Fio de Ariadne: 2012

29 dezembro 2012

Gestações



Nove meses. Tempo suficiente para alguém se formar. Um ínterim na eternidade e o não-existir vira presença, enche a casa, a vida, o coração. Não mais silêncio, não mais quietude. E, para aquele novo ser que vem ao mundo, não mais o conforto da proteção absoluta. Agora o novo. A dor do parto, o desafio de crescer, a inquietação de estar no mundo. Nove meses para se formar. É forte. Pesa. Fazer um embrião tornar-se gente é um susto da vida. Nascer é uma violência necessária. Pobre criança que, ao vir ao mundo, nem imagina que vai ter de nascer muitas outras vezes. Muitos ciclos virão. Muitas formações. Chegar aqui significa apenas completar a primeira delas. A vitória principal de tantas outras que serão conquistadas. Muitas gestações. Muitos partos. E, depois deles, outros passos. Não mais o conforto da barriga, mas agora o bônus de vencer a primeira etapa. Os primeiros nove meses de luta. Outros nove meses virão. Muito mais a se formar. Sucessivas vitórias. E a alegria reincidente de aprender mais a cada dia e entender que a vida tem, sim, algumas batalhas, mas que elas servem pra tornar a conquista ainda mais saborosa. A cada degrau, um sorriso, uma lágrima de alegria, a satisfação de superar o mundo e de superar-se. O encantamento de nascer de novo.

20 novembro 2012

"Esperança Equilibrista"



Então, esta é a vida: uma corda esticada, elástica, que vez ou outra parece que vai jogá-lo no chão. E, se não souber a brincadeira, ela joga mesmo. Viver é andar sempre na corda bamba. Uma arte. Algumas vezes com plateia; outras, apenas você e uma luz discreta sobre o picadeiro. Sempre um desafio. Um belo desafio, deve-se dizer, mas por vezes assustador. Aprende-se tanto ao longo dessa linha! E aí está exatamente uma das lições: o belo também pode assustar. O feio pode se revelar esplêndido. Tudo pode acontecer no caminho. Isto é o que torna mais difícil e fantástica a conquista do equilíbrio: não saber o que virá no passo adiante e entender que, não importa quando, nem quantas vezes aconteça, o desequilíbrio faz parte do jogo. Fatalmente, algo balançará a corda um dia. E isso vai te balançar por inteiro. Das pontas dos pés, vacilantes pelo medo, aos cabelos emaranhados pelo vento, ou pelas preocupações. Não há quem escape. Se cair, é possível subir de novo, mas vale lembrar que, no tombo, você pode se machucar e isso vai dificultar a caminhada. Portanto, desequilibre-se, permita-se vacilar, balance com a corda, mas lembre-se de que nem todo desequilíbrio acaba em queda. A menos que você permita que ele vença seus talentos. Respire fundo, recupere o equilíbrio e prossiga. Arrisque-se, sim, mas não tente dar passos rápidos ou longos demais. No jogo de equilíbrio, esperar o momento certo para avançar é fundamental. O espetáculo pode demorar um pouco mais, mas torna-se encantador e traz a certeza de que é possível alcançar o fim da linha em segurança. Com sabedoria e paciência, conquista-se a esperança, aquela mesma da música de Elis Regina, que nos move diariamente e, ignorando medos e dúvidas, sabe bem “que o show de todo artista tem que continuar”.

03 setembro 2012

Dona Leveza, pode sair!




Quero a leveza com a qual aprendi a ver a vida. Resolveu fugir de mim. Ir pra algum lugar escondido. Provavelmente dentro de mim mesma. Ser leve nunca significou ser frágil. Como diria Clarice, leve como a brisa ou forte como uma ventania. Dá pra ser as duas coisas na mesma alma. E foi sempre assim que levei a vida. Não é agora que vai ser diferente. Portanto, dona leveza, trate de sair de trás da cortina. Já posso ver seus pezinhos por baixo da barra. Não há o que temer. Basta sair e dançar pela sala. Do jeito que você sabe fazer como ninguém. Com os cabelos soltos e a cabeça livre. Liberta dos gessos que algumas mentes pequenas insistem em te colocar. Você pode voar. E sabe bem que pode ir bem alto. Na altura da sua coragem. Da sua força. E da sua vontade de ser feliz.

