balas e chocolates. Levaria algum sonho? Sinal aberto para os carros e uma venda apenas. Ele sorria satisfeito. Até quando?

23 agosto 2013

Quando a vida resolve falar


Era uma manhã agradável. Meia estação. A brisa soprava suave, brincando de vai e vem nos cabelos de Alice. Ela nem se dava conta, tão entretida estava lá com seus botões. Sentou-se no banco à beira da lagoa, abraçando as pernas contra o corpo. Era sua maneira inconsciente de se proteger.  Queria se esconder. Estava decidida a se isolar. Conviver é uma arte difícil.

Alice é uma pessoa sem escudos. Entrega-se de cara limpa. Acredita de fato na capacidade humana de adaptar-se às situações pelo bem comum ou de entender o que não precisa ser dito. Acontece que vez ou outra a vida resolve falar. E não tem papas na língua. A vida não se condói. Então, nos mostra sem cerimônia que a grama não era tão verde assim. Revela o que o coração de gente como Alice tenta encobrir: o lado feio do mundo.

Agora Alice tenta, em sua concha, resguardar-se de novas revelações. Nem gente, nem lugares, nem coisas. Nada mais cabe no seu espaço. Abraçou as pernas com mais força e deixou a insegurança umedecer o rosto. Ela, que sempre gostou de pontes, resolveu que é mais seguro ser ilha. Só não sabe ainda o que fazer com aquele abraço guardado e agora fadado ao desuso. Estar sozinho é para os fracos. E Alice já foi forte tempo demais.

20 agosto 2013

Temperinhos pra viver



Acho a vida mais bonita nos detalhes. Sempre gostei de apreciar as miudezas. Sou do tipo que para pra ver as flores no caminho, dou risada da criança que ensaia os primeiros passinhos e fico horas ouvindo as histórias da velhinha na praça. É disso que é feita a vida. Uma mistura de ingredientes casuais que dão muito mais sabor ao prato.

Por vezes, uma avalanche de modernidade nos ataca e tenta roubar o ponto da receita, parece que vai desandar. Trânsito demais, trabalho demais, decepções demais, problemas demais. Um milhão de pensamentos por minuto. O excesso de sal faz a vida perder o gosto.

Sempre que sinto os exageros me tomando, vou lá e meço tudo de novo. Às vezes é preciso se esvaziar pra sentir-se pleno. E as pequenas belezas do mundo, por mais que pareçam escondidas no recheio, fazem toda a diferença no gostinho final.

Olhar ao redor não significa perder o foco. Dá pra conquistar tudo o que a gente quer sem perder a capacidade de encantar-se com o que acabou de acontecer aqui ao lado. Aconteceu, passou, a vida seguiu com todos os seus compromissos chatos, mas, pra quem viu, agora ela tem muito mais doçura e está bem mais leve de carregar.

18 agosto 2013

Amanhã


E, então, ele bateu à porta. Era discreto e silencioso, mas, eu sabia, tinha muito a me dizer. Carente, estendi os braços assim que o vi. Só eu sabia o quanto esperei. Ele pareceu constrangido, mas abraçou-me de volta. Um abraço xôxo, mas nem por isso menos importante. Ele me olhou nos olhos e nessa hora, senti-me tragada, tomada, encantada. Sim, ele tinha muito a me dizer e começou assim, naquele olhar. Meus sonhos estavam ali. Meus planos, meus medos, minhas alegrias, as lágrimas escondidas e os sorrisos bobos de quem espera que as coisas um dia sejam diferentes. 

Convidei-o para entrar. Ele não fez cerimônia. Já passava da hora. Carecia dele na minha vida. E ele, àquela altura, precisava de mim para ser. Ao entrar pela porta, ele entrava na minha história. Estava feito. Não tínhamos como voltar. Contou-me um bocado do que eu precisava saber. Outro tanto deixou que eu simplesmente vivesse. Certas coisas a gente só entende quando vive. “Estou pronta”, eu disse. Foi, então, que a transformação se deu e, de futuro, ele chegou para ficar e transformou-se em presente. No melhor sentido da palavra.

