Fio de Ariadne: Ao som de passado

26 junho 2011

Ao som de passado


Acordei e coloquei aquele CD para tocar. Sem mais pretensões. Juro. Talvez, caro leitor, você diga: “Não disfarce, Clarice, já te conheço.” Alguns textos depois, tenho que admitir: conhece como poucos. Mas desta vez preciso apresentar-lhe um lado que desconhece: nas minhas filosofações, quase nunca faço algo de propósito. Coloquei lá o tal CD, sim, mas sem um motivo específico. Coloquei por colocar, vontade de ouvir, cantar e viajar ao som das músicas que embalaram parte da minha vida. O que não lembrei, na escolha do CD, é de qual parte foi essa.

Não precisaram muitos acordes para que viesse tudo à memória. Tudo e todos. Todo. Parece até que senti os mesmos cheiros, as mesmas sensações, ouvi os mesmos sons e que o mesmo rubor nas faces me acometeu sem piedade. Veio a paixão, vieram as dúvidas, aquele abraço e aqueles olhos que, mesmo abertos, pareciam fechados, de tão hermética era aquela alma. Claro, em algum momento da canção, também vieram as dores, as decepções, as sensações desagradáveis que tantas vezes aquela relação me provocou.

Como as músicas podem ser missionárias em nossas vidas, não? Acho que elas também são uma forma de Deus nos dizer algumas coisas. Desta vez, Ele me disse: “já deu, Clarice. Se há ainda algum resquício daquele passado no seu coração, joga fora, não tem mais lugar para ele aí.” E assim foi. Deixei o CD tocar, como se, com cada nota, fossem embora pelos ares todas aquelas sensações que, sabe-se lá porquê, eu havia suportado por tanto tempo. Foi uma limpeza. Uma faxina pela qual eu precisava passar. Para arrumar bem o armário, é preciso trazer à tona toda a tralha que insistimos em guardar porque “um dia podemos precisar”. Aquelas canções foram muito claras: dessa tralha eu não preciso mais.

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