Fio de Ariadne: Sobre vazios e a plenitude

28 março 2011

Sobre vazios e a plenitude


- Mas o que foi que vi nele? - perguntou à amiga de velhos tempos.

O mais provavél é que não tivesse visto nada mesmo. E foi este o ponto crucial: ele não tinha nada. Nada além de um olhar que era quase um pedido de piedade, alguns complexos e traumas de uma adolescência afetivamente frustrada, alguns relacionamentos mal acabados. Não acreditava em si mesmo, ou acreditava demais. Intercalava os dois extremos, reafirmando a insegurança e a eterna dúvida de ser que trazia consigo.

Ele não tinha nada. E exatamente por não ter nada a interessava. Era dona de uma tal veia socialista que saltava. Queria partilhar algo com ele. Queria, de alguma forma, preencher aquele vazio triste e grande, acolhido por olhos tão pequenos.

O que não haviam dito a ela é que há quem se sustente pelo próprio vazio. Há quem deseje o nada, como se ele fosse, de certa forma, um pilar, uma identidade. Há ainda quem escolha o vazio como forma de auto-punição, por uso indevido do espaço em experiências anteriores. Foi estranho perceber que, ao menos um desses casos (ou ambos), seria o dele.

Ele não tinha nada. Constatação triste por si só. E ela não tinha como preenchê-lo. Ainda que quisesse, ainda que tivesse o potencial de torná-lo pleno, não podia! E não podia, basicamente, porque ele próprio nunca lhe abriu a porta e muito provavelmente nem soubesse como fazê-lo. Mais triste é não apenas que ela não tenha conseguido preenchê-lo, mas também que ele tenha lhe trazido o vazio dolorido de quem não conseguiu cumprir seu propósito.

Conforta saber que ela sabe bem que, para sentir-se plena de novo, basta abrir algumas portas. E, ao contrário dele, o caminho para a plenitude não lhe causa medo algum.

6 comentários :

Lígia disse...

Eu entendo... para mim é difícil resistir a um homem dependente... bjos!

Ana disse...

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Rs

Carol Jardim disse...

Esse texto me fez sentir um vácuo. Cadê você para prenchê-lo, Jornalisticamente Incorreta?

Talita Cruz disse...

Ás vezes tenho vontade de mostrar seus texto para uma pessoa que eu conheço rs. Mas o pior é que eu sou o copo vazio da história...

Carol Jardim disse...

Saudades Jornalisticamente Incorreta. Cadê você?

Ariadne Lima disse...

Tô trabalhando tanto, Carolzinha, que não tá sobrando tempo para criar. :/ Mas eu volto! Beijinho! Saudades tbm!