Fio de Ariadne: Abril 2012

15 abril 2012

Depois da tempestade, a borboleta


Choveu forte. Choveu muito. Foi uma tempestade, com direito a ventos e trovoadas. O céu estava escuro e escura estava a alma de Clarice. Estranho que agora, quando a tempestade se fora, houvesse ainda um gosto amargo na boca, uma picadinha no peito, uma dorzinha daquelas chatas, fininhas, mas que vão durando, incomodando como o ferrinho do dentista.

Clarice ainda estava se levantando. O corpo doído, lenhado da luta. O céu clareava, o sol já dava o ar da graça. Restava-lhe apenas levantar e seguir. Sorrir o alívio de quem conquistou a vitória. Curioso é que ela ainda tivesse medo. Que ainda vacilasse na caminhada. Logo Clarice, tão forte e decidida. Verdade que também sempre trouxe em si a certeza da própria humanidade. Sabendo-se humana, Clarice sempre foi tolerante com as próprias fraquezas: uma hora, afinal, ela teria de chorar. Em algum momento, teria de ter medo; alguma situação haveria de deixá-la insegura. E ela sempre permitiu-se isso. Na medida certa, na duração exata para que aquilo não a impedisse de seguir em frente. A luta não havia sido fácil. Nunca foi fácil ser Clarice.

Ainda doía. A luta, a quebra, a falta, as mudanças repentinas, o desconhecido. Ter de descobrir novamente o caminho! Nada de anormal. Mais uma questão de respirar e esperar o tempo passar. Agora ela queria apenas um pouco de casulo. A borboleta estava se fazendo, colorida, nova, bela. E viria cheia de energia. Renovada. Mais Clarice do que nunca.