Fio de Ariadne: 2011

30 dezembro 2011

Um olhar para o que passou (antes de seguir em frente)



Quem leu minha retrospectiva 2010, sabe que meu ano passado foi de amadurecimento, auto-conhecimento, leveza. Escolhi para representá-lo e representar meu desejo para 2011 a música de Marisa Monte, Gerânio, na qual meu trecho preferido diz: despreocupa-se e pensa no essencial. Combinou bem com 2010 e, embora este fosse meu mantra em 2011, não casou bem com o ano. Em 2011, tudo o que eu fiz foi me preocupar. Não que 2011 tenha sido um ano ruim, mas foi um ano tenso, cheio de desafios e, em razão deles, de preocupações.

Comecei o ano com um desafio profissional (que acabaria sendo pessoal também). Aceitei sem muitas alternativas e cheia de receios. Segui, certa de que Deus me levaria adiante, dando-me talentos e habilidades que talvez eu mesma desconhecesse. Foi o que aconteceu. Aliás, Deus foi meu grande parceiro em 2011, mostrando-me caminhos, dando-me guarita e forças que eu nem imaginava ter.

A foto no alto do post é registro de um dos grandes e poucos momentos de leveza em 2011: minha viagem aos Lençóis Maranhenses. Natureza, interiorização e boas energias!

Em 2011, eu não me apaixonei, eu não me joguei, não curti festas, não vivi grandes histórias pessoais. Foi um ano de trabalho duro, cansaço e muito aprendizado. Vale dizer que, em meio a tudo, o contato com a espiritualidade se estreitou, me fortalecendo e orientando por todos os caminhos. Todo ensinamento foi útil e sei que muitos deles eu compreenderei e aplicarei no futuro. Deus já havia me preparado para 2011 com antecedência e sei que tudo o que vivi este ano, em algum momento, tornará alguma situação da minha vida bem mais fácil de enfrentar.

Coisas que aprendi ou das quais me certifiquei em 2011

Sobre as pessoas:

  • Por mais duro que alguém aparente ser, ele guarda um pouco de bondade e fragilidade dentro de si. É bom aprender a ver e explorar isso.

  • Por mais tranquilo, doce ou até bobo que alguém aparente ser, ele guarda uma mente pipocante de pensamentos que podem não ser tão tranquilos, doces ou bobos assim. Em algum momento, isso deixa ser pensamento e vira ação. Abusar dessas pessoas ou colocar a mão no fogo por elas podem não ser as melhores opções.

  • Por mais que você considere e confie em um amigo, há grandes chances dele te chatear ou decepcionar algum dia. É preciso sabedoria para balancear as pisadas de bola e o valor de cada amizade.

  • Arrogância normalmente responde-se com doçura e educação. É contagiante.

  • As pessoas confundem bondade, boa-vontade e flexibilidade com tolice. É da natureza humana. Difícil mudar.

  • Algumas pessoas costumam transferir complexos e frustrações pessoais para você e, por isso, acabam te atribuindo preconceitos ou pensamentos que você não tem.

  • É bom dizer não de vez em quando. É didático pra quem ouve e faz bem para o seu coração. Ainda que, inicialmente doloroso, muitas vezes é o marco necessário para a conquista do respeito de alguém.

  • Não gosto de desistir das pessoas, mas, às vezes, elas é que desistem de si mesmas. Quem desiste de si mesmo desiste de tudo, inclusive dos outros.

  • Por mais e bons amigos que você tenha, nenhum vai ser tão fiel quanto a sua família.

  • Cada um no seu tempo. Sempre.


  • Sobre mim mesma


  • Eu não tenho controle absoluto do universo. Por mais que eu me esforce, em algum momento, as coisas vão falhar e eu não tenho que me culpar por isso.

  • Eu tenho forças para fazer muito. Basta comprar a ideia.

  • Eu sou humana e também posso errar. O mundo não vai acabar por isso.

  • Eu enxergo o interior das pessoas. Às vezes, isso falha; às vezes, me mostra coisas tristes, às vezes, me dá panoramas belíssimos, mas eu não preciso contar para o mundo tudo o que vejo.


  • Sobre Deus

  • Deus te prepara nos detalhes. Um dia você descobre em quais e porquê.

  • Deus também te ajuda nos detalhes. E eles fazem toda a diferença.

  • Deus fala com você o tempo inteiro. Você só precisa identificar e traduzir o recado.

  • Deus vai repetindo os ensinamentos de maneiras diferentes até que você entenda. Procure entender o quanto antes. Acredite: vai ser melhor assim.


  • Sobre a vida

  • A convivência traz ciladas aos relacionamentos. É preciso estar atento para não cair nelas.

  • Como diria o grande Che, devemos ser duros sem perder a ternura. Defender seus pontos de vista não significa gritá-los.

  • Amizade é vida e, como qualquer vida, precisa ser cuidada.

  • A vida inteira vão tentar te empurrar rótulos, caminhos padrão e mapas da mina. Conheça sua essência e siga seu coração. Esta é a única receita que funciona.


  • Por essas e outras descobertas, o ano valeu. Em meio ao cansaço, consegui ainda encontrar pequenos grandes momentos com família e amigos, comigo mesma e com Deus. São coisas que não têm preço.

    Desta vez, não vou fazer grandes planos para o ano seguinte, nem vou escolher uma música para representá-lo. Tenho quem faça e execute esses planos pra mim, com uma sabedoria que eu nunca conseguiria alcançar. Esperanças de muitos dias felizes eu tenho. Tudo o que eu espero de 2012 é um ano mais leve. A música estou pronta para dançar. Que Deus aperte o play!

    22 novembro 2011

    Senhora Perfeita


    Você sempre foi a aluna perfeita. Desde criança, desde sempre. Como boa aluna, você logo aprendeu que deveria honrar pai e mãe e... bingo! Você já era a filha perfeita. Os anos se passaram e a coleção só cresceu: a amiga perfeita, a namorada perfeita, a profissional perfeita. A pessoa perfeita! Você se habituou a isso, comprou a ideia e, entusiastas da sua perfeição, as pessoas ao seu redor, assinaram embaixo.

