Fio de Ariadne: Constatação do Amor perdido nº 2

12 outubro 2010

Constatação do Amor perdido nº 2


Era uma manhã diferente. Não tinha cheiro de primavera como aquelas que passara ao seu lado. Não tinha gosto de sorvete na praça, e a sensação que trazia não era o conforto daquele abraço. Era uma manhã cinza antes de tudo. Vazia. Silenciosa. Sem o barulho gostoso das gargalhadas em sintonia, sem o sabor de um bom dia especial, do olhar e do sorriso que, juntos, diziam mais que todas as palavras de todas as línguas do universo. Era uma manhã sem porquê.

Por mais que ela se perguntasse não encontrava respostas. É duro descobrir depois dos 25 que há perguntas sem respostas. Ou que há respostas que é melhor permanecerem escondidas no fundo do armário, simplesmente porque doem. Doem e não são capazes de nos dar a solução. Era prudente não buscá-las.

E naquela manhã estranha, sem cores, sem sabores, sem porquê, ela abriu os olhos e tentou encontrar algo a fazer. Não algo que trouxesse de volta as cenas que ininterruptamente ela recordava, mas algo que a fizesse cumprir o papel de estar ali. Desistira de buscar soluções. Já estava constatado: mais um amor perdido. “Triste coleção a minha”, pensou. Verdade. Triste coleção essa de amores passados, frustrados, contos de fadas sem o “felizes para sempre”.

Suas lágrimas já não tinham indignação. Eram lágrimas resignadas. Daquelas que rolam, mas sabem que trazem o peso do aprendizado. Mais um. Nada se rompe sem dor. E a dor é um grande mestre. Ela já aprendera, por exemplo, que é impossível tornar as lembranças palpáveis. Recordava e, ali mesmo, no seu masoquismo solitário, tentava extrair de dentro de si um pouco do sentimento que vivera naqueles instantes passados. Os sorrisos, os olhares, as bobeirinhas e confissões. As sensações, os toques, os conselhos e torcidas. O orgulho, a corujice trocada, o beijo suave, a êxtase de estarem juntos, o encantamento de terem se encontrado nesse mundo insano e tantas outras coisas que davam às outras manhãs todas as cores, aromas, sensações e sabores agora perdidos.

E naquele dia sem graça e sem sol, ela levantou e resolveu seguir. Ainda sem rumo, ainda sem forças, mas resoluta. Iria em frente. Um dia, certamente, todos aqueles aprendizados serviriam e ela não mais precisaria constatar que o amor, e toda a sua aura mágica, acabou perdendo-se no tempo, na distância, nas mágoas, nos desencontros, no espaço. O cinza não duraria para sempre.

Um comentário :

Lígia disse...

Quem é que está precisando de inspiração??? Adorei, quérida... como sempre!