15 agosto 2013

Sobre amor e liberdade


Hoje quero exaltar o amor. Mas não o amor-prisão, ao qual muita gente se auto-condena. Reverencio o amor-liberdade, que é o amor genuíno, sem misturas erradas e que, por isso mesmo, é o que está mais perto da felicidade. Os relacionamentos felizes são como laços, que além de bonitos podem ser desfeitos a qualquer momento sem deixar marcas. Isso não significa que sejam frágeis e se desfaçam à toa. Muito pelo contrário: fazemos questão de manter os laços porque eles nos unem sem apertar. Relacionamentos doloridos funcionam como algemas. E das algemas queremos nos livrar o quanto antes!

Amar de verdade é deixar o outro livre para  ter seus próprios momentos, fazer suas próprias escolhas. E, curiosamente, nos relacionamentos onde há liberdade, na maior parte do tempo a escolha é justamente estar com o parceiro. É claro: relacionar-se é exatamente uma escolha e nós gostamos de estar onde somos livres.

Tristes são os relacionamentos em que o casal limita-se ao outro. Todos temos uma infinidade de conexões possíveis com outras pessoas, outras atividades e com nós mesmos. Por que não aproveitá-las? Explorar as diferentes possibilidades da vida não significa trair ou ser um mau companheiro. A fidelidade ao outro começa quando somos fiéis a nós mesmos.

Assim, desejo que, antes de mergulhar em um relacionamento, todos entendamos bem a diferença entre submissão e respeito, possessividade e cuidado, sufocamento e presença, falatório e diálogo, obrigação e opção, dependência e liberdade, apego e amor.

E que, uma vez comprometidos, sejamos LIVRES para sempre.

06 agosto 2013

De olhos fechados



Olho nos seus olhos imaginários e penso no quanto gosto dos seus olhos reais. Verdadeiros, porque são de carne e córnea e porque dizem quase tudo o que eu quero saber. Quase, porque guardam um tantinho de mistério, de propósito, só pra judiar ainda mais deste coração que tem gosto especial pelo oculto. Ter que descobrir tem mais sabor do que achar exposto, de graça, sem investigação nenhuma. Por isso, nunca fui de me revelar. Pelo menos não de cara. Tem que dar um trabalhinho. Faz parte do processo. É meu seguro de vida, caso as coisas não saiam como eu gostaria. Talvez eu até me jogue depois. Mas só a partir do momento em que você disser que eu posso pular. Não caio sem rede de proteção. É que já me estropiei algumas vezes.

Hoje você está presente como nunca. Quase posso sentir o toque, o compasso da respiração. De olhos fechados, ouço baixinho uma voz cantarolar sua música predileta. É você, que chega de leve no meu pensamento, a passos calmos para não me acordar. Doce brincadeira de idas e vindas. Escondo-me, mas aqui você sempre me acha. Dá raiva ser assim tão descoberta! Reclamo da sua perspicácia, mas não demora eu me rendo. Gargalho contigo, sem pudores. Entregue. Segura pela certeza de que pelo menos ali, no meu salão imaginário, basta abrir os olhos para não me machucar.

25 julho 2013

As paradas do tempo


Um sopro gelado entra sorrateiro pela fresta da janela. Arrepia o corpo inteiro. Olho no relógio. Dez pra meia noite. Penso no tempo e seus mistérios. O ano passa rápido. Já é setembro. Plena primavera. Minha estação favorita. As pessoas ficam mais leves, eu acho. Cores, sorrisos, perfume. A vida mais gostosa de seguir. De novo, penso no tempo. Que chamem de clichê, mas a verdade seja dita: ele sabe das coisas. Fico intrigada como tudo acontece quando tem que ser. Nós e nossa ansiedade, coberta de insapiência, queremos sempre o agora. Não dá pra esperar. A urgência nos consome. E aí é que ele, o Tempo, resolve brincar de estátua. As coisas não andam, não acontecem, não chega novidade alguma. A urgência ainda nos consumindo. E o senhor Tempo lá, divertindo-se às custas da nossa infância evolutiva. Até que cansamos de nos consumir. Resolvemos olhar pro lado, enxergar o que a ansiedade acabou escondendo. Gostamos do que vemos. Percebemos novas nuances. Arriscamos outros caminhos. E, então, numa noite dessas qualquer, o Tempo resolve que a brincadeira acabou. É hora de colocar os ponteiros para andar e as histórias voltam a acontecer. Começam exatamente do ponto onde pararam. A vida segue. Até a próxima parada, que pode servir para dar fôlego, entendimento ou simplesmente nos ensinar que a espera é o que dá sabor ao fruto. Bacana mesmo esse troço chamado vida...