    Pronto. Estava lavrado em cartório: você é perfeita e não pode falhar. A partir dali, nem você, nem ninguém, lhe deu permissão para ser gente. Carne, osso, dias de mau humor e algumas cagadas. Contar uma mentirinha? De jeito nenhum! Cobiçar o vestido da amiga? Você não precisa disso! Colar na escola, enrolar no trabalho, responder a professora, acordar estressada, olhar pra outro cara? Nem pensar! Deixar de abrir mão das suas vontades, ir ao cinema numa segunda à tarde, dizer não de vez em quando, ficar sozinha em casa num sábado à noite ou quem sabe cair na balada com a roupa (e a vergonha) mais curtas que você tiver? Não, não e não. Essa não é você. Você é a Senhora Perfeita, se já se esqueceu.

    Pessoas perfeitas só ganham esse honroso posto se souberem ser, sobretudo, perfeitas para as outras pessoas. Você não pode exigir nada, não pode querer nada. Pessoas perfeitas apenas se doam. Elas não merecem nada em troca. Estão sempre prontas para quebrar o galho com um sorriso de propaganda de creme dental. Nunca precisam de nada: de um colo, de uma força, de um pouquinho de tolerância. Elas não podem se deixar levar pela lua ou pelas conjunções astrais. Elas têm hormônios em perfeita sintonia. Pensamentos em perfeita sintonia. Todos os chackras em ordem. São incansáveis. Não têm carências, não têm medos, estão sempre de saco vazio, sacam de tudo, não erram. São perfeitas!

    Você questiona. Você sabe que não é perfeita, nem tem o menor apego ao título, mas foi assim que você aprendeu. Foi isso que lhe fizeram acreditar a vida inteira. E talvez tenha sido isso que tenham acreditado a vida toda também. Você nunca pôde escolher “não ser perfeita”. É, então, que você senta e espera que alguém perceba suas imperfeições e as aceite como algo absolutamente humano ou então arrisca, liga aquele famoso botão do “to nem aí” e deixa o tempo mostrar a todos que a verdadeira perfeição está na sábia decisão de Deus de nos fazer todos imperfeitos para um dia, quem sabe, entendermos alguma coisa da vida.

    05 novembro 2011

    Colo


    Vem, Clarice! Pousa a cabeça aqui no meu colo. Conheço bem esses olhos inquietos. Sei que tem alguma coisa doendo aí dentro. Não precisa falar nada. Apenas deita aqui e me deixa passar as mãos nos seus cabelos. Faz de conta que elas têm o dom de organizar seus pensamentos. Chora. Pode chorar alto ou baixinho. Eu não ligo e vou fingir que não estou vendo. Tudo bem? A gente fica assim, eu cuidando de você e você esquecendo do mundo, o tempo que for necessário.

    Aos poucos vou entendendo tudo. Como se meu corpo fosse capaz de ler as suas mágoas, como se o seu desabafo viesse por meio da pele, do contato. Tem algumas coisas cozinhando aí dentro, não é, Clarice? Deixa sair o vapor. Quanto mais fechado a gente fica, mais as coisas fazem pressão dentro da gente. Uma hora a gente enfraquece e explode. Dá pra ser forte sem deixar de ser humano. Também dá pra ser leve, sem deixar fazer o que precisa ser feito. É uma questão de equilíbrio.

    Às vezes falta um colinho, como este de agora. Há dias em que a gente quer um sorriso e esse sorriso não vem. Às vezes, a gente se dá e não recebe nada em troca. Pessoas e situações nos decepcionam. É normal, Clarice. O que não pode é a gente deixar essas coisas ganharem mais importância do que merecem. O que não pode é deixarmos as chateações nos impedirem de vermos as bençãos da vida, de enxergarmos a nós mesmos.

    Parte das suas lágrimas é saudades de si mesma. Que tal marcar um encontro com o espelho? Há coisas que só podemos fazer sozinhos. Mergulhar dentro de si, fazer uma faxina, até se achar novamente, limpa e inteira. Sem pressões, sem decepções, sem lágrimas. Meu colo apenas para matar a saudade.

    16 outubro 2011

    Talvez você precise saber


    Sou uma mulher de hábitos simples. Gosto de cheiro de chuva. Gosto de hambúrguer às segundas-feiras. Gosto de sentar no meio-fio. Adoro parque de diversões, pipoca de carrinho, algodão doce. Costumo passar os domingos em casa, de pijama. Gosto de sol, de natureza. Sofisticações não são para mim. Agacho para brincar com as crianças. Aposto corrida na piscina. E perco. Faço careta para tirar foto. Realizo-me nas feiras populares: das bijus baratas ao tropeirão na hora da fome. Gosto de andar descalça. Faço miojo com molho pronto e até que sou boa dona de casa. Minha bebida preferida é água e dificilmente troco o feijão com arroz, bife e batata frita. Canto no chuveiro. Adoro pão com mortadela. Faço prato de peão no self-service. Vou às compras de havaianas. Eu mesma faço as minhas unhas (sem tirar bife!). Ando de ônibus. E saio à pé, quando quero ser saudável. Não costumo comprar roupas de marca (a não ser quando o custo-benefício faz por onde). Vinhos baratos me divertem. Nunca escolho um cara pelo modelo do carro ou pela conta bancária. Falo sozinha. Dou faxina na casa ouvindo música. Não vou a restaurantes requintados. Não como comida japonesa. Amo coxinha e pastel de milho. Tiro o sapato na mesa de trabalho, quando ninguém está olhando. Dou risada sozinha na rua e acho graça das pessoas se levarem tão à sério.

    Se mesmo depois de saber tudo isso você ainda quiser me conhecer melhor, muito prazer: também tenho um lado lady pra te mostrar.

    Para mim, ser elegante é ser livre. Quer experimentar?

    12 outubro 2011

    Carta ao Tempo


    Ei, senhor Tempo!

