Fio de Ariadne: Clar-alice

11 dezembro 2010

Clar-alice


Ele a olhava de longe. Ela, claro, percebeu, mas não conseguiu assimilar. A mesa do bar estava lotada de amigas lindas. Porque ele a escolheria? Não, não devia ser pra ela - pensava. Girava os olhos ao redor, como a procurar o verdadeiro alvo daqueles olhares. Ninguém.

Sim. Ela estava sendo olhada. Não entendia, porém. A vida toda tinha se esforçado para encontrar beleza em si mesma. Por vezes, até garimpava alguma coisa, mas quase sempre achava as amigas mais bonitas que ela. Não notava, no entanto, os olhares que a perseguiam por onde andasse. Quando notava, era sempre assim: desconfiada. Um auto-boicote descarado. Impiedoso.

Alice sempre foi assim: condescendente com os outros, cruel consigo mesma. Talvez por isso sempre tenha se apaixonado pelos rapazes errados. Uma forma inconsciente de punir-se sabe-se lá porquê. Coisa estranha. De outras vidas, talvez.

Alice é doce e sonhadora. Gosta de pensar na vida e de não entendê-la. Estranho não? Alice gosta da insapiência. Talvez porque saiba que o “não saber” é a mola que move o mundo. Enquanto o homem não souber de alguma coisa, estará buscando, se movimentando. A angústia de não saber nos leva adiante.

Alice segue ignorante de seu futuro, mas sempre supondo, inventando e desinventando histórias para si mesma. Tentar definir o indefinível é seu melhor passatempo. Às vezes, um flash de lucidez e auto-solidariedade a acomete. É, então, que Alice começa a supor sobre os homens. Entende que eles podem, naturalmente, achá-la bonita. E admite que talvez realmente seja. Diverte-se de pensar que alguns olhares sejam para a aura pensante que percebem nela. Alice tem atração pelo intelectual. É quase físico. Como se inteligência e capacidade de questionar a vida fossem afrodisíacos. Ela acha graça de si e dos outros, por pensar que existam homens igualmente insanos a ponto de desejar a “cabeça” de alguém. Alice ama com a cabeça e a alma, depois com o corpo. Quando consegue unir os três, a tríade perfeita, aproxima-se do cosmos.

Por vezes, a sonhadora Alice divaga a ponto de aproximar-se de seu alter-ego: Clarice, uma mulher inquieta, mas plena; questionadora, mas segura; madura, sedenta de conhecimento, de gente, de vida. É como se Alice fosse o passado e Clarice o futuro. No presente, alguém dividido entre ambas. Alguém que traz um pouco de Alice e já tem traços evidentes de Clarice. Alguém a quem falta pouco para ser completo. Uma mulher inteira. Clar-alice. Capaz de ver, aceitar e entender os olhares do rapaz do bar. Afinal, pra quem mais eles poderiam ser?

5 comentários :

Anônimo disse...

Ótimo texto Di
Tô orgulhosa da minha amiga se exercitando com as palavras...bjo
Tate

Carol Jardim disse...

Estou apaixonada pela Clar-alice. Você me apresenta?

Talita Cruz disse...

Só posso dizer que lendo seus textos me sinto compreendida! :) Tive sorte de encontrar esse blog! :) Deixei um selo pra vc lá no meu blog, é só um pequeno reconhecimento dos meus blogs favoritos...bjss!!

Ariadne Lima disse...

Tate, fiquei feliz com a visita e o comentário! :) Carolzinha, Clar-alice talvez seja um pouco parecida com você! Mas, em breve, vou apresenta-las. Bjo, saudade! Talita, amei meu selinho!Fico feliz que goste dos textos e eles toquem alguma coisa no seu coração. Beijo!

Rafael Sandim disse...

Owwnnn, sua linda! Muito obrigado pela citação! ^^