Fio de Ariadne: Janeiro 2011

18 janeiro 2011

(Re)encontros e despedidas

"Nosso sonho se perdeu no fio da vida. E eu vou embora, sem mais feridas, sem despedidas, eu quero ver o mar..."

Vanessa da Mata



Ela queria um pouco de paz. Mais que querer: ela precisava. E era do tipo de paz que só a natureza pode oferecer. Os sons, aromas, texturas e temperaturas da natureza que parecem compilar as maravilhas do mundo. Caixinha com os guardados de Deus. Só a natureza para ajustar o que em nós é desequilíbrio. Chega um momento em que apenas o contato com essa representação pura de Deus pode nos restaurar.

É por isso que ela foi para longe. Sobrevoou a cidade como se estivesse sobrevoando a própria vida. Olhou para baixo como se soubesse que, quando voltasse, seria outra pessoa. Ou melhor: voltaria a si mesma. Viagens sempre foram encontros interiores. Às vezes, é preciso livrar-se dessa roupa chamada rotina para lembrarmos o que há por baixo dela. Viagens nos deixam nus. Uma nudez abençoada. A nudez da leveza, da coragem de desbravar novos mundos e conhecer novas pessoas. Quase sempre conhecer mais de si mesmo.

Ela foi ver o mar. E poucas coisas na vida a fazem sentir-se tão bem quanto a brisa da praia no rosto, o toque dos pés na areia. Precisava disso. Corpo e mente exaustos, coração dolorido. Todos sussurrando pelo equilíbrio, o descarrego, a paz.

Ela foi para longe. Não seria para sempre. Alguns dias seriam suficientes. Tudo o que ela queria era curar-se. De si, dos outros. E lembrar que é possível e delicioso renascer a cada dia, sem complexidades. Com as mesmas simplicidade e beleza com as quais o sol nasce diariamente sobre o mar.

PS: Estarei fora de casa por uns dias. Talvez poste menos durante esse período, mas acreditem: meu corpo, minha alma e minha inspiração agradecerão. Espero que vocês também. :)

15 janeiro 2011

O que não se apaga


Uma notícia aos desavisados: pessoas não são deletáveis. Pode-se fugir do contato, evitar os olhares e a risada, não trocar mais ideias, nem ouvir as mesmas músicas. As lembranças ficam, porém. Saltitam de um lado a outro da cachola, armazenadas em um HD onde botõezinhos de block, delete ou unfollow simplesmente não existem.

Pessoas invadem as vidas umas das outras sem pudores, mas nem sempre entendem que, se algo não sair bem no caminho, as coisas não se resolvem com um clique. Quando nos damos conta, figuras tão importantes em determinado momento de nossas vidas foram parar na lixeira do computador. É, então, que vem a pergunta: em quantas e em quais lixeiras estamos? A revolução tecnológica trouxe facilidades, mas também a ilusão de que é possível informatizar o não-informatizável: as relações.

Nenhum twitie, sms, e-mail, msn ou afim é capaz de substituir o olho no olho, a pupila dilatada, a respiração acelerada, o coração batendo. Nada substitui as desculpas cara a cara, o abraço, o toque, o som de uma boa e velha gargalhada seguida e um olhar de cumplicidade. É isso que torna as pessoas não deletáveis. É isso que as fazem eternas na lembrança.

A vida nos distancia de muita gente. Isso nem sempre é ruim. Muitas vezes, a distância é natural e necessária. Isso significa que aquela pessoa já nos ensinou o que precisava ensinar. E vice-versa. Seguir por caminhos diferentes de alguém que nos faz mal é saudável. Maravilha: podemos escolher! Afastamentos são absolutamente normais. O que não é normal é achar que um botão resolve tudo.

Coleciono e continuarei colecionando pessoas. Eu não deleto ninguém da minha vida. E você?

05 janeiro 2011

Ícaro sem asas



- Você não gosta de voar, Ícaro? Então vem! - dizia sorrindo e saía rodopiando, braços suspensos, até o meio do salão.

