Fio de Ariadne: Película

27 agosto 2011

Película


Rua da Bahia. Hora do rush. Desço à pé, como há muito tempo não fazia. O cenário ganha cores nunca vistas. É um filme gravado em película, quase em câmera lenta. Meus olhos são câmeras múltiplas, rápidas, perspicazes. A luz rósea do entardecer mistura-se aos faróis dos muitos carros que ouço buzinarem na descida para o Centro. Eles têm pressa. Eu, àquela altura, já não tinha nenhuma. Os olhos seguiam, enquadrando tudo, fotografando todos.

Uma senhora pedinte, sentada à porta da Igreja de Lourdes, era parte permanente do cenário. Ninguém mais a via. O carrinho de pipoca atraía os olhares infantis. Mãozinhas espertas puxavam as dos pais, chamando o olhar para baixo, como a pedir uma parada. Ternos sisudos subiam a rua, carregando o cansaço das reuniões do dia. Ipods e similares faziam trilha sonora para passos apressados. Mesas à porta dos bares reuniam copos e gargalhadas. Cabelos roxos e vermelhos moviam-se entre braços tatuados e gesticulantes, querendo chamar a atenção do mundo. Motoristas engoliam as faixas de pedestres e, com elas, qualquer resquício de gentileza urbana.

Aos poucos, o fluxo seguia. De gente, de carros e da vida. Ela nunca esperou o engarrafamento passar para ir em frente.

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