Fio de Ariadne: Outubro 2010

24 outubro 2010

Tanta saudade


É como se tivesse um buraco. Dá até pra sentir o vento passando. Falta alguma coisa. Desconfio que seja meu coração. Mas ele está lá ainda. Continua onde sempre esteve, pra te abrigar sem ressalvas. O problema é a saudade. É ela que faz o buraco. Eu puxo o ar com força. O buraco continua lá. É porque você não está aqui. Às vezes esqueço que saudade dói tanto. Ela cria o vazio da lembrança. É uma projeção. A gente vê, sente (e como sente!), mas não toca. É uma imagem vazia. Um filme que a gente quer continuar e não consegue. Não consigo tocar seu rosto, sentir seu perfume, nem ter o seu abraço de novo. É aí que dói. O ver e não ter, o sentir e não tocar. Como disse Clarice Lispector, é “como se faltasse um dente na frente”.

Por favor, venha logo. Antes que eu me perca inteira.

17 outubro 2010

Aquarela


Desculpe-me. Não estou inspirada. Talvez seja esse amor, que não passa de uma promessa. Ou, quem sabe, essa saudade, que não tenho tempo nem grana pra matar. Pode ser ainda essa gente imatura e difícil que surge no caminho. Quiçá seja eu mesma e essa terrível mania de tentar entender o mundo. Mais fácil, enfim, que seja tudo isso, junto e misturado, dentro desse coração que já não é dos mais exemplares. É inferno astral. Talvez isso ajude. Ou melhor: atrapalhe. Acho que um bom colo resolveria tudo. Ou pelo menos me traria mais conforto para enfrentar.

Hoje tem um mundo cinza dentro de mim. O céu nublado, nenhuma cor, nenhuma estrela. Não gosto disso. Não sou assim. Tenho uma aura colorida e aconchegante, feliz em alegrar o que precisa de um pouco de cor. Quero minha aquarela de volta. Não é qualquer chuvinha que vai tornar meu mundo gris.

Ei, Deus, pode me ajudar a faxinar a alma? Desenha um sol aqui no lugar dessa nuvem e faz aquela árvore florescer. Agora me ensina a ventilar a casa, sem deixa-la vulnerável ao que não presta. Põe um balanço no meu quintal e um sorriso na minha cara. Um abraço de pai, um colo de mãe, um beijo de amor. De resto, só a certeza de que, não importa o quão cinza meu mundo possa ficar, basta jogar um balde de tinta pra fazer tudo colorido outra vez.

13 outubro 2010

Quebra-cabeça


De novo. Eu e meus pensamentos. Na escola, meu professor de filosofia dizia que eu bem fazia jus ao nome: Clarice. “Você pensa tanto quanto sua xará, a Lispector.” Naquela época, eu pouco conhecia Clarice, mas hoje concordo com Francis. Nome de pensador também. Os meninos da escola se divertiam com isso, diziam que era nome de mulher. Coisa de adolescente bobo. Fato universal: meninas amadurecem bem mais cedo que meninos. Eu amadureci. Na verdade, às vezes me pergunto se já não nasci pensante. Vez em quando, pego minhas primeiras redações e me deparo, mesmo que na linguagem infantil da época, com profundas reflexões existenciais.

Aos oito anos, eu já tinha esperanças de mudar