16 julho 2013

Tolices do amor


Ela passava ali todos os dias. Cumprimentava. Raramente puxava papo. Normalmente eram diálogos breves, mas duravam tempo suficiente para o coração quase sair pela boca. Ele trabalhava na banca de revistas perto do trabalho dela. Tudo começou com um comentário sobre a capa de um magazine que ela comprou. Ele também gostava daquele tipo de leitura. E, assim, um gosto em comum puxou a imensa lista de afinidades. Na maioria das vezes, a timidez só permitia dizê-las com um oi e um sorriso. E isso bastava. As coincidências cabiam todas ali, naquela pequena curva do rosto.

Não demorou e ela percebeu que sorria pra ele em outros momentos: quando ele não estava por perto! Eram sorrisos ainda mais espontâneos. Surgiam das lembranças. E, então, ela quis passar pela banca com mais frequência, comprar novas revistas, cumprimentar mais vezes, puxar outros assuntos. Tudo tinha sabor de peraltice da adolescência. Esfriava a barriga, rendia boas memórias, mas não ia além. Os assuntos eram rigorosamente pautados pelas manchetes do dia, o sorriso era sempre pueril e os olhares brincavam de pique-esconde.

Ela contentou-se, então, em querê-lo às escondidas, nas horas vagas, entre uma lembrança e outra. Triste amor platônico, despertaria a piedade do coração mais frio! À cada passagem em frente à banca, ela procurava por ele e esperava em silêncio que ele tomasse uma atitude. Ele limitava-se a sorrir ou comentar as novas edições das revistas. Ela afligia-se com o desinteresse dele. Mal sabia que nele também doía o desinteresse dela. E, assim, seguiam, limitados pela timidez trocada. A promessa de felicidade abafada pelo medo.

O ritual era diário: esperavam-se, sorriam, cumprimentavam-se e controlavam heroicamente a emoção de estarem juntos. Depois seguiam cada qual o seu dia, a pensarem um no outro, imaginando como seria se aquele singelo encantamento fosse correspondido.

04 julho 2013

Esperando sinais


Gosto dos sinais. É a forma de Deus nos falar nas entrelinhas.

Uma página aberta ao acaso, um encontro inesperado, uma cena vista na rua. A música que toca na sala de espera do consultório, a ligação do amigo com quem você não falava há tempos, um programa descoberto na TV enquanto você zapeava. Um elogio repentino, um comentário descabido, um sonho absurdo, um erro de itinerário.

É a forma preferida de Deus dar seu recado. Nem sempre ouvimos, nem sempre entendemos. Nem sempre abrimos de fato o coração para receber a mensagem: sem filtros, sem desvios arquitetados pela nossa vontade.

Estar atento aos sinais é estar de olho na própria vida. Passado, presente, futuro. E quando, ainda que estejamos atentos, os sinais pareçam não vir, a conclusão é simples: o silêncio fala. A ausência é um sinal em si. E daqueles que gritam.

21 junho 2013

Dirces do Brasil


Era um junho atípico. Os dias, normalmente frios, fervilhavam. E Dirce estava lá, no meio do fogo. Saiu às ruas como milhares de brasileiros, empurrados por uma onda que nasceu aparentemente pequena e desacreditada, mas virou um tsunami e abalou as estruturas do poder.

Dirce estava lá. Não sabia exatamente pelo que estava, mas não cogitava sair. Estava certa apenas de que precisava estar ali. Não era estudada, conhecia pouco de política, mas tinha um senso cívico que lhe dava a certeza de que era importante. O grito ainda parecia disforme. Talvez por ter estado na garganta, entalado, por muito tempo. Ou por haver tantos motivos para gritar. Normal que saísse indeciso. Ainda assim era necessário.

Dirce seguia a multidão mesmo sem compreender o que alguns repudiavam. PEC 37, estatuto do nascituro? "Essa juventude sabe tanta coisa!", dizia. E não é que sabe mesmo, Dirce? Bom que decidiram mostrar e levar consigo gente como você, que sabe muito também, mas nunca foi ouvido. Dirce tinha a sabedoria dos anos, aquela trazida pela labuta. A inteligência de quem tem que administrar a vida com um salário mínimo e conviver com a dor, porque o médico do posto só tem horário daqui a quatro meses. Dirce sabe como ninguém que não são só vinte centavos. Sabe, inclusive, que os vinte centavos viram trinta reais no fim do mês e que trinta reais é muita coisa para quem tem o salário e as responsabilidades dela.