13 julho 2012

Pés calejados, novos caminhos




Depois de algum tempo de caminhada, os pés estavam cheios de calos. Cada um trazia uma história, cada um doía diferente. Mas todos doíam. Estranho no momento de trilhar um novo caminho. Complicado explicar na hora de calçar um sapato novo. Difícil não ter medo de se machucar mais uma vez, ganhar mais um calo, em um pé pequenino, que já não suporta mais.

A vida continua, é certo. Os caminhos ainda são muitos, longos, variados. Mesmo que doloridos, os tais pezinhos precisam seguir. Vão tateando o espaço, sentindo o terreno. Atitude difícil essa de abandonar o velho e confortável tênis, onde os calos já se encaixavam, onde os pés já se entendiam.

Recomeçar uma caminhada é sempre um desafio. Merece tempo, paciência. Pra aprender o caminho, pra respirar os novos ares, pra entender o porque de prosseguir. Devagarinho os pés se reencontram, ganham firmeza e confiança, perdem o medo dos obstáculos e das armadilhas. Dali a pouco, dançam na pista.

02 junho 2012

A medida da inquietação



A inquietação é uma mulher de duas faces. É como o remédio que só se difere do veneno pela medida. De um lado, na medida em que nos move, nos faz buscar o melhor, questionar o que não está no lugar, testar as várias versões, experimentar os caminhos. É um bicho que te irrita e te faz andar, buscar seu espaço no mundo, tentar entender o que você quer, o que te faz bem, onde você deve estar. Estar inquieto é não estar acomodado, esperando o tempo e as pessoas passarem. Pessoas inquietas se movem, quase sempre vão longe e, não raro, se encontram, acham seu lugar. Ali entendem que são felizes e que podem exercitar suas inquietações de outras formas. É aí que está o ponto x da corda, que lhe garante o equilíbrio.

Quando passa da medida, a inquietação acaba fazendo o efeito contrário: ela para o inquieto. Alguns passos a menos, outros tentando voltar, um bocado de energia gasta na tentativa de sair do lugar, mas nem um passo a mais. É que se busca tanto ir além, questiona-se tanto, esbraveja-se tanto, trava-se uma batalha tão ferrenha e intolerante com as pessoas e a vida que se espera nada além de um mundo perfeito, a la John Lennon ou, mais brasileiramente falando, Renato Russo: um mundo em que todas as pessoas são felizes, vivendo a vida em paz. Infelizmente, este mundo não existe, essas pessoas não existem e não existe o ponto perfeito no tempo e no espaço. A busca desmedida, na verdade, não nos leva a lugar algum. Perdemos tempo e energia de um canto a outro, sem se encontrar, restando apenas um sentimento de eterna insatisfação.

Inquietar-se é bom e necessário, mas, acima de tudo, é bom entender que sempre alguma coisa vai incomodar, sempre alguém vai nos provocar instintos indesejáveis, sempre vamos pensar em colocar a trouxa nas costas e fugir, mas, se nós soubermos usar essa inquietação a nosso favor, ela só vai servir para nos colocar no lugar onde nos sentimos melhor. O mais importante: encontrar este lugar e querer ficar não significa acomodar-se. É apenas compreender que o mundo não é perfeito e não somos nós que vamos mudá-lo. Pelo menos não agora. Muitas gerações virão, se inquietarão e se aquietarão até lá. Por enquanto, só nos cabe ajudar. Com equilíbrio, sabedoria, respeito ao outro e às nossas próprias limitações. Inquietar-se faz bem, mas aquietar-se na hora certa faz infinitamente mais.

