Fio de Ariadne: Março 2012

04 março 2012

A volta de Alice


Alice desceu as escadas da sala de desembarque com frio na barriga. A viagem havia sido longa. E ela havia estado longe. Longe de seu espaço, longe de todos e, o mais difícil, longe de si mesma. Como em qualquer viagem, Alice aprendeu. Cresceu com os acontecimentos, com as dificuldades, aprendeu com as pessoas - mesmo com aquelas que só ensinaram-na a não colocar a mão no fogo por ninguém. Ser outro muitas vezes serve para nos mostrar quantos outros existem nas pessoas mais próximas de nós. E que nem todos são bonitos de se ver.

Era estranho voltar depois de tanto tempo imersa em outro lugar. Outros costumes, outras pessoas, outra Alice. Ser outra era questão de sobrevivência por onde ela andou. Nem sempre ela acertava na encenação, mas, de fato, ali, encenar era preciso. Pessoas como Alice não alcançam a frieza. E, por isso, em determinados lugares, com determinadas pessoas, elas sofrem. À ela, era dolorido buscar a objetividade a todo custo, era dolorido ser como os outros, era dolorido ser outra Alice quando a verdadeira Alice clamava por liberdade, enclausurada em si mesma.

Ser forte cansa e cansa ainda mais quando se sabe que ser fraco não é permitido. Alice estava exaurida. Até aquele momento. Até o momento da volta. Até descer as escadas da sala de desembarque e sentir nos pulmões cheios o ar da liberdade. Ela estava de volta. Pra casa, pra si mesma, pra vida. Alice sentia-se livre de novo. Sentia-se renovada. Como se estivesse guardada o tempo todo, esperando o momento de voltar. Plena, cheia de energia. Sensível de novo! Trazia consigo a maturidade que se ganha nos campos de batalha. A sabedoria de quem conseguiu passar por ele, sem deixar que morresse sua essência, libertando-a plenamente depois da conquista.

Alice estava de volta! Feliz, livre, Alice. Tranquila e certa de que, como após toda batalha vencida, restava-lhe, mais forte e mais serena, colher os frutos de quem mereceu chegar até aqui.