Por isso, Dirce seguia. No meio do tsunami. No olho do furacão. Sem muitas certezas, mas cheia de esperança. Confiante de que algo já havia mudado. A começar por ela própria. Dirce já não é a mesma. Agora sabe que tem voz. E que, fazendo-se ouvir, estará mais perto de ter a sua vez, por tanto tempo esperada.

04 junho 2013

Ser ou não ser


Acordou naquele dia e decidiu ser feliz. Abriu as janelas, deixou a brisa de outono entrar. O sol não esquentava muito, mas o céu tilintava de tão azul. Reparou nas plantas do jardim. Há quanto tempo não parava para apreciá-las? Puxou o ar e, com ele, o perfume verde de que tanto gostava. Foi até o aparelho de som e pôs sua música predileta. Saiu dançando, leve, como estava a sua alma, como tinha decidido que seria a partir de agora. De moletom, encardindo a meias no chão, os cabelos despenteados, decidiu viver. Decidiu que seria. Assim: o simples estado de ser. E, para ser, ninguém precisa do outro. Só se é alguma coisa sozinho. Relacionar-se é oferecer às pessoas a oportunidade de trocar impressões, colher informações, sentimentos e entendimentos que, claro, nos ajudam a ser, mas nunca serão nada em nós, sem que nós mesmos façamos algo por isso.


Ela, então, entendeu que seria feliz. A felicidade (ou qualquer outro sentimento) é o resultado do que construímos com todos os elementos que o mundo e as pessoas nos oferecem. Dê tinta, tela e pincéis a diferentes pessoas e você terá as mais diversas manifestações. Cada um usa as cores e as formas que tem em si. E ela resolveu que, a partir dali, seu mundo seria colorido. Sua história seria escrita com os elementos que a vida trouxesse. Sem obsessões por gente, coisas ou lugares. O que viesse viraria pintura. Seria arte. Teria cor, felicidade e leveza. Seria ela. 

26 maio 2013

Tempo de reviver

           

            
Mais um natal se aproximava. O novo ano era anunciado com festa. Nas ruas de Belo Horizonte, pessoas dividiam espaço com sacolas e as indispensáveis sombrinhas no chuvoso dezembro. João andava a passos largos; passos de quem tinha urgência de viver. Debaixo do braço, o jornal trazia marcada a oferta de emprego. O salário não seria dos melhores, mas João já não se importava. Precisava trabalhar. Eram três anos de desemprego, desde a falência da empresa onde trabalhara a vida inteira.

O homem subiu a rua, procurou o número. Pela imensa fila formada à porta, não demorou a identificar o endereço. Incorporou-se ao grupo, tentando não permitir que o desânimo o mandasse de volta para casa. Precisava passar o tempo de alguma maneira, ocupar a mente. Aquele seria um longo dia. Pegou o jornal. Na primeira página, o jornal anunciava o aumento salarial para parlamentares: R$ 24.500, dizia a edição. João olhou novamente a seção de classificados e conferiu o salário oferecido pelo emprego ao qual era candidato. Estava longe de alcançar os quatro dígitos! Sentiu um aperto no peito; como o daqueles que não vêem mais o que fazer.

Na fila, uma mulher carrancuda distribuía fichas cadastrais aos candidatos. João retirou a caneta do bolso e pôs-se a preencher o papel. Nome, telefone, endereço, dados convencionais. Mais adiante, pediam-se informações sobre o último emprego. João desviou os olhos do papel, reticente. Doeu-lhe a lembrança da empresa onde fizera sua vida. Nela, havia aprendido tudo o que precisava para ter o respeito dos colegas. Lá, também conhecera a esposa, mãe dos quatro filhos que, já adultos, demonstravam a educação e a hombridade que lhes foram passadas na criação.

Tentando não se emocionar, João desviou novamente o olhar para a publicação que trazia nas mãos. As manchetes não conseguiram, porém, sustentar-lhe a fuga. Mais uma vez, o homem perdeu-se em seus pensamentos. O jornal também suscitava lembranças. Sempre gostara de acompanhar as notícias. Ainda estava fresco na memória o dia em que anunciou satisfeito, à mulher e aos filhos, a compra da assinatura de “O Tempo”, recém-lançado na época.