24 maio 2012

“Gosto muito de te ver, leãozinho!”



O dia em que conheceu Nara! Alice lembra como se fosse ontem: no começo do ano letivo, na padaria perto da escola. Não demorou a descobrirem que seriam da mesma turma. Quando se apresentaram, Alice, lembrou-se logo da cantora preferida da mãe: Nara Leão. Sempre associava Nara a Leão. Primeiro, pela cantora, depois, pela vaidade que foi percebendo na, então, nova amiga. Nara era um leãozinho de tão vaidosa! Alice achava divertido. Não era algo que a incomodasse.

Desde aquele encontro na padaria, muitas histórias foram escritas. Compartilharam as diversas fases da vida, as histórias e novidades que cada uma traz. Houveram brigas, claro, mas briga de amigo leal é aquela que, não importa o barulho que faça, no fim das contas sempre acaba no silêncio de um abraço. Os trabalhos da escola, as festinhas nos fins de semana, os amores platônicos, os romances de verão, as crises existenciais, as furadas da vida, as escolhas profissionais, tudo, absolutamente tudo, compartilhado amiúde.

O tempo, no entanto, o velho tempo na história de Alice, age sobre tudo: transforma coisas, pessoas e situações. Vezes para melhor, vezes para pior, outras para simplesmente diferente. O fato é que age sempre, despudoradamente. Na história de hoje, ele, claro, agiu também. Veio uma tal formatura do colegial. As duas mocinhas seguiram caminhos diferentes. Alice, como era de se esperar, foi estudar filosofia. Nara, com seu cérebro matemático, acabou na engenharia. Tudo certo até então.

Partilharam todos os primeiros passos das novas vidas. Até que um dia surgiu um caminho por onde apenas uma poderia passar. Assim foi. Alice viu Nara caminhando longe, mais leãozinho do que nunca, por uma estrada que nunca a atraiu. Antes daquela estrada, abriu-se um abismo. Ali, cairam todas as (novas?) diferenças entre as duas. Não havia mais assuntos em comum, nem convites para o fim de semana. Não havia mais cumplicidade, nem histórias compartilhadas. Tudo no fundo do abismo. Guardado na memória, transformado pelo tempo.

Alice quis, por muitas vezes, construir uma ponte ou qualquer outra coisa que as fizessem novamente andar pelo mesmo caminho ou que, pelo menos, permitisse, vez ou outra, um reencontro. Não deu certo e Alice entendeu que na vida há coisas muito difíceis de serem resgatadas. Alice aprende coisas diariamente. Com aquela história, e algumas outras que a vida acabou lhe trazendo, entendeu que nem toda amizade dura para sempre. O tempo age sobre elas e não é sempre que faz como no vinho: torna mais fino e saboroso com o passar dos anos. 

15 abril 2012

Depois da tempestade, a borboleta


Choveu forte. Choveu muito. Foi uma tempestade, com direito a ventos e trovoadas. O céu estava escuro e escura estava a alma de Clarice. Estranho que agora, quando a tempestade se fora, houvesse ainda um gosto amargo na boca, uma picadinha no peito, uma dorzinha daquelas chatas, fininhas, mas que vão durando, incomodando como o ferrinho do dentista.

Clarice ainda estava se levantando. O corpo doído, lenhado da luta. O céu clareava, o sol já dava o ar da graça. Restava-lhe apenas levantar e seguir. Sorrir o alívio de quem conquistou a vitória. Curioso é que ela ainda tivesse medo. Que ainda vacilasse na caminhada. Logo Clarice, tão forte e decidida. Verdade que também sempre trouxe em si a certeza da própria humanidade. Sabendo-se humana, Clarice sempre foi tolerante com as próprias fraquezas: uma hora, afinal, ela teria de chorar. Em algum momento, teria de ter medo; alguma situação haveria de deixá-la insegura. E ela sempre permitiu-se isso. Na medida certa, na duração exata para que aquilo não a impedisse de seguir em frente. A luta não havia sido fácil. Nunca foi fácil ser Clarice.