    Sei bem o quão rápido o senhor tem passado, não quero ser injusta, mas será que dá pra andar um pouquinho mais depressa? Espero tanto por um novo ano, uma nova vida, novas perspectivas. Não que as coisas estejam exatamente ruins. É que às vezes a gente precisa se remodelar, recolorir a vida, com outras tintas, outros pincéis, só pra ter a mesma vontade e o mesmo talento de pintar até o fim.

    Eu sei – e você me conhece muito bem, sabe que eu sei mesmo - que boas novas estão por vir. E então ficamos eu e o tictac do relógio numa relação maluca de gato e rato. Estive presa, pesada, onde eu deveria estar, é certo, mas em algum lugar que não era, por essência, o meu. Ok, senhor Tempo, eu sei: o senhor coloca cada um onde deve estar. Mas nem sempre onde cada um deve estar é onde ele se sente mais à vontade. Foi isso que eu quis dizer.

    O senhor ensina tudo, tem as suas medidas exatas, do tamanho da nossa necessidade de amadurecimento. Convenhamos, no entanto, que às vezes é bem chato esperar sua medida passar. Acho que este ciclo está chegando ao fim, não é mesmo? Então, por favor, se der, faz uma forcinha: passa um tiquinho mais rápido que eu não vejo a hora de ser leve de novo.

    Prometo ser uma boa menina sempre que o senhor me pedir pra esperar. Combinado assim?

    Abraços tempestivos (não resisti ao trocadilho),

    Alice ;)

    18 setembro 2011

    Boas vibrações



    Eu posso sentir as vibrações. Perfume de boas energias, bons pensamentos. São muitas orações, palavras de carinho e desejos de bem. Eles chegam a mim. São pessoas queridas que querem, sinceramente, a minha felicidade. Talvez nem saibam que elas também estão nas minhas preces. Fazem porque querem bem. Sem sentimentos de troca. Minha felicidade é a felicidade deles. E vice-versa.

    Há algo novo se aproximando. Para mim e para muitos. E esse desejo de paz, essa oração quase em uníssono, torna a transição mais tranquila e proveitosa. Passamos por muitos ciclos na vida e, sem dúvida, muitos outros virão. Faz parte do nosso aprendizado. Estar aqui, neste mundo aparentemente maluco, tem que significar alguma coisa.

    Encarar a espera não é fácil mas é, sem dúvida, uma das maiores bençãos da vida. Enquanto esperamos, amadurecemos. Sempre há algo a ser aprendido ou compreendido na espera. Tempo é benção. Toda espera tem utilidade. Sempre há algo a se tirar dela.

    Algumas vezes tive que esperar. Em todas, aprendi algo precioso e minha paciência sempre foi recompensada. Mais uma vez, há algum tempo eu espero. Há um bom tempo eu espero. Sinto que essa espera está chegando ao fim. Neste momento, a espera é ainda mais inquietante. Meu desafio agora é não deixar que a ansiedade tome conta de mim. Serenidade é o que eu persigo. E consigo. Sempre consegui.

    Para tornar tudo mais fácil, tenho eles e suas orações. Tenho o abraço. E a energia de quem, mesmo de longe, me diz: calma! Vai dar tudo certo.

    07 setembro 2011

    Sobre aprendizados e receitas


    É, Alice... Já faz quase um ano. Os dias passam rápido. Bem mais rápido, aliás, que as nossas dores. O bom da vida é que, no fim das contas, elas também acabam passando. Nem parece que um ano atrás você vivia e sentia aquilo tudo, daquele jeito, com aquela intensidade. O tempo passa e com ele passa um pouco da gente. Mudamos. E aí está você, bem diferente do que era há alguns meses. Não que você não seja mais você. Você tem sido mais Alice a cada dia. E isso te garante autonomia para absorver o positivo das transformações da vida.

    Hoje você sabe que aquela vivência mais fez mal do que bem. Hoje a balança funciona. E não é curioso que seja quando você não precisa mais dela. Naquela época você precisava não tê-la. Parece maluco, mas não é. A vida nem sempre faz sentido.

    Hoje você lembra as palavras e as acha frias, vazias, com o peso do “não ter o que dizer”. Faltou recheio naquele bolo. E, sabe, Alice, é muito triste viver sem recheios. Esqueça as receitas erradas, os ingredientes em falta. Pegue os que você tem em mãos e faça algo, se não saboroso, ao menos divertido. Você era leve demais para aquela massa. Continue experimentando e experimentando-se. Assim você compreende que errar a mão também faz parte da construção de um grande mestre cuca. Delícia viver.

    Bon appétit!

    27 agosto 2011

    Película


    Rua da Bahia. Hora do rush. Desço à pé, como há muito tempo não fazia. O cenário ganha cores nunca vistas. É um filme gravado em película, quase em câmera lenta. Meus olhos são câmeras múltiplas, rápidas, perspicazes. A luz rósea do entardecer mistura-se aos faróis dos muitos carros que ouço buzinarem na descida para o Centro. Eles têm pressa. Eu, àquela altura, já não tinha nenhuma. Os olhos seguiam, enquadrando tudo, fotografando todos.

    Uma senhora pedinte, sentada à porta da Igreja de Lourdes, era parte permanente do cenário. Ninguém mais a via. O carrinho de pipoca atraía os olhares infantis. Mãozinhas espertas puxavam as dos pais, chamando o olhar para baixo, como a pedir uma parada. Ternos sisudos subiam a rua, carregando o cansaço das reuniões do dia. Ipods e similares faziam trilha sonora para passos apressados. Mesas à porta dos bares reuniam copos e gargalhadas. Cabelos roxos e vermelhos moviam-se entre braços tatuados e gesticulantes, querendo chamar a atenção do mundo. Motoristas engoliam as faixas de pedestres e, com elas, qualquer resquício de gentileza urbana.

    Aos poucos, o fluxo seguia. De gente, de carros e da vida. Ela nunca esperou o engarrafamento passar para ir em frente.