Naquelas páginas, João havia acompanhado os últimos 10 anos de sua vida e do mundo em que estava inserido. As conquistas e dores da humanidade, as grandes catástrofes, as guerras. A morte da princesa Diana, o pentacampeonato brasileiro, o 11 de setembro, a despedida de João Paulo II, a eleição do primeiro presidente de esquerda da história do Brasil, as grandes fraudes, o mensalão.

Folheando o caderno de economia, João recordou o dia em que, com olhos marejados, leu a notícia da falência da empresa da qual fora funcionário durante anos. Ele de fato “vestira a camisa” daquele lugar. Diversas foram as vezes em que recebera títulos de destaque pelo desempenho e dedicação. Tentava retribuir ao emprego o que este proporcionava em sua vida: os estudos dos filhos, o conforto da família, os momentos de lazer.

João fechou os olhos, respirou fundo. Já de volta do passado, observou a fila. Pessoas jovens e maduras disputavam a vaga. Diversos deveriam ser os seus anseios e múltiplas as suas experiências e necessidades. João sentia-se mal por ter de estar ali depois de toda uma vida de dedicação e amadurecimento. Seus 20 anos de experiência já não valiam. Muitas foram as vezes em que perdeu uma oportunidade por “não se enquadrar no perfil”.

Aos poucos a fila caminhava. Nos candidatos, o semblante era de quem esperava. Não por uma entrevista de emprego, mas por uma chance. Era tudo o que João também esperava naquele momento. Uma chance de voltar a despertar o orgulho dos filhos, de ter novamente a admiração da esposa, de abandonar o sentimento de vergonha que sentia a cada vez que voltava para casa trazendo um não como resposta. Suspirou. Olhou o papel em suas mãos e continuou a preenchê-lo.

João sentiu falta de alguns itens naquela ficha cadastral. Nela, não se perguntava sobre o homem, o ser humano que a estava preenchendo. Suas perguntas não iam muito além de um nome acompanhado de informações práticas. João sabia que, lá dentro, na sala de entrevistas, ele seria apenas um número em um papel com algumas anotações.

A fila andava lentamente. Alguns ambulantes aproveitavam a oportunidade para garantir o pão do dia. João os observava admirado. “É uma saída”, pensou. A economia informal sempre foi a rede de amparo de muitos dos que se cansam de enfrentar, em vão, as longas filas por um emprego. João, porém, não pensava em desistir. Ele mantinha a crença de que o novo ano pudesse ser realmente melhor.

Já se aproximando do primeiro lugar da fila, o homem apressou-se em concluir o preenchimento do cadastro. Foi então que se deparou com a última pergunta. Deu um sorriso leve, com a malícia que os três anos de desemprego haviam tornado rara em seus dias. À pergunta, - “Por que você merece a vaga?” – João respondeu com um desabafo. Sua história, seus desejos e frustrações, seus anseios. Entregou o papel na recepção, sem participar da entrevista. Talvez isso lhe custasse outro não. Talvez os selecionadores julgassem que ele “não se enquadra no perfil”, mas, certamente saberiam quem era aquele homem e que ele merecia, como poucos, aquela vaga.

João saiu em paz, com a leveza de quem se fez ouvir. Cantarolava sua música predileta e seguia na chuva, entre as sacolas e as sombrinhas alheias. O espaço já não importava. Pelo menos naquele instante, ele era o mesmo de anos atrás. As mãos se encaixavam nos bolsos vazios. O coração, porém, estava pleno de esperanças. Era tempo de reviver.

* Conto classificado em quinto lugar no concurso Tempo de Contos, do jornal O Tempo. 2007.

21 maio 2013

Gente placa tectônica


Na vida, esbarramos com gente de todo o tipo. Há quem seja ponte: pessoas que unem, abrem espaço para o progresso, deixam fluir. Mas há também aquele tipo de gente placa tectônica: entra em choque o tempo todo, causa terremoto, provoca fendas algumas vezes irreparáveis. É um tipo triste, abafado, acostumado às profundezas. Desconhece a suavidade da brisa e a doçura das boas relações. É gente que não toca. Esbarra. São pessoas que não conseguem ver o mundo acima das próprias cabeças e não sabem fazer nada além do que aprenderam a vida toda: terremoto. Desconhecem e não se interessam em conhecer qualquer outra forma de ação, outro modo de vida. Nasceram e morrerão placas. Viverão segregadas pelas fendas que elas mesmas criaram.

