Fio de Ariadne: Colo

05 novembro 2011

Colo


Vem, Clarice! Pousa a cabeça aqui no meu colo. Conheço bem esses olhos inquietos. Sei que tem alguma coisa doendo aí dentro. Não precisa falar nada. Apenas deita aqui e me deixa passar as mãos nos seus cabelos. Faz de conta que elas têm o dom de organizar seus pensamentos. Chora. Pode chorar alto ou baixinho. Eu não ligo e vou fingir que não estou vendo. Tudo bem? A gente fica assim, eu cuidando de você e você esquecendo do mundo, o tempo que for necessário.

Aos poucos vou entendendo tudo. Como se meu corpo fosse capaz de ler as suas mágoas, como se o seu desabafo viesse por meio da pele, do contato. Tem algumas coisas cozinhando aí dentro, não é, Clarice? Deixa sair o vapor. Quanto mais fechado a gente fica, mais as coisas fazem pressão dentro da gente. Uma hora a gente enfraquece e explode. Dá pra ser forte sem deixar de ser humano. Também dá pra ser leve, sem deixar fazer o que precisa ser feito. É uma questão de equilíbrio.

Às vezes falta um colinho, como este de agora. Há dias em que a gente quer um sorriso e esse sorriso não vem. Às vezes, a gente se dá e não recebe nada em troca. Pessoas e situações nos decepcionam. É normal, Clarice. O que não pode é a gente deixar essas coisas ganharem mais importância do que merecem. O que não pode é deixarmos as chateações nos impedirem de vermos as bençãos da vida, de enxergarmos a nós mesmos.

Parte das suas lágrimas é saudades de si mesma. Que tal marcar um encontro com o espelho? Há coisas que só podemos fazer sozinhos. Mergulhar dentro de si, fazer uma faxina, até se achar novamente, limpa e inteira. Sem pressões, sem decepções, sem lágrimas. Meu colo apenas para matar a saudade.

Um comentário :

Noemyr Gonçalves* disse...

Que lindo!
Gostei tanto daqui...
Seu canto é um daqueles lugares raros que encontramos pela internet!
:)
Voltarei mais vezes.

Besitos =*