    20 agosto 2011

    “Amor que nunca morre”


    Quintana andou dizendo que “a amizade é um amor que nunca morre”. Adoro essa frase, mas, por algum tempo, tive minhas dúvidas. Achei que morresse, sim. Foi então que descobri, que, se morre, a justificativa é muito simples: não era amizade. Sábio Quintana! O que morre é aquela tal ilusão, uma relação cheia de interesses e de mão única. Não era amizade!

    Estive pensando que os amigos nos conquistam, como qualquer paixão arrebatadora faz. É um relacionamento de cumplicidade, presença, prazer em estar com o outro, dividir pensamentos e experiências. Quando ganhamos um novo amigo, nos apaixonamos por ele. Gostamos de estar com ele, das risadas que damos juntos, dos micos que pagamos, dos desabafos, das conversas “cabeça”, dos olhares cúmplices, dos códigos e piadas que só o outro entende. Um amor verdadeiro e desinteressado e que, sendo real, nunca morre.

    Como de qualquer relacionamento, da amizade, espera-se o mínimo de reciprocidade. Rima óbvia, não? Não para algumas pessoas. A amizade é um sentimento vivo, precisa de cuidados para não morrer de inanição. Há muitos maus cuidadores da amizade. Que a transformam em uma máquina qualquer, que só funciona enquanto tem algo de artificial para sustentá-la. Deixa, então, de ser amizade. Hora ou outra, a tal bateria acaba. É a paixão que nunca passa a amor. Aquilo que podia ser, mas acabou nunca sendo. Morre. E, aí meus caros, fica difícil fazê-la voltar a viver. É como um namoro acabado, depois de cair na mesmice. Não há confiança, não há mais tesão, não há mais a menor motivação para largar tudo e ir socorrer o outro. Era um quase amor. Platônico. Não correspondido. E aí não tem jeito: morre mesmo.

    17 agosto 2011

    De repente 30


    Foi assim: um dia desses qualquer, eu, boa soneca que sou, dormi e acordei com 30. Nada previamente marcado, nada instituído, formalizado, lavrado em cartório. De repente, 30. Importante dizer que o processo, que é o que realmente interessa, havia começado faz tempo. O que vem de repente é a consciência dos 30. Quase uma metonímia da vida. Tomamos objeto pelo conteúdo. Os 30, conteúdo, vão sendo feitos um tempo antes, como uma receita preparada com muito cuidado, com ingredientes indispensáveis, que vão sendo misturados e medidos ao longo dos meses.

    Quando acordei com 30, estava apenas me dando conta do que eu já era. Uma balzaquiana, das boas (no melhor dos sentidos), daquelas que Balzac descreveu com uma sabedoria que poucos homens já tiveram ao enxergar uma mulher. A consciência dos 30 é exatamente o grande trunfo da balzaquiana, a de Balzac e a brazuca. 30 é 30 em qualquer lugar.

    Saber-se, entender-se e gostar-se com 30 é a peça chave e conclusiva de tudo. Fazer trinta é um processo. Estar com 30 é uma constatação. Praticamente um atestado de segurança, auto-estima, leveza. Nos 30, temos certeza de quem somos e do que queremos. Sabemos o que nos incomoda, o que abominamos e aquelas coisas (e pessoas) da vida às quais aceitamos dar uma segunda chance. A grande sacada dos 30 é exatamente saber que, embora já tenhamos vivido um bocado, é possível uma nova chance. Se não uma nova chance, um novo caminho, um novo lugar, um novo jeito de mostrar-se ao mundo.

    Os anos não pesam mais. Não pesam as mesmas coisas que pesavam antes. Pesam menos as críticas, as palavras, as chatices. Porque, quem constrói bem os 30, aprende o real peso das coisas e o verdadeiro valor da vida.

    Há algum tempo eu construía os 30. Hoje tenho 30, prontíssimos, com convicção, orgulho, tranqüilidade. Alguns fios brancos? Que me importa!? Nada que um belo sorriso no rosto não consiga disfarçar.

    26 junho 2011

    Ao som de passado


    Acordei e coloquei aquele CD para tocar. Sem mais pretensões. Juro. Talvez, caro leitor, você diga: “Não disfarce, Clarice, já te conheço.” Alguns textos depois, tenho que admitir: conhece como poucos. Mas desta vez preciso apresentar-lhe um lado que desconhece: nas minhas filosofações, quase nunca faço algo de propósito. Coloquei lá o tal CD, sim, mas sem um motivo específico. Coloquei por colocar, vontade de ouvir, cantar e viajar ao som das músicas que embalaram parte da minha vida. O que não lembrei, na escolha do CD, é de qual parte foi essa.

    Não precisaram muitos acordes para que viesse tudo à memória. Tudo e todos. Todo. Parece até que senti os mesmos cheiros, as mesmas sensações, ouvi os mesmos sons e que o mesmo rubor nas faces me acometeu sem piedade. Veio a paixão, vieram as dúvidas, aquele abraço e aqueles olhos que, mesmo abertos, pareciam fechados, de tão hermética era aquela alma. Claro, em algum momento da canção, também vieram as dores, as decepções, as sensações desagradáveis que tantas vezes aquela relação me provocou.

    Como as músicas podem ser missionárias em nossas vidas, não? Acho que elas também são uma forma de Deus nos dizer algumas coisas. Desta vez, Ele me disse: “já deu, Clarice. Se há ainda algum resquício daquele passado no seu coração, joga fora, não tem mais lugar para ele aí.” E assim foi. Deixei o CD tocar, como se, com cada nota, fossem embora pelos ares todas aquelas sensações que, sabe-se lá porquê, eu havia suportado por tanto tempo. Foi uma limpeza. Uma faxina pela qual eu precisava passar. Para arrumar bem o armário, é preciso trazer à tona toda a tralha que insistimos em guardar porque “um dia podemos precisar”. Aquelas canções foram muito claras: dessa tralha eu não preciso mais.