Eu prefiro as pontes. Quero o outro lado, busco diferentes horizontes. Não gosto de esbarrões. Dou mais valor ao toque. Faço questão da brisa, sem perder o contato. E, pra mim, tremor só se for de emoção. E que seja de alegria.

19 maio 2013

Silêncio



Às vezes é preciso calar. Tirar a maquiagem, colocar a fantasia debaixo do braço, ir para trás das cortinas. Não há o que dizer, não há o que tentar. Os olhos são os únicos encarregados de expressar o que é preciso. O silêncio traduz melhor. O não-estar cumpre bem o papel de contar o que quer que seja. Abaixo a cabeça e sigo. Não há mais o que procurar aqui. O não-dito já revelou o que eu precisava ouvir. Entendi e estou saindo. Não vou bater a porta. Ela sempre vai ficar aberta, caso algo mais precise acontecer. Por enquanto, é só. Não sei lidar bem com isso, mas é necessário e do necessário é impossível fugir. Tudo bem. Já conheço este caminho, que percorri tanto tempo sozinha. Resta agora continuá-lo. Sem medos, sem lamentos, sem mimimi. Está traçado. E o mais importante: ligado a outros caminhos, outras possibilidades. Você pode vir quando quiser. Mas, agora, eu já entendi: respiro fundo e vou. Sozinha. Uma hora eu encontro o destino certo e a vida me devolve a maquiagem, a fantasia, o palco. Poderei, então, finalmente desfrutar do espetáculo.



"
E o que é que eu procuro afinal?
Um sinal, uma porta pro infinito, o irreal
O que não pode ser dito, afinal"
Lenine


12 maio 2013

Da leveza que quero da vida




"Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo o que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui para frente, apenas o que couber no bolso e no coração."
Cora Coralina



O que eu quero da vida é brisa no rosto, sorriso fácil, garoa fina (sem sombrinha). Quero cheiro de mato, dedo na panela de doce, olhares que falam. Eu quero abraço apertado, dança sem coreografia, encontros inesperados (porque o acaso não existe). Quero rir com vontade, livre, entregue ao instante. Quero andar descalça, cabelos atrapalhados e cara limpa (e me sentir linda assim mesmo).

Quero o encontro de olhares (sem me preocupar se ele vai evoluir para outras partes do corpo ou parar ali mesmo). Quero me apaixonar, me desapaixonar e me apaixonar de novo (sem dar a mínima para o que os outros vão pensar). Quero dizer nãos sempre que preciso. E saber gritar todos os sims que me derem na telha (ainda que eu precise apenas de um sorriso pra isso). Quero cantar no chuveiro e onde mais tiver vontade. Sem rimas, sem métricas, nada além do sentimento que a música me desperta.

Eu quero almoço de domingo, baralho na casa da tia, corrida e pulo na piscina, saída com os amigos (só os verdadeiros). Quero roda de violão e cafuné de graça (porque tem gente que cobra por ele). Também gosto de sono bom, sonho doce (de comer e de sonhar) e de pipoca do pipoqueiro. Eu quero um pouco de Leminski e outro tanto de Cecília. E Clarice pra pensar. Quero Lenine pra ouvir e um bom samba pra dançar. Ah, e muitos beijos! De mãe, de pai, de irmão, de criança, de amigo... E, claro, de amor (atrevidos, entregues, infinitos). Quero despreocupação, sabedoria e coragem (inclusive pra assumir minhas fraquezas). Quero o simples. O não planejado. A liberdade.

Quero mais e quero tanto que tudo se resume em muito pouco: ser leve.

E o que não for assim que a vida leve!

