Fio de Ariadne: Fevereiro 2011

26 fevereiro 2011

Cuide-se

"Cuide-se bem,
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver,
De uma forma ou de outra,
É uma arte, como tudo."

Guilherme Arantes



Cuide-se. A vida vai exigir de você. Você vai viver muitas experiências. Nem todas vão lhe trazer boas lembranças. Nem todas vão ser fáceis de encarar. Por isso, eu digo: cuide-se. Você vai se apaixonar por muitas pessoas, encontrar gente que vai fazer-lhe pensar que é possível ser compreendido, que é mais fácil lutar quando há alguém segurando a sua mão. Deus colocará anjos no seu caminho nas horas exatas. Mas, você também vai encontrar gente de alma cinzenta e coração duro, pessoas cheias de peso, que carregam uma vida de mágoas e sentimentos parasitas. Você vai encontrar pessoas sem pontes. E, nessas horas, não se abale, cuide-se.

Vez ou outra você vai ter coisas difíceis a fazer. Respire fundo, confie na sabedoria Divina e faça. É preciso, faz parte do circo chamado vida. Coisas difíceis sempre existirão. Se tiver que fazê-las, vá em frente. Algumas pessoas tentarão convencer-lhe da sua incapacidade. Ignore. Confie em si mesmo e cuide-se.

Vão surgir sentimentos estranhos, dolorosos e agressivos. A mosca da vaidade vai zumbir em seu ouvido algumas vezes. Vão surgir oportunidades de fazer o mal. Vai haver momentos de revolta, vai haver acontecimentos tristes, dias de medo e insegurança. O corpo vai falhar de vez em quando. Pode ser difícil, mas não desista, não vacile, cuide-se.

As pessoas nem sempre corresponderão seus sentimentos. Às vezes, alguém que você ama muito vai decepciona-lo. As tentações materiais vão bater à sua porta e surgirão convites maliciosos. Você vai ouvir mentiras, vai acreditar em algumas e de vez em quando vai acabar contando alguma também. Pode não ser fácil, mas não corrompa-se, cuide-se.

A vida é um extenso teste de fé e caráter. Passe por ela com as melhores notas. Não deixe de vivê-la na intensidade. Não deixe de aprender com ela. Sobretudo, não deixe que os percalços do caminho impeçam-lhe de seguir e tirem de você o que carrega de mais precioso: a sua essência. Não tema. Tudo não passa de um teste que você pode vencer. Basta não se perder. Não permita que situações e pessoas tirem-lhe de si mesmo. Haja o que houver, seja firme, seja forte, relaxe a cabeça, reconheça e sinta o próprio coração. Cuide-se.

20 fevereiro 2011

Tempo

“Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou.” Legião Urbana


A música lembrava ele. A melodia fincava-lhe o coração sem sutileza. Trazia-lhe à mente o par de olhos que tanto admirava, o gosto e a textura daqueles lábios, a audácia daquela língua. Era quase como sentir de novo as mãos, o abraço, a temperatura. Era uma canção triste, de letra dolorida. Maltratava-lhe mais por dizer-lhe a verdade: tudo acabou. Lá estava ela novamente, solitária com seus pensamentos, enquanto ele, talvez, sequer lembrasse de tudo o que houvera. Ela, ainda que tentasse esquecer, recordava cada detalhe.

As coisas aconteceram de maneira inusitada. O encontro, o encanto, o desencontro, a entrega, a fuga. Como se algo tivesse misturado a cronologia dos fatos. Como se fosse a história certa no tempo errado. Agora ela sofria as consequências de sua falta de habilidade com o calendário. Em pensamento, pedia a Chronos, Deus do Tempo, uma chance de fazer diferente. Sabia que teria de esperar. Talvez uma retaliação pela ansiedade de outrora ou, o mais provável, uma oportunidade de aprender a graça da paciência e da serenidade.

O aparelho de som silenciou a música. Agora ouvia apenas seus pensamentos. Eles quase encontravam-se com os dele, que, do outro lado da cidade, lembravam o abraço dela, que esperava um dia ter novamente.

17 fevereiro 2011

“Hoje vai ser uma festa!”