    23 junho 2011

    Onde queria chegar


    Ela era assim. Serena, tranquila. Pessoas tolas a indignavam, mas sem tirar sua pacificidade. Tinha valores claros e muitas vezes opostos aos da maioria. Ser minoria nunca foi fácil. Traz o conflito, o medo e a constante ameaça vinda do grupo dominante. Seja uma opinião radical, um olhar de preconceito ou um julgamento bobo. Eles sempre fazem questão de se manifestar.

    Não, nunca foi fácil, mas nada bloqueia quem sabe o que quer. Ela sabia-se diferente, mas era certa de quem era e porque era. Isso torna tudo mais tranquilo. É bem mais fácil tirar os obstáculos do caminho quando sabe-se onde se quer chegar. Ela sabia como poucos. Por isso seguiu, driblando as ilusões da vida e pouco se importando com aqueles que achavam dominá-la. Ela sempre foi a única que se dominou. E sem nenhum tom de arrogância nisso.

    Seguiu, com toda a sua serenidade e paz interior, com toda sua capacidade de amar, ainda que conseguisse ver, no interior das pessoas, tudo o que de ruim elas carregavam. Tinha faro para os defeitos alheios. Conhecia a todos minuciosamente, mas guardava-os para si, por entender que trazê-los à luz não os exterminaria. Amava as pessoas ainda assim. E isso tudo porque sabia exatamente quem era e aonde iria.

    Chegou onde sempre quis chegar. Até lá, esteve boa parte do tempo sozinha. Agora, tudo era festa. A vida é mais simples do que se imagina.

    19 junho 2011

    O que fazemos da pressa


    Os meses passaram tão rápido que a sensação, às vezes, é de ter estado em transe enquanto eles corriam. Foram tão intensos, tão tensos, tão cheios de novidades, que ainda não parei para pensar o que fizeram de mim. Acho e espero, sinceramente, que não tenham feito muita coisa. Pelo menos, não no sentido de me transformarem em algo que eu não gostaria de ser.

    É junho, quase julho, vejam só! E cá estou, em processo de desaceleração, depois de a vida ter me obrigado a pisar fundo no 220. Ainda tenho que manter o ritmo, é fato, mas acho que já dá para voltar a olhar as pessoas e imaginar suas histórias de vida. Uma coisa é fato: ainda sinto intensamente, ainda exercito minha visão de raio X e ainda encaro a vida como um delicioso livro de filosofia. Provavelmente, é neste capítulo que eu confronto meus valores com os de outros mundos e entendo que, nesta luta, não há fracos nem fortes. São simplesmente essências diversas que acabam por temperar a vida.

    Vilã ou incompreendida, a pressa já virou personagem de importância nessa história. O que ela faz de mim ou de quem quer que seja não é o ponto chave. O x da questão é o que nós, testados pela vida, fazemos dos dias corridos e entulhados de coisas que ela nos dá. Manter-se firme e leal a si mesmo, ainda que em meio ao turbilhão, é o melhor resultado. O que há em nós, se soubermos cuidar, estará sempre seguro. Todo o resto é mero e frágil cenário.

    06 maio 2011

    Nota sobre meu sumiço


    Perdoem-me o sumiço. Este ano tive que trocar a filosofia pelo pragmatismo. Não que eu tenha deixado de ser eu mesma e olhar o mundo com os olhos curiosos de uma criança. É que neste momento a vida me exige outros olhares. Isso não é ruim. Apenas rouba meu tempo. De qualquer maneira, me obriga a usá-lo para aprender e descobrir novas capacidades. Sou a mesma de sempre, passando por um upgrade da vida. Minha essência está e sempre esteve lá. Talvez mantê-la no lugar certo, em meio a tanta informação, seja meu grande desafio. Assim, vou seguindo, um pouco longe do blog, mas trabalhando para estar a cada vez mais firme no propósito que me fez buscar refúgio aqui. Nos vemos na estrada. ;)

    28 março 2011

    Sobre vazios e a plenitude


    - Mas o que foi que vi nele? - perguntou à amiga de velhos tempos.

    O mais provavél é que não tivesse visto nada mesmo. E foi este o ponto crucial: ele não tinha nada. Nada além de um olhar que era quase um pedido de piedade, alguns complexos e traumas de uma adolescência afetivamente frustrada, alguns relacionamentos mal acabados. Não acreditava em si mesmo, ou acreditava demais. Intercalava os dois extremos, reafirmando a insegurança e a eterna dúvida de ser que trazia consigo.

    Ele não tinha nada. E exatamente por não ter nada a interessava. Era dona de uma tal veia socialista que saltava. Queria partilhar algo com ele. Queria, de alguma forma, preencher aquele vazio triste e grande, acolhido por olhos tão pequenos.

    O que não haviam dito a ela é que há quem se sustente pelo próprio vazio. Há quem deseje o nada, como se ele fosse, de certa forma, um pilar, uma identidade. Há ainda quem escolha o vazio como forma de auto-punição, por uso indevido do espaço em experiências anteriores. Foi estranho perceber que, ao menos um desses casos (ou ambos), seria o dele.

    Ele não tinha nada. Constatação triste por si só. E ela não tinha como preenchê-lo. Ainda que quisesse, ainda que tivesse o potencial de torná-lo pleno, não podia! E não podia, basicamente, porque ele próprio nunca lhe abriu a porta e muito provavelmente nem soubesse como fazê-lo. Mais triste é não apenas que ela não tenha conseguido preenchê-lo, mas também que ele tenha lhe trazido o vazio dolorido de quem não conseguiu cumprir seu propósito.

    Conforta saber que ela sabe bem que, para sentir-se plena de novo, basta abrir algumas portas. E, ao contrário dele, o caminho para a plenitude não lhe causa medo algum.

    21 março 2011

    Busca


    Falta alguma coisa. Não sei dizer o que é. Abro a janela. Deixo o vento frio do início de outono tomar meu rosto e meu espírito. É noite. A lua me olha como a dizer: estamos juntas na nossa solidão. O que me toca é saber que, em algum lugar, tem alguém comigo. Respiro gostoso, enchendo os pulmões, retendo o ar, do jeitinho que aprendi nas aulas de yoga. Fecho os olhos e sinto o calor de quem me abraça em pensamento.