09 maio 2013

Tormento de artista



Tenho a inquietação do artista. A arte é um bicho que briga dentro da gente, esbraveja, quer gritar o que está guardado, o que encanta ou incomoda. E é tudo tão intenso que trazer a arte ao mundo é mesmo um parto. Dói, revolve as entranhas, às vezes custa a sair, mas, quando sai, consegue concentrar todo o sentimento. O artista é um atormentado. Pelo mundo, pelas pessoas, por suas histórias e por tudo o que lateja dentro de si, tudo o que bate querendo sair para mudar o mundo. E muda de um jeito doce. Seu tormento transforma-se em poesia, em uma tela, uma música, uma dança. E, de repente, o que era peso vira leveza. Sente-se o êxtase de colorir a vida, ainda que seu mundo interno esteja gris. É o nascimento. A alegria do parto. A satisfação de transformar dor em prazer; guerra em paz. Uma estranha forma de ser feliz.

05 maio 2013

Crônica de uma morte desejada


Veneno que mata aos poucos.
Olho de chimbra.
Bala que me acerta
e me percorre inteira.
Morro assim, parte a parte,
centímetro por centímetro.
Sem saber.
Sem entender.
Refém de mim mesma
e do seu ar tão distraído
que cheira a blasé.

Que fique claro, rapaz:
não tenho paciência nem idade
para amores de Platão.
Seja breve, então:
deixe-me ou me arrebate.
Resolve logo esta pendência e,
de frustração ou de outros ãos,
mate-me.

02 maio 2013

Faxineiro Chico



A tela em branco provoca-me. Faz questão de lembrar-me o quanto tenho a dizer e não consigo. Ouço Chico para ver se sai alguma coisa. Ele, claro, remexe tudo aqui dentro, constata a bagunça e diz: “Joga algumas coisas fora, menina!” Eu bem queria. Sacolejar tudo, colocar de cabeça pra baixo e deixar cair o que não serve mais. Mania boba essa que a gente tem de se apegar às coisas, inclusive a sentimentos e pensamentos que já não fazem bem. 

Acho que Chico tem razão: tô precisando de uma faxina. Limpar tudo é abrir espaço para que coisas novas se aproximem. Não vale deixar aquele sentimentozinho que um dia, quem sabe, a gente possa precisar. Faxina é faxina. Tem que ser geral, sem sobras. Nenhuma poeirinha pra contar história. A Leveza agradece o espaço. O Novo também fica feliz. Agora ele pode vir sem medo, sem tralhas no meio do caminho. Está varrido, banido, exterminado tudo o que ocupava um lugar que pode ter um inquilino melhor. 

É isso aí, Chico! Sem asfixia, sem apego, sem bagunça interna. Assim fica mais fácil dizer o que quer que seja. Como toda faxina, dá trabalho e o corpo, desacostumado, vai doer depois. Não importa. Vale a desobstrução. A brisa circulando aqui dentro de novo. E o prazer de acordar com a sensação de ter-lhe soprando em meus ouvidos: “O mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz.” É, Chico... Você sabe das coisas!

01 maio 2013

Preto e branco



A aquarela está incompleta. Perdi meus gizes de cera. Ou alguém os teria levado? Não sei. Pouco importa. Restam apenas o preto e o branco dos contornos. Parei de desenhar. Vai ficar assim mesmo. Incompleto. Sem cor e sem fim. Um desenho à toa, de quem não tem mais o que criar. Não tem colorido. Não tem inspiração. Não tem nem personagem pra desenhar. Sem cor e sem sal. Um desenho bobo, de quem não tem chaminé pra colocar na casa, nem flores pra enfeitar o jardim. Sumiram as cores mais queridas, as mais repetidas, as que seriam traçadas com mais alegria. Sem cor e sem gosto. Um desenho safado, de quem não tem mais o que dizer. Não tem história, não tem emoção, nem trilha sonora. Um desenho e só. Sem cor e sem alma. Um desenho sem mim.

09 março 2013

Curta Alice

Zapeando na TV a cabo, encontrei uma Alice muito parecida com a nossa, que costuma dar o ar da graça aqui no blog. Acho até que a história combina com o último post, que fala sobre o tempo e as decisões que a vida toma por nós. Um curta metragem muito bacana, com Simone Spoladore e Fernando Alves Pinto. Roteiro e direção de Rafael Gomes. 

"Longe é só um lugar aonde a gente nunca vai" Alice, a do filme.