Quando criei o blog (na verdade, reativei após alguns anos), em 17 de fevereiro de 2010, o fiz após um momento de libertação pessoal. Havia rompido com uma situação que me incomodava e, principalmente, que me afastava de mim mesma. Escrever sempre significou muito de mim. Sempre me arrisquei em textos, histórias e poemas. Desde a infância isso faz parte do meu “infinito particular”. Então, naquele momento, nada melhor para me trazer de volta a mim mesma do que fazer as pazes com a escrita e novamente fazê-la com motivação, disciplina e... um bom espaço!

O curioso é que apenas agora me dei conta de que a data coincide com meu aniversário de formatura. Exatamente no dia 17 de fevereiro de 2004 eu me tornava mais uma jornalista no mundo. Mais curioso é que novamente nesta data estou prestes a assumir um desafio profissional que aceito com a certeza de que, se Deus o colocou diante de mim, é porque me dará condições de vencê-lo.

Neste ano de blog, as linhas aqui escritas foram minha terapia. Participaram do meu amadurecimento, ajudaram-me a organizar pensamentos e sentimentos, dando a eles, se não linearidade, pelo menos algum sentido pessoal. Nesse período, sei que conquistei algumas pessoas, que também me conquistaram. Agradeço a todos que têm o carinho de vir sempre aqui para compartilharem das minhas ”filosofações”, viagens e maluquices.

Como em todo aniversário, não poderia deixar de presentear o aniversariante. Assim, apresento a vocês a nova roupa do Jornalisticamente Incorreto, que, espero, ainda se encha das minhas inspirações repentinas por muitos e muitos anos.

15 fevereiro 2011

Sombras


É uma sombra, uma foto amarelada. É uma tela inacabada que insiste em adornar minhas lembranças. É um sentimento interrompido, oprimido, reprimido. Uma dor sem comprimido. É um programa de TV popularesco, desses que repetem exaustivamente as imagens e clichês, crucificam os vilões, santificam os mocinhos. É uma fuga sem sucesso: sempre sou capturada.

É um jogo confuso, já perdido, mas insisto em jogar. Eu contra eu mesma. Nenhum adversário, a não ser minhas próprias recordações. Mexe com o coração, mas sobretudo queima fosfato. Quem explica?

É insônia, é algema, é fantasma. Quiçá apenas uma revolta escondida. Vez ou outra cutuca. E eu, tolinha, sempre me viro para dar ouvidos a ela.

08 fevereiro 2011

O que veste a alma

“Que se eu tiver que ficar nu, hei de envolver-me em pura poesia.” Vander Lee


Houve o tempo em que foi uma roupa nova, como muitas das que já teve. Uma roupa limpa, engomada, com cheiro de nova. Gostava dela. Achava-se bonita com ela. Admirava-se no espelho. Enchia o peito, erguia a cabeça sempre que estava dentro dela.

O tempo passou e a roupa deixou de ser nova. Perdeu o brilho, a goma, a beleza. E já não lhe cabia tão bem. Não havia mais prazer em sair vestindo-a, desfilando em frente ao espelho para a plateia de uma pessoa só. Já não tapava-lhe o frio, nem dava-lhe proteção. Transformou-se em apenas uma peça para cobrir-lhe o corpo.

Havia dias em que preferia a nudez. A liberdade de não ter nada escondido, de ser e estar ali, genuína e entregue a si própria, sem nada a apertar-lhe o corpo ou a condicionar-lhe as ideias. As vezes é preciso estar nu para entender o valor real da vestimenta e qual roupa nos veste melhor.

Ela estava nua. Era livre naquele instante e agora compreendia: a roupa nova e bem engomada de tempos atrás não era para ela. Ela, outrora, quis muito estar vestida, sentir-se bem, protegida por aquele corte de tecido. Precisou da nudez para entender que aquilo não era o bastante e que, mais que o corpo, aquela roupa deveria amparar-lhe a alma.

As pessoas, por vezes, escolhem roupas erradas ou ocasiões inapropriadas para usar uma veste. Rende algum desconforto, ainda que a percepção seja tardia, mas vale o aprendizado e a compreensão do que faz a moda de cada um.

Há uma roupa que, às vezes se esquece, mas nunca se despe: a essência individual. Foi assim que ela, a mulher da nossa história, esqueceu a velha roupa material, vestiu-se de si mesma e foi lá ser feliz.