    Ainda não sei o que falta, mas entendo perfeitamente o que me preenche. É imaterial. Entrego-me à sensação de ter sem estar. Parece loucura, mas, na verdade, é privilégio de poucos. O certo é que sou. Não importa onde ou como eu esteja. Sempre vou ser. E é essa certeza que não me deixa desistir. É essa convicção que me impulsiona e me faz entender cada respiração, cada solidão, cada aprendizado.

    Não sei com quantas luas ainda vou estar. Com o passar dos anos, isso torna-se mero detalhe. Vale a certeza de saber que serei eternamente capaz de percebê-la e de perceber-me diante dela. E, da mesma forma, diante do mundo e seus meandros, das pessoas e suas complexidades, de mim mesma e minhas particularidades. É assim que o que me falta deixa de ter significado. É como se a forma de conduzir a busca fosse mais importante que o seu resultado. Na verdade, ela, a forma como buscamos algo, é o que determina aonde chegaremos. Ainda me falta um bocado, mas estou tranquila: acho que encontrei o caminho.

    26 fevereiro 2011

    Cuide-se

    "Cuide-se bem,
    Perigos há por toda a parte
    E é bem delicado viver,
    De uma forma ou de outra,
    É uma arte, como tudo."

    Guilherme Arantes



    Cuide-se. A vida vai exigir de você. Você vai viver muitas experiências. Nem todas vão lhe trazer boas lembranças. Nem todas vão ser fáceis de encarar. Por isso, eu digo: cuide-se. Você vai se apaixonar por muitas pessoas, encontrar gente que vai fazer-lhe pensar que é possível ser compreendido, que é mais fácil lutar quando há alguém segurando a sua mão. Deus colocará anjos no seu caminho nas horas exatas. Mas, você também vai encontrar gente de alma cinzenta e coração duro, pessoas cheias de peso, que carregam uma vida de mágoas e sentimentos parasitas. Você vai encontrar pessoas sem pontes. E, nessas horas, não se abale, cuide-se.

    Vez ou outra você vai ter coisas difíceis a fazer. Respire fundo, confie na sabedoria Divina e faça. É preciso, faz parte do circo chamado vida. Coisas difíceis sempre existirão. Se tiver que fazê-las, vá em frente. Algumas pessoas tentarão convencer-lhe da sua incapacidade. Ignore. Confie em si mesmo e cuide-se.

    Vão surgir sentimentos estranhos, dolorosos e agressivos. A mosca da vaidade vai zumbir em seu ouvido algumas vezes. Vão surgir oportunidades de fazer o mal. Vai haver momentos de revolta, vai haver acontecimentos tristes, dias de medo e insegurança. O corpo vai falhar de vez em quando. Pode ser difícil, mas não desista, não vacile, cuide-se.

    As pessoas nem sempre corresponderão seus sentimentos. Às vezes, alguém que você ama muito vai decepciona-lo. As tentações materiais vão bater à sua porta e surgirão convites maliciosos. Você vai ouvir mentiras, vai acreditar em algumas e de vez em quando vai acabar contando alguma também. Pode não ser fácil, mas não corrompa-se, cuide-se.

    A vida é um extenso teste de fé e caráter. Passe por ela com as melhores notas. Não deixe de vivê-la na intensidade. Não deixe de aprender com ela. Sobretudo, não deixe que os percalços do caminho impeçam-lhe de seguir e tirem de você o que carrega de mais precioso: a sua essência. Não tema. Tudo não passa de um teste que você pode vencer. Basta não se perder. Não permita que situações e pessoas tirem-lhe de si mesmo. Haja o que houver, seja firme, seja forte, relaxe a cabeça, reconheça e sinta o próprio coração. Cuide-se.

    20 fevereiro 2011

    Tempo

    “Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou.” Legião Urbana


    A música lembrava ele. A melodia fincava-lhe o coração sem sutileza. Trazia-lhe à mente o par de olhos que tanto admirava, o gosto e a textura daqueles lábios, a audácia daquela língua. Era quase como sentir de novo as mãos, o abraço, a temperatura. Era uma canção triste, de letra dolorida. Maltratava-lhe mais por dizer-lhe a verdade: tudo acabou. Lá estava ela novamente, solitária com seus pensamentos, enquanto ele, talvez, sequer lembrasse de tudo o que houvera. Ela, ainda que tentasse esquecer, recordava cada detalhe.

    As coisas aconteceram de maneira inusitada. O encontro, o encanto, o desencontro, a entrega, a fuga. Como se algo tivesse misturado a cronologia dos fatos. Como se fosse a história certa no tempo errado. Agora ela sofria as consequências de sua falta de habilidade com o calendário. Em pensamento, pedia a Chronos, Deus do Tempo, uma chance de fazer diferente. Sabia que teria de esperar. Talvez uma retaliação pela ansiedade de outrora ou, o mais provável, uma oportunidade de aprender a graça da paciência e da serenidade.

    O aparelho de som silenciou a música. Agora ouvia apenas seus pensamentos. Eles quase encontravam-se com os dele, que, do outro lado da cidade, lembravam o abraço dela, que esperava um dia ter novamente.

    17 fevereiro 2011

    “Hoje vai ser uma festa!”


    Quando criei o blog (na verdade, reativei após alguns anos), em 17 de fevereiro de 2010, o fiz após um momento de libertação pessoal. Havia rompido com uma situação que me incomodava e, principalmente, que me afastava de mim mesma. Escrever sempre significou muito de mim. Sempre me arrisquei em textos, histórias e poemas. Desde a infância isso faz parte do meu “infinito particular”. Então, naquele momento, nada melhor para me trazer de volta a mim mesma do que fazer as pazes com a escrita e novamente fazê-la com motivação, disciplina e... um bom espaço!

