Fio de Ariadne: Março 2011

28 março 2011

Sobre vazios e a plenitude


- Mas o que foi que vi nele? - perguntou à amiga de velhos tempos.

O mais provavél é que não tivesse visto nada mesmo. E foi este o ponto crucial: ele não tinha nada. Nada além de um olhar que era quase um pedido de piedade, alguns complexos e traumas de uma adolescência afetivamente frustrada, alguns relacionamentos mal acabados. Não acreditava em si mesmo, ou acreditava demais. Intercalava os dois extremos, reafirmando a insegurança e a eterna dúvida de ser que trazia consigo.

Ele não tinha nada. E exatamente por não ter nada a interessava. Era dona de uma tal veia socialista que saltava. Queria partilhar algo com ele. Queria, de alguma forma, preencher aquele vazio triste e grande, acolhido por olhos tão pequenos.

O que não haviam dito a ela é que há quem se sustente pelo próprio vazio. Há quem deseje o nada, como se ele fosse, de certa forma, um pilar, uma identidade. Há ainda quem escolha o vazio como forma de auto-punição, por uso indevido do espaço em experiências anteriores. Foi estranho perceber que, ao menos um desses casos (ou ambos), seria o dele.

Ele não tinha nada. Constatação triste por si só. E ela não tinha como preenchê-lo. Ainda que quisesse, ainda que tivesse o potencial de torná-lo pleno, não podia! E não podia, basicamente, porque ele próprio nunca lhe abriu a porta e muito provavelmente nem soubesse como fazê-lo. Mais triste é não apenas que ela não tenha conseguido preenchê-lo, mas também que ele tenha lhe trazido o vazio dolorido de quem não conseguiu cumprir seu propósito.

Conforta saber que ela sabe bem que, para sentir-se plena de novo, basta abrir algumas portas. E, ao contrário dele, o caminho para a plenitude não lhe causa medo algum.

21 março 2011

Busca


Falta alguma coisa. Não sei dizer o que é. Abro a janela. Deixo o vento frio do início de outono tomar meu rosto e meu espírito. É noite. A lua me olha como a dizer: estamos juntas na nossa solidão. O que me toca é saber que, em algum lugar, tem alguém comigo. Respiro gostoso, enchendo os pulmões, retendo o ar, do jeitinho que aprendi nas aulas de yoga. Fecho os olhos e sinto o calor de quem me abraça em pensamento.

Ainda não sei o que falta, mas entendo perfeitamente o que me preenche. É imaterial. Entrego-me à sensação de ter sem estar. Parece loucura, mas, na verdade, é privilégio de poucos. O certo é que sou. Não importa onde ou como eu esteja. Sempre vou ser. E é essa certeza que não me deixa desistir. É essa convicção que me impulsiona e me faz entender cada respiração, cada solidão, cada aprendizado.

Não sei com quantas luas ainda vou estar. Com o passar dos anos, isso torna-se mero detalhe. Vale a certeza de saber que serei eternamente capaz de percebê-la e de perceber-me diante dela. E, da mesma forma, diante do mundo e seus meandros, das pessoas e suas complexidades, de mim mesma e minhas particularidades. É assim que o que me falta deixa de ter significado. É como se a forma de conduzir a busca fosse mais importante que o seu resultado. Na verdade, ela, a forma como buscamos algo, é o que determina aonde chegaremos. Ainda me falta um bocado, mas estou tranquila: acho que encontrei o caminho.