Eu gostava de vê-la dançar. Parecia mesmo um pássaro, leve e doce em seu vestido lilás esvoaçante. Gargalhava de longe, debochando da minha timidez, sem entender que eu a observava em silêncio parte por acanhamento, parte por pura admiração. Ela parecia livre e indiferente às mazelas da vida. Eu tinha inveja disso. Eu queria ser assim. Sabia que não era capaz de enxergar a vida com a mesma naturalidade que ela e isso me tornava impotente. Incapaz, inclusive, de fazê-la feliz.

A forma como passava por cima dos problemas e, até mesmo, das desfeitas que eu por muitas vezes lhe fazia, beirava a inocência. Mas sei que, na realidade, ela conhecia perfeitamente minhas tolices e deficiências. Sabia o quão frágil eu sou diante dos meus próprios sentimentos. Conhecia cada um dos meus medos e sabia da minha inércia. Nem dança, nem vôo, nem atitudes. Eu não era capaz de nada. Contraditório, de fato, se compararmos à história de meu xará, Ícaro, filho de Dédalo, da Grécia Antiga, que arriscou a vida pelo sonho de voar, pelo desejo da liberdade.

Sou um Ícaro sem asas. Um Ícaro que sequer tenta voar. Por um lado, estou preso a uma bola de ferro chamada passado, escravo de meus próprios fracassos. Por outro, me amarro a um futuro que, embora longínquo, está perfeitamente desenhado na minha cabeça. Ela não. Ela veste-se de coragem e vai embora. “Seja o que Deus quiser!” É dona de uma fé que em mim morreu faz tempo, se é que um dia chegou a existir.

Sei que ela me quis. E quis intensamente, como tudo na vida. Talvez ainda sinta algo, mas, não bastasse o que faço a mim mesmo, fiz a ela o mal de machucar-lhe as asas. Não foi por crueldade. Eu também a queria. E talvez por querê-la e admirá-la tanto, mais uma vez, sucumbi ao medo. Enterrei-me no submundo que criei. Eu não saberia voar junto dela. Ela teria que fincar os pés na terra, junto comigo, nessa vida sem graça que me dei. Não seria justo.

Hoje entendo que ela quis me resgatar. Ela desejou ardentemente salvar-me de mim mesmo. Esforçou-se. Foi paciente, estendeu-me a mão incontáveis vezes. E eu nem sempre estendi a minha de volta. Acho que é justo estar onde estou. No íntimo, sei que só eu mesmo posso me libertar. A dúvida que me incomoda é se mereço, de fato, essa libertação. Além da certeza, preciso de coragem. E coragem não se faz da noite para o dia. Acho que ela me ensinou uma parte. Resta-me tentar sozinho agora. Enquanto isso, continuo vendo-a dançar, livre como um pássaro. Bonita. Feliz. Quem sabe, se eu criar asas à tempo, consiga alcançá-la? Ainda posso honrar meu nome e, como o Ícaro da Grécia, aprender a voar.

01 janeiro 2011

A aura da esperança

"Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade



É como um parto. Um nascimento esperado pelo mundo. As contrações expressas pela contagem regressiva. 10, 9, 8, 7 ... Até que explode no céu o choro de quem acaba de nascer. E, exatamente ali, naquele instante que sucede o um, uma multidão se une em esperanças, em desejos de dias melhores e sonhos concretizados. Um instante de abraços trocados, espumantes estourados, telefonemas recebidos, taças que tilintam, pensamentos que se elevam.

O país toma-se de magia rara, energia poderosa que só a união de muitas esperanças é capaz de produzir. Ali, no primeiro minuto de vida da criança tão esperada, todos elevam-se ao mesmo patamar. Não há ricos ou pobres, analfabetos ou letrados, feios ou belos. Há uma aura única, mágica e emocionante, que chama o olhar e o pensamento ao céu para dizer: este ano vai ser diferente.

E será mesmo. Porque é novo. Porque é todo seu. É todo nosso. Ninguém usou. Podemos, sim, fazê-lo diferente e melhor, a partir dessa atmosfera que nos une em boas energias. É por isso que me agrada tanto o ano novo. Não apenas pela troca de um número, mas pela renovação de sonhos, compromissos, vontades e, naturalmente, de pessoas.