    O curioso é que apenas agora me dei conta de que a data coincide com meu aniversário de formatura. Exatamente no dia 17 de fevereiro de 2004 eu me tornava mais uma jornalista no mundo. Mais curioso é que novamente nesta data estou prestes a assumir um desafio profissional que aceito com a certeza de que, se Deus o colocou diante de mim, é porque me dará condições de vencê-lo.

    Neste ano de blog, as linhas aqui escritas foram minha terapia. Participaram do meu amadurecimento, ajudaram-me a organizar pensamentos e sentimentos, dando a eles, se não linearidade, pelo menos algum sentido pessoal. Nesse período, sei que conquistei algumas pessoas, que também me conquistaram. Agradeço a todos que têm o carinho de vir sempre aqui para compartilharem das minhas ”filosofações”, viagens e maluquices.

    Como em todo aniversário, não poderia deixar de presentear o aniversariante. Assim, apresento a vocês a nova roupa do Jornalisticamente Incorreto, que, espero, ainda se encha das minhas inspirações repentinas por muitos e muitos anos.

    15 fevereiro 2011

    Sombras


    É uma sombra, uma foto amarelada. É uma tela inacabada que insiste em adornar minhas lembranças. É um sentimento interrompido, oprimido, reprimido. Uma dor sem comprimido. É um programa de TV popularesco, desses que repetem exaustivamente as imagens e clichês, crucificam os vilões, santificam os mocinhos. É uma fuga sem sucesso: sempre sou capturada.

    É um jogo confuso, já perdido, mas insisto em jogar. Eu contra eu mesma. Nenhum adversário, a não ser minhas próprias recordações. Mexe com o coração, mas sobretudo queima fosfato. Quem explica?

    É insônia, é algema, é fantasma. Quiçá apenas uma revolta escondida. Vez ou outra cutuca. E eu, tolinha, sempre me viro para dar ouvidos a ela.

    08 fevereiro 2011

    O que veste a alma

    “Que se eu tiver que ficar nu, hei de envolver-me em pura poesia.” Vander Lee


    Houve o tempo em que foi uma roupa nova, como muitas das que já teve. Uma roupa limpa, engomada, com cheiro de nova. Gostava dela. Achava-se bonita com ela. Admirava-se no espelho. Enchia o peito, erguia a cabeça sempre que estava dentro dela.

    O tempo passou e a roupa deixou de ser nova. Perdeu o brilho, a goma, a beleza. E já não lhe cabia tão bem. Não havia mais prazer em sair vestindo-a, desfilando em frente ao espelho para a plateia de uma pessoa só. Já não tapava-lhe o frio, nem dava-lhe proteção. Transformou-se em apenas uma peça para cobrir-lhe o corpo.

    Havia dias em que preferia a nudez. A liberdade de não ter nada escondido, de ser e estar ali, genuína e entregue a si própria, sem nada a apertar-lhe o corpo ou a condicionar-lhe as ideias. As vezes é preciso estar nu para entender o valor real da vestimenta e qual roupa nos veste melhor.

    Ela estava nua. Era livre naquele instante e agora compreendia: a roupa nova e bem engomada de tempos atrás não era para ela. Ela, outrora, quis muito estar vestida, sentir-se bem, protegida por aquele corte de tecido. Precisou da nudez para entender que aquilo não era o bastante e que, mais que o corpo, aquela roupa deveria amparar-lhe a alma.

    As pessoas, por vezes, escolhem roupas erradas ou ocasiões inapropriadas para usar uma veste. Rende algum desconforto, ainda que a percepção seja tardia, mas vale o aprendizado e a compreensão do que faz a moda de cada um.

    Há uma roupa que, às vezes se esquece, mas nunca se despe: a essência individual. Foi assim que ela, a mulher da nossa história, esqueceu a velha roupa material, vestiu-se de si mesma e foi lá ser feliz.

    18 janeiro 2011

    (Re)encontros e despedidas

    "Nosso sonho se perdeu no fio da vida. E eu vou embora, sem mais feridas, sem despedidas, eu quero ver o mar..."

    Vanessa da Mata



    Ela queria um pouco de paz. Mais que querer: ela precisava. E era do tipo de paz que só a natureza pode oferecer. Os sons, aromas, texturas e temperaturas da natureza que parecem compilar as maravilhas do mundo. Caixinha com os guardados de Deus. Só a natureza para ajustar o que em nós é desequilíbrio. Chega um momento em que apenas o contato com essa representação pura de Deus pode nos restaurar.

    É por isso que ela foi para longe. Sobrevoou a cidade como se estivesse sobrevoando a própria vida. Olhou para baixo como se soubesse que, quando voltasse, seria outra pessoa. Ou melhor: voltaria a si mesma. Viagens sempre foram encontros interiores. Às vezes, é preciso livrar-se dessa roupa chamada rotina para lembrarmos o que há por baixo dela. Viagens nos deixam nus. Uma nudez abençoada. A nudez da leveza, da coragem de desbravar novos mundos e conhecer novas pessoas. Quase sempre conhecer mais de si mesmo.

    Ela foi ver o mar. E poucas coisas na vida a fazem sentir-se tão bem quanto a brisa da praia no rosto, o toque dos pés na areia. Precisava disso. Corpo e mente exaustos, coração dolorido. Todos sussurrando pelo equilíbrio, o descarrego, a paz.

    Ela foi para longe. Não seria para sempre. Alguns dias seriam suficientes. Tudo o que ela queria era curar-se. De si, dos outros. E lembrar que é possível e delicioso renascer a cada dia, sem complexidades. Com as mesmas simplicidade e beleza com as quais o sol nasce diariamente sobre o mar.

    PS: Estarei fora de casa por uns dias. Talvez poste menos durante esse período, mas acreditem: meu corpo, minha alma e minha inspiração agradecerão. Espero que vocês também. :)

    15 janeiro 2011

    O que não se apaga


    Uma notícia aos desavisados: pessoas não são deletáveis. Pode-se fugir do contato, evitar os olhares e a risada, não trocar mais ideias, nem ouvir as mesmas músicas. As lembranças ficam, porém. Saltitam de um lado a outro da cachola, armazenadas em um HD onde botõezinhos de block, delete ou unfollow simplesmente não existem.

