Fio de Ariadne: A medida da inquietação

02 junho 2012

A medida da inquietação



A inquietação é uma mulher de duas faces. É como o remédio que só se difere do veneno pela medida. De um lado, na medida em que nos move, nos faz buscar o melhor, questionar o que não está no lugar, testar as várias versões, experimentar os caminhos. É um bicho que te irrita e te faz andar, buscar seu espaço no mundo, tentar entender o que você quer, o que te faz bem, onde você deve estar. Estar inquieto é não estar acomodado, esperando o tempo e as pessoas passarem. Pessoas inquietas se movem, quase sempre vão longe e, não raro, se encontram, acham seu lugar. Ali entendem que são felizes e que podem exercitar suas inquietações de outras formas. É aí que está o ponto x da corda, que lhe garante o equilíbrio.

Quando passa da medida, a inquietação acaba fazendo o efeito contrário: ela para o inquieto. Alguns passos a menos, outros tentando voltar, um bocado de energia gasta na tentativa de sair do lugar, mas nem um passo a mais. É que se busca tanto ir além, questiona-se tanto, esbraveja-se tanto, trava-se uma batalha tão ferrenha e intolerante com as pessoas e a vida que se espera nada além de um mundo perfeito, a la John Lennon ou, mais brasileiramente falando, Renato Russo: um mundo em que todas as pessoas são felizes, vivendo a vida em paz. Infelizmente, este mundo não existe, essas pessoas não existem e não existe o ponto perfeito no tempo e no espaço. A busca desmedida, na verdade, não nos leva a lugar algum. Perdemos tempo e energia de um canto a outro, sem se encontrar, restando apenas um sentimento de eterna insatisfação.

Inquietar-se é bom e necessário, mas, acima de tudo, é bom entender que sempre alguma coisa vai incomodar, sempre alguém vai nos provocar instintos indesejáveis, sempre vamos pensar em colocar a trouxa nas costas e fugir, mas, se nós soubermos usar essa inquietação a nosso favor, ela só vai servir para nos colocar no lugar onde nos sentimos melhor. O mais importante: encontrar este lugar e querer ficar não significa acomodar-se. É apenas compreender que o mundo não é perfeito e não somos nós que vamos mudá-lo. Pelo menos não agora. Muitas gerações virão, se inquietarão e se aquietarão até lá. Por enquanto, só nos cabe ajudar. Com equilíbrio, sabedoria, respeito ao outro e às nossas próprias limitações. Inquietar-se faz bem, mas aquietar-se na hora certa faz infinitamente mais.

Um comentário :

Renata Oliveira disse...

Parabéns pelo texto. Pensarei sempre na frase: “Inquietar-se faz bem, mas aquietar-se na hora certa faz infinitamente mais.”

Você é um sucesso garantido. Orgulho de ser sua amiga!!!

Beijos,
Renata Oliveira