Fio de Ariadne: Ícaro sem asas

05 janeiro 2011

Ícaro sem asas



- Você não gosta de voar, Ícaro? Então vem! - dizia sorrindo e saía rodopiando, braços suspensos, até o meio do salão.

Eu gostava de vê-la dançar. Parecia mesmo um pássaro, leve e doce em seu vestido lilás esvoaçante. Gargalhava de longe, debochando da minha timidez, sem entender que eu a observava em silêncio parte por acanhamento, parte por pura admiração. Ela parecia livre e indiferente às mazelas da vida. Eu tinha inveja disso. Eu queria ser assim. Sabia que não era capaz de enxergar a vida com a mesma naturalidade que ela e isso me tornava impotente. Incapaz, inclusive, de fazê-la feliz.

A forma como passava por cima dos problemas e, até mesmo, das desfeitas que eu por muitas vezes lhe fazia, beirava a inocência. Mas sei que, na realidade, ela conhecia perfeitamente minhas tolices e deficiências. Sabia o quão frágil eu sou diante dos meus próprios sentimentos. Conhecia cada um dos meus medos e sabia da minha inércia. Nem dança, nem vôo, nem atitudes. Eu não era capaz de nada. Contraditório, de fato, se compararmos à história de meu xará, Ícaro, filho de Dédalo, da Grécia Antiga, que arriscou a vida pelo sonho de voar, pelo desejo da liberdade.

Sou um Ícaro sem asas. Um Ícaro que sequer tenta voar. Por um lado, estou preso a uma bola de ferro chamada passado, escravo de meus próprios fracassos. Por outro, me amarro a um futuro que, embora longínquo, está perfeitamente desenhado na minha cabeça. Ela não. Ela veste-se de coragem e vai embora. “Seja o que Deus quiser!” É dona de uma fé que em mim morreu faz tempo, se é que um dia chegou a existir.

Sei que ela me quis. E quis intensamente, como tudo na vida. Talvez ainda sinta algo, mas, não bastasse o que faço a mim mesmo, fiz a ela o mal de machucar-lhe as asas. Não foi por crueldade. Eu também a queria. E talvez por querê-la e admirá-la tanto, mais uma vez, sucumbi ao medo. Enterrei-me no submundo que criei. Eu não saberia voar junto dela. Ela teria que fincar os pés na terra, junto comigo, nessa vida sem graça que me dei. Não seria justo.

Hoje entendo que ela quis me resgatar. Ela desejou ardentemente salvar-me de mim mesmo. Esforçou-se. Foi paciente, estendeu-me a mão incontáveis vezes. E eu nem sempre estendi a minha de volta. Acho que é justo estar onde estou. No íntimo, sei que só eu mesmo posso me libertar. A dúvida que me incomoda é se mereço, de fato, essa libertação. Além da certeza, preciso de coragem. E coragem não se faz da noite para o dia. Acho que ela me ensinou uma parte. Resta-me tentar sozinho agora. Enquanto isso, continuo vendo-a dançar, livre como um pássaro. Bonita. Feliz. Quem sabe, se eu criar asas à tempo, consiga alcançá-la? Ainda posso honrar meu nome e, como o Ícaro da Grécia, aprender a voar.

7 comentários :

Ana disse...

Ei, Di!

Chorei com o texto. Lindo, lindo. Me enxerguei nele, acredita? Maravilhoso.

Ariadne Lima disse...

É, amiga. Eu acredito. :) Que bom que gostou! Bjos!

Jose Ramon Santana Vazquez disse...

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


COMPARTIENDO ILUSION


CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...




ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE ALBATROS GLADIATOR, ACEBO CUMBRES BORRASCOSAS, ENEMIGO A LAS PUERTAS, CACHORRO, FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER Y CHOCOLATE.

José
Ramón...

Carol Jardim disse...

Que delícia de poesia minha filósofa predileta. Fiquei com vontade de voar :)

Jon disse...

Phodasso! :) Gradei pakas!

Baz disse...

PHodasso! :) Acho duca!

Parabéns, lindão!

Jana disse...

Você devia pensar em publicar seus textos, Di. De verdade. São uma delícia de ler...