Fio de Ariadne: “Gosto muito de te ver, leãozinho!”

24 maio 2012

“Gosto muito de te ver, leãozinho!”



O dia em que conheceu Nara! Alice lembra como se fosse ontem: no começo do ano letivo, na padaria perto da escola. Não demorou a descobrirem que seriam da mesma turma. Quando se apresentaram, Alice, lembrou-se logo da cantora preferida da mãe: Nara Leão. Sempre associava Nara a Leão. Primeiro, pela cantora, depois, pela vaidade que foi percebendo na, então, nova amiga. Nara era um leãozinho de tão vaidosa! Alice achava divertido. Não era algo que a incomodasse.

Desde aquele encontro na padaria, muitas histórias foram escritas. Compartilharam as diversas fases da vida, as histórias e novidades que cada uma traz. Houveram brigas, claro, mas briga de amigo leal é aquela que, não importa o barulho que faça, no fim das contas sempre acaba no silêncio de um abraço. Os trabalhos da escola, as festinhas nos fins de semana, os amores platônicos, os romances de verão, as crises existenciais, as furadas da vida, as escolhas profissionais, tudo, absolutamente tudo, compartilhado amiúde.

O tempo, no entanto, o velho tempo na história de Alice, age sobre tudo: transforma coisas, pessoas e situações. Vezes para melhor, vezes para pior, outras para simplesmente diferente. O fato é que age sempre, despudoradamente. Na história de hoje, ele, claro, agiu também. Veio uma tal formatura do colegial. As duas mocinhas seguiram caminhos diferentes. Alice, como era de se esperar, foi estudar filosofia. Nara, com seu cérebro matemático, acabou na engenharia. Tudo certo até então.

Partilharam todos os primeiros passos das novas vidas. Até que um dia surgiu um caminho por onde apenas uma poderia passar. Assim foi. Alice viu Nara caminhando longe, mais leãozinho do que nunca, por uma estrada que nunca a atraiu. Antes daquela estrada, abriu-se um abismo. Ali, cairam todas as (novas?) diferenças entre as duas. Não havia mais assuntos em comum, nem convites para o fim de semana. Não havia mais cumplicidade, nem histórias compartilhadas. Tudo no fundo do abismo. Guardado na memória, transformado pelo tempo.

Alice quis, por muitas vezes, construir uma ponte ou qualquer outra coisa que as fizessem novamente andar pelo mesmo caminho ou que, pelo menos, permitisse, vez ou outra, um reencontro. Não deu certo e Alice entendeu que na vida há coisas muito difíceis de serem resgatadas. Alice aprende coisas diariamente. Com aquela história, e algumas outras que a vida acabou lhe trazendo, entendeu que nem toda amizade dura para sempre. O tempo age sobre elas e não é sempre que faz como no vinho: torna mais fino e saboroso com o passar dos anos. 

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