Ainda doía. A luta, a quebra, a falta, as mudanças repentinas, o desconhecido. Ter de descobrir novamente o caminho! Nada de anormal. Mais uma questão de respirar e esperar o tempo passar. Agora ela queria apenas um pouco de casulo. A borboleta estava se fazendo, colorida, nova, bela. E viria cheia de energia. Renovada. Mais Clarice do que nunca.

04 março 2012

A volta de Alice


Alice desceu as escadas da sala de desembarque com frio na barriga. A viagem havia sido longa. E ela havia estado longe. Longe de seu espaço, longe de todos e, o mais difícil, longe de si mesma. Como em qualquer viagem, Alice aprendeu. Cresceu com os acontecimentos, com as dificuldades, aprendeu com as pessoas - mesmo com aquelas que só ensinaram-na a não colocar a mão no fogo por ninguém. Ser outro muitas vezes serve para nos mostrar quantos outros existem nas pessoas mais próximas de nós. E que nem todos são bonitos de se ver.

Era estranho voltar depois de tanto tempo imersa em outro lugar. Outros costumes, outras pessoas, outra Alice. Ser outra era questão de sobrevivência por onde ela andou. Nem sempre ela acertava na encenação, mas, de fato, ali, encenar era preciso. Pessoas como Alice não alcançam a frieza. E, por isso, em determinados lugares, com determinadas pessoas, elas sofrem. À ela, era dolorido buscar a objetividade a todo custo, era dolorido ser como os outros, era dolorido ser outra Alice quando a verdadeira Alice clamava por liberdade, enclausurada em si mesma.

Ser forte cansa e cansa ainda mais quando se sabe que ser fraco não é permitido. Alice estava exaurida. Até aquele momento. Até o momento da volta. Até descer as escadas da sala de desembarque e sentir nos pulmões cheios o ar da liberdade. Ela estava de volta. Pra casa, pra si mesma, pra vida. Alice sentia-se livre de novo. Sentia-se renovada. Como se estivesse guardada o tempo todo, esperando o momento de voltar. Plena, cheia de energia. Sensível de novo! Trazia consigo a maturidade que se ganha nos campos de batalha. A sabedoria de quem conseguiu passar por ele, sem deixar que morresse sua essência, libertando-a plenamente depois da conquista.

Alice estava de volta! Feliz, livre, Alice. Tranquila e certa de que, como após toda batalha vencida, restava-lhe, mais forte e mais serena, colher os frutos de quem mereceu chegar até aqui.

21 fevereiro 2012

A nuvem que eu vejo


É como brincar de descobrir desenhos em nuvens. Cada um enxerga uma forma, um significado. Cada um vê o que está dentro de si. Dentro de mim há poesia. A poesia é a nuvem que eu sempre vejo. Vez ou outra escurece, vira tempestade, o vento leva embora. Mas ela volta. Volta porque faz parte mim. Volta porque sou eu. É a forma como vejo o mundo, como ele se desenha diante dos meus olhos. Minha nuvem se externa e, como tudo o que sai ao mundo, é vista de diversas formas, sob diversos olhares. Nem sempre são olhares justos. Nem sempre enxergam na nuvem o que ela realmente quer dizer. De fato, cada um vê o que está dentro de si.

Quem carrega a poesia carrega também um grande fardo: poucos são os que conseguem ler a vida com os olhos da sensibilidade. O sensível é quase sempre um estrangeiro no mundo dos homens. Cabe a ele carregar o peso da crítica, da zombaria, da injustiça. Olhos insensíveis não vislumbram o cenário. Absorvem apenas o pequeno quadro em que figuram sozinhos. Nele, não se desenham muitas nuvens. As que cabem limitam-se a mostrar o que não é bonito de se ver.