    Pessoas invadem as vidas umas das outras sem pudores, mas nem sempre entendem que, se algo não sair bem no caminho, as coisas não se resolvem com um clique. Quando nos damos conta, figuras tão importantes em determinado momento de nossas vidas foram parar na lixeira do computador. É, então, que vem a pergunta: em quantas e em quais lixeiras estamos? A revolução tecnológica trouxe facilidades, mas também a ilusão de que é possível informatizar o não-informatizável: as relações.

    Nenhum twitie, sms, e-mail, msn ou afim é capaz de substituir o olho no olho, a pupila dilatada, a respiração acelerada, o coração batendo. Nada substitui as desculpas cara a cara, o abraço, o toque, o som de uma boa e velha gargalhada seguida e um olhar de cumplicidade. É isso que torna as pessoas não deletáveis. É isso que as fazem eternas na lembrança.

    A vida nos distancia de muita gente. Isso nem sempre é ruim. Muitas vezes, a distância é natural e necessária. Isso significa que aquela pessoa já nos ensinou o que precisava ensinar. E vice-versa. Seguir por caminhos diferentes de alguém que nos faz mal é saudável. Maravilha: podemos escolher! Afastamentos são absolutamente normais. O que não é normal é achar que um botão resolve tudo.

    Coleciono e continuarei colecionando pessoas. Eu não deleto ninguém da minha vida. E você?

    05 janeiro 2011

    Ícaro sem asas



    - Você não gosta de voar, Ícaro? Então vem! - dizia sorrindo e saía rodopiando, braços suspensos, até o meio do salão.

    Eu gostava de vê-la dançar. Parecia mesmo um pássaro, leve e doce em seu vestido lilás esvoaçante. Gargalhava de longe, debochando da minha timidez, sem entender que eu a observava em silêncio parte por acanhamento, parte por pura admiração. Ela parecia livre e indiferente às mazelas da vida. Eu tinha inveja disso. Eu queria ser assim. Sabia que não era capaz de enxergar a vida com a mesma naturalidade que ela e isso me tornava impotente. Incapaz, inclusive, de fazê-la feliz.

    A forma como passava por cima dos problemas e, até mesmo, das desfeitas que eu por muitas vezes lhe fazia, beirava a inocência. Mas sei que, na realidade, ela conhecia perfeitamente minhas tolices e deficiências. Sabia o quão frágil eu sou diante dos meus próprios sentimentos. Conhecia cada um dos meus medos e sabia da minha inércia. Nem dança, nem vôo, nem atitudes. Eu não era capaz de nada. Contraditório, de fato, se compararmos à história de meu xará, Ícaro, filho de Dédalo, da Grécia Antiga, que arriscou a vida pelo sonho de voar, pelo desejo da liberdade.

    Sou um Ícaro sem asas. Um Ícaro que sequer tenta voar. Por um lado, estou preso a uma bola de ferro chamada passado, escravo de meus próprios fracassos. Por outro, me amarro a um futuro que, embora longínquo, está perfeitamente desenhado na minha cabeça. Ela não. Ela veste-se de coragem e vai embora. “Seja o que Deus quiser!” É dona de uma fé que em mim morreu faz tempo, se é que um dia chegou a existir.

    Sei que ela me quis. E quis intensamente, como tudo na vida. Talvez ainda sinta algo, mas, não bastasse o que faço a mim mesmo, fiz a ela o mal de machucar-lhe as asas. Não foi por crueldade. Eu também a queria. E talvez por querê-la e admirá-la tanto, mais uma vez, sucumbi ao medo. Enterrei-me no submundo que criei. Eu não saberia voar junto dela. Ela teria que fincar os pés na terra, junto comigo, nessa vida sem graça que me dei. Não seria justo.

    Hoje entendo que ela quis me resgatar. Ela desejou ardentemente salvar-me de mim mesmo. Esforçou-se. Foi paciente, estendeu-me a mão incontáveis vezes. E eu nem sempre estendi a minha de volta. Acho que é justo estar onde estou. No íntimo, sei que só eu mesmo posso me libertar. A dúvida que me incomoda é se mereço, de fato, essa libertação. Além da certeza, preciso de coragem. E coragem não se faz da noite para o dia. Acho que ela me ensinou uma parte. Resta-me tentar sozinho agora. Enquanto isso, continuo vendo-a dançar, livre como um pássaro. Bonita. Feliz. Quem sabe, se eu criar asas à tempo, consiga alcançá-la? Ainda posso honrar meu nome e, como o Ícaro da Grécia, aprender a voar.

    01 janeiro 2011

    A aura da esperança

    "Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente."
    Carlos Drummond de Andrade



    É como um parto. Um nascimento esperado pelo mundo. As contrações expressas pela contagem regressiva. 10, 9, 8, 7 ... Até que explode no céu o choro de quem acaba de nascer. E, exatamente ali, naquele instante que sucede o um, uma multidão se une em esperanças, em desejos de dias melhores e sonhos concretizados. Um instante de abraços trocados, espumantes estourados, telefonemas recebidos, taças que tilintam, pensamentos que se elevam.

    O país toma-se de magia rara, energia poderosa que só a união de muitas esperanças é capaz de produzir. Ali, no primeiro minuto de vida da criança tão esperada, todos elevam-se ao mesmo patamar. Não há ricos ou pobres, analfabetos ou letrados, feios ou belos. Há uma aura única, mágica e emocionante, que chama o olhar e o pensamento ao céu para dizer: este ano vai ser diferente.

    E será mesmo. Porque é novo. Porque é todo seu. É todo nosso. Ninguém usou. Podemos, sim, fazê-lo diferente e melhor, a partir dessa atmosfera que nos une em boas energias. É por isso que me agrada tanto o ano novo. Não apenas pela troca de um número, mas pela renovação de sonhos, compromissos, vontades e, naturalmente, de pessoas.