Fio de Ariadne: O que não se apaga

15 janeiro 2011

O que não se apaga


Uma notícia aos desavisados: pessoas não são deletáveis. Pode-se fugir do contato, evitar os olhares e a risada, não trocar mais ideias, nem ouvir as mesmas músicas. As lembranças ficam, porém. Saltitam de um lado a outro da cachola, armazenadas em um HD onde botõezinhos de block, delete ou unfollow simplesmente não existem.

Pessoas invadem as vidas umas das outras sem pudores, mas nem sempre entendem que, se algo não sair bem no caminho, as coisas não se resolvem com um clique. Quando nos damos conta, figuras tão importantes em determinado momento de nossas vidas foram parar na lixeira do computador. É, então, que vem a pergunta: em quantas e em quais lixeiras estamos? A revolução tecnológica trouxe facilidades, mas também a ilusão de que é possível informatizar o não-informatizável: as relações.

Nenhum twitie, sms, e-mail, msn ou afim é capaz de substituir o olho no olho, a pupila dilatada, a respiração acelerada, o coração batendo. Nada substitui as desculpas cara a cara, o abraço, o toque, o som de uma boa e velha gargalhada seguida e um olhar de cumplicidade. É isso que torna as pessoas não deletáveis. É isso que as fazem eternas na lembrança.

A vida nos distancia de muita gente. Isso nem sempre é ruim. Muitas vezes, a distância é natural e necessária. Isso significa que aquela pessoa já nos ensinou o que precisava ensinar. E vice-versa. Seguir por caminhos diferentes de alguém que nos faz mal é saudável. Maravilha: podemos escolher! Afastamentos são absolutamente normais. O que não é normal é achar que um botão resolve tudo.

Coleciono e continuarei colecionando pessoas. Eu não deleto ninguém da minha vida. E você?

6 comentários :

Ana disse...

Eu tb não deleto ninguém. Mas, às vezes, é mais prático para alguns, deletar as pessoas quando o outro quer fugir de alguma verdade. Lamentável para quem faz isso. Porque apaga do convívio, mas tenho certeza de que lá na cabecinha, volta e meia a lembrança volta e, provavelmente, acompanhada da culpa.

Carol Jardim disse...

Quase chorei aqui agora...rs...Seus textos me emocionam, a forma sensível como você expoe suas revoltas. As vezes parece que você lê a minha mente, aí tá a sua facilidade de comunicar com o leitor. Estava pensando justamente nisso esta manha, enquanto aceitava em um clique a "amizade" de algumas pessoas no facebook, amigos dos quais eu provavelmente nunca verei. Lembrei-me dos nossos almoços corridos e como sou feliz por cultivar e fortalecer relaçoes olho no olho. Desculpe-me a falta de acentos. Nao sei como fazê-los nesse teclado espanhol. Adoro você e saudades!

Lígia disse...

Às vezes eu deleto as pessoas sem perceber... mas elas ficam lá na lixeira e vez ou outra voltam para me dizer que existem. Mas a maioria das minhas pessoas só existem na minha imaginação... E eu tenho tantas pessoas quantas eu sou...

Talita Cruz disse...

"Seguir por caminhos diferentes de alguém que nos faz mal é saudável".
Foi isso que eu fiz há um tempo, mas essa amizade foi tão importante para mim que jamais eu deletaria ela da minha vida. Pessoas vão, mas as lembranças ficam.
OBS: Amei o texto sobre o Ícaro, se tornou um dos meus favoritos. Não tive nem palavras para comentar...

Ariadne Lima disse...

Meninas! Pessoas vão e vêm... Normal. Só não acho que essas idas e vindas se resumam a botões de adicionar, bloquear, excluir. Relacionamento é muito mais que isso. Obrigada pelas visitas! Beijos!

Jordana Flávia disse...

Engraçado, por muito tempo achei que eu não deletava as pessoas porque era apegada. Pensava que tinha que trabalhar isso dentro de mim... Mas pensando bem, lendo seu texto, concordo plenamente, apagar pra que se elas, de alguma forma, continuarão pairando em nossas lembranças?