05 março 2013

De volta pra casa

"Nem desistir, nem tentar. Agora tanto faz.
Estamos indo de volta pra casa"
Renato Russo




Longe de todos de si mesma, Alice fazia lentamente o caminho de volta pra casa. Olhava o cenário, cada detalhe, como se quisesse fazê-lo palco da própria vida. Alice queria escrever sua história. Uma nova história, com novos personagens, outros contextos. Caminhava devagar, mas o velho coelho apressado insistia em dizer o quanto era preciso correr. Eles a desafiavam: o coelho e o tempo. Riam da sua lentidão. Gargalhavam dos seus medos. E ela, mesmo constrangida, seguia. Devagar e sempre. Um dia chegaria a seu destino e reencontraria a si mesma e aos outros. Novos cenários e outros personagens viriam. Ela seria a próxima mocinha do horário nobre. Quem seria o mocinho? Qual seria o vilão? Alice não sabia nem queria pensar nisso agora. Odiava essa mania da vida, de escolher por conta própria o nosso enredo, a nossa história. Por isso, Alice seguia devagar. Tão devagar o quanto podia. Tinha medo do que estava por vir. Sabia que mais adiante daria de cara com as escolhas que a vida fez pra ela. Algumas feitas no impulso, com a pupila saltada, o sangue fervendo. Pura paixão. E tudo o que Alice sempre buscou foi a paz. Ela temia o tempo, como o coelho instigou, mas temia ainda mais a precipitação. Por isso, engolia a ansiedade e seguia devagar. Um dia chegaria ao destino. E sobre isso, o velho coração já lhe falara. Curioso, ele dera um pulinho no futuro e voltara às pressas pra contar: “Respire aliviada, Alice. Logo ali, um pouco adiante daquela curva, à sombra de uma árvore, te espera, sem atropelos, a sua felicidade”. 

19 janeiro 2013

Amor de passagem


Ele tinha o destino dele. Ela tinha o dela. Eram destinos diferentes que, por acaso, se cruzaram no caminho. Única missão na vida um do outro: encontrarem-se. Simples assim. Sem fortes impactos ou grandes transformações. Um amor de passagem, que não levou muita bagagem consigo. Uns beijinhos aqui, uns pegas acolá, um sentimento que pensou em nascer, mas acabou encruado.

Sábio destino! Tinham coisas grandiosas a fazerem sozinhos. Um sem o outro. Livres. A lembrança agora era como a dedicatória anotada no velho livro. Ficaria ali, perdida, encerrada em uma estante da memória, que um dia, talvez, em uma das mudanças do destino, será reencontrada, relida, e novamente guardada.

Nem todo romance tem papel de destaque. Aquele não teve função alguma. Pelo menos nada que renda boas histórias na velhice. Foi um romance, porém. Teve frio na barriga, pupila dilatada e beijos intermináveis. Teve arrepios, noites em claro e sorrisos cúmplices. Deu choque, deu febre. E foi embora. Sem alarde. Assim como chegou.

Ele seguiu o caminho dele. Ela seguiu o dela. E fizeram coisas muito melhores assim.

10 janeiro 2013

Literatura sempre, por favor



A literatura é uma paixão. Paixão mesmo, dessas que dão um siricutico, um troço quente que vai subindo dos pés à cabeça. Às vezes, essa paixão adormece. Sei lá, algo estremece a relação. Talvez seja a vida moderna extrapolando ou, quem sabe, o excesso de jornalismo. No primeiro dia de faculdade já ouvi, nas palavras do mestre, que, invariavelmente, em algum momento da vida, o jornalismo corrompe o homem. Com algum descuido, também corrompe a poesia inerente a essa característica que me levou a escolher o jornalismo como profissão: gosto de olhar as pessoas e imaginar suas histórias, suas cargas e libertações.

Jornalismo nada mais é que contar histórias. Um primo da literatura, que muitas vezes se mostra seco e insensível, mas pode, sim, revelar belezas escondidas na correria diária. Nem sempre a forma como se conta uma história é capaz de eliminar a humanidade que ela carrega. É esta a minha interna luta permanente: não deixar que a objetividade que o jornalismo, ou mesmo a modernidade, me pede leve embora minha capacidade de ver dor, doçura, necessidade, leveza e todas essas coisas que fazem da vida um livro em tempo real. É quando me dou conta disso que a paixão pela literatura vem latejante, louca para gritar e compartilhar com todos as lentes com as quais eu vejo o mundo. Paixão que é paixão é assim: estremece, silencia, dá meia volta e ressurge. Mais inquietante do que nunca. Ainda bem.