Fio de Ariadne: Junho 2011

26 junho 2011

Ao som de passado


Acordei e coloquei aquele CD para tocar. Sem mais pretensões. Juro. Talvez, caro leitor, você diga: “Não disfarce, Clarice, já te conheço.” Alguns textos depois, tenho que admitir: conhece como poucos. Mas desta vez preciso apresentar-lhe um lado que desconhece: nas minhas filosofações, quase nunca faço algo de propósito. Coloquei lá o tal CD, sim, mas sem um motivo específico. Coloquei por colocar, vontade de ouvir, cantar e viajar ao som das músicas que embalaram parte da minha vida. O que não lembrei, na escolha do CD, é de qual parte foi essa.

Não precisaram muitos acordes para que viesse tudo à memória. Tudo e todos. Todo. Parece até que senti os mesmos cheiros, as mesmas sensações, ouvi os mesmos sons e que o mesmo rubor nas faces me acometeu sem piedade. Veio a paixão, vieram as dúvidas, aquele abraço e aqueles olhos que, mesmo abertos, pareciam fechados, de tão hermética era aquela alma. Claro, em algum momento da canção, também vieram as dores, as decepções, as sensações desagradáveis que tantas vezes aquela relação me provocou.

Como as músicas podem ser missionárias em nossas vidas, não? Acho que elas também são uma forma de Deus nos dizer algumas coisas. Desta vez, Ele me disse: “já deu, Clarice. Se há ainda algum resquício daquele passado no seu coração, joga fora, não tem mais lugar para ele aí.” E assim foi. Deixei o CD tocar, como se, com cada nota, fossem embora pelos ares todas aquelas sensações que, sabe-se lá porquê, eu havia suportado por tanto tempo. Foi uma limpeza. Uma faxina pela qual eu precisava passar. Para arrumar bem o armário, é preciso trazer à tona toda a tralha que insistimos em guardar porque “um dia podemos precisar”. Aquelas canções foram muito claras: dessa tralha eu não preciso mais.

23 junho 2011

Onde queria chegar


Ela era assim. Serena, tranquila. Pessoas tolas a indignavam, mas sem tirar sua pacificidade. Tinha valores claros e muitas vezes opostos aos da maioria. Ser minoria nunca foi fácil. Traz o conflito, o medo e a constante ameaça vinda do grupo dominante. Seja uma opinião radical, um olhar de preconceito ou um julgamento bobo. Eles sempre fazem questão de se manifestar.

Não, nunca foi fácil, mas nada bloqueia quem sabe o que quer. Ela sabia-se diferente, mas era certa de quem era e porque era. Isso torna tudo mais tranquilo. É bem mais fácil tirar os obstáculos do caminho quando sabe-se onde se quer chegar. Ela sabia como poucos. Por isso seguiu, driblando as ilusões da vida e pouco se importando com aqueles que achavam dominá-la. Ela sempre foi a única que se dominou. E sem nenhum tom de arrogância nisso.

Seguiu, com toda a sua serenidade e paz interior, com toda sua capacidade de amar, ainda que conseguisse ver, no interior das pessoas, tudo o que de ruim elas carregavam. Tinha faro para os defeitos alheios. Conhecia a todos minuciosamente, mas guardava-os para si, por entender que trazê-los à luz não os exterminaria. Amava as pessoas ainda assim. E isso tudo porque sabia exatamente quem era e aonde iria.

Chegou onde sempre quis chegar. Até lá, esteve boa parte do tempo sozinha. Agora, tudo era festa. A vida é mais simples do que se imagina.

19 junho 2011

O que fazemos da pressa


Os meses passaram tão rápido que a sensação, às vezes, é de ter estado em transe enquanto eles corriam. Foram tão intensos, tão tensos, tão cheios de novidades, que ainda não parei para pensar o que fizeram de mim. Acho e espero, sinceramente, que não tenham feito muita coisa. Pelo menos, não no sentido de me transformarem em algo que eu não gostaria de ser.

É junho, quase julho, vejam só! E cá estou, em processo de desaceleração, depois de a vida ter me obrigado a pisar fundo no 220. Ainda tenho que manter o ritmo, é fato, mas acho que já dá para voltar a olhar as pessoas e imaginar suas histórias de vida. Uma coisa é fato: ainda sinto intensamente, ainda exercito minha visão de raio X e ainda encaro a vida como um delicioso livro de filosofia. Provavelmente, é neste capítulo que eu confronto meus valores com os de outros mundos e entendo que, nesta luta, não há fracos nem fortes. São simplesmente essências diversas que acabam por temperar a vida.

Vilã ou incompreendida, a pressa já virou personagem de importância nessa história. O que ela faz de mim ou de quem quer que seja não é o ponto chave. O x da questão é o que nós, testados pela vida, fazemos dos dias corridos e entulhados de coisas que ela nos dá. Manter-se firme e leal a si mesmo, ainda que em meio ao turbilhão, é o melhor resultado. O que há em nós, se soubermos cuidar, estará sempre seguro. Todo o resto é mero e frágil cenário.