Fio de Ariadne: Agosto 2011

27 agosto 2011

Película


Rua da Bahia. Hora do rush. Desço à pé, como há muito tempo não fazia. O cenário ganha cores nunca vistas. É um filme gravado em película, quase em câmera lenta. Meus olhos são câmeras múltiplas, rápidas, perspicazes. A luz rósea do entardecer mistura-se aos faróis dos muitos carros que ouço buzinarem na descida para o Centro. Eles têm pressa. Eu, àquela altura, já não tinha nenhuma. Os olhos seguiam, enquadrando tudo, fotografando todos.

Uma senhora pedinte, sentada à porta da Igreja de Lourdes, era parte permanente do cenário. Ninguém mais a via. O carrinho de pipoca atraía os olhares infantis. Mãozinhas espertas puxavam as dos pais, chamando o olhar para baixo, como a pedir uma parada. Ternos sisudos subiam a rua, carregando o cansaço das reuniões do dia. Ipods e similares faziam trilha sonora para passos apressados. Mesas à porta dos bares reuniam copos e gargalhadas. Cabelos roxos e vermelhos moviam-se entre braços tatuados e gesticulantes, querendo chamar a atenção do mundo. Motoristas engoliam as faixas de pedestres e, com elas, qualquer resquício de gentileza urbana.

Aos poucos, o fluxo seguia. De gente, de carros e da vida. Ela nunca esperou o engarrafamento passar para ir em frente.

20 agosto 2011

“Amor que nunca morre”


Quintana andou dizendo que “a amizade é um amor que nunca morre”. Adoro essa frase, mas, por algum tempo, tive minhas dúvidas. Achei que morresse, sim. Foi então que descobri, que, se morre, a justificativa é muito simples: não era amizade. Sábio Quintana! O que morre é aquela tal ilusão, uma relação cheia de interesses e de mão única. Não era amizade!

Estive pensando que os amigos nos conquistam, como qualquer paixão arrebatadora faz. É um relacionamento de cumplicidade, presença, prazer em estar com o outro, dividir pensamentos e experiências. Quando ganhamos um novo amigo, nos apaixonamos por ele. Gostamos de estar com ele, das risadas que damos juntos, dos micos que pagamos, dos desabafos, das conversas “cabeça”, dos olhares cúmplices, dos códigos e piadas que só o outro entende. Um amor verdadeiro e desinteressado e que, sendo real, nunca morre.

Como de qualquer relacionamento, da amizade, espera-se o mínimo de reciprocidade. Rima óbvia, não? Não para algumas pessoas. A amizade é um sentimento vivo, precisa de cuidados para não morrer de inanição. Há muitos maus cuidadores da amizade. Que a transformam em uma máquina qualquer, que só funciona enquanto tem algo de artificial para sustentá-la. Deixa, então, de ser amizade. Hora ou outra, a tal bateria acaba. É a paixão que nunca passa a amor. Aquilo que podia ser, mas acabou nunca sendo. Morre. E, aí meus caros, fica difícil fazê-la voltar a viver. É como um namoro acabado, depois de cair na mesmice. Não há confiança, não há mais tesão, não há mais a menor motivação para largar tudo e ir socorrer o outro. Era um quase amor. Platônico. Não correspondido. E aí não tem jeito: morre mesmo.

17 agosto 2011

De repente 30


Foi assim: um dia desses qualquer, eu, boa soneca que sou, dormi e acordei com 30. Nada previamente marcado, nada instituído, formalizado, lavrado em cartório. De repente, 30. Importante dizer que o processo, que é o que realmente interessa, havia começado faz tempo. O que vem de repente é a consciência dos 30. Quase uma metonímia da vida. Tomamos objeto pelo conteúdo. Os 30, conteúdo, vão sendo feitos um tempo antes, como uma receita preparada com muito cuidado, com ingredientes indispensáveis, que vão sendo misturados e medidos ao longo dos meses.

Quando acordei com 30, estava apenas me dando conta do que eu já era. Uma balzaquiana, das boas (no melhor dos sentidos), daquelas que Balzac descreveu com uma sabedoria que poucos homens já tiveram ao enxergar uma mulher. A consciência dos 30 é exatamente o grande trunfo da balzaquiana, a de Balzac e a brazuca. 30 é 30 em qualquer lugar.

Saber-se, entender-se e gostar-se com 30 é a peça chave e conclusiva de tudo. Fazer trinta é um processo. Estar com 30 é uma constatação. Praticamente um atestado de segurança, auto-estima, leveza. Nos 30, temos certeza de quem somos e do que queremos. Sabemos o que nos incomoda, o que abominamos e aquelas coisas (e pessoas) da vida às quais aceitamos dar uma segunda chance. A grande sacada dos 30 é exatamente saber que, embora já tenhamos vivido um bocado, é possível uma nova chance. Se não uma nova chance, um novo caminho, um novo lugar, um novo jeito de mostrar-se ao mundo.

Os anos não pesam mais. Não pesam as mesmas coisas que pesavam antes. Pesam menos as críticas, as palavras, as chatices. Porque, quem constrói bem os 30, aprende o real peso das coisas e o verdadeiro valor da vida.

Há algum tempo eu construía os 30. Hoje tenho 30, prontíssimos, com convicção, orgulho, tranqüilidade. Alguns fios brancos? Que me importa!? Nada que um belo sorriso no rosto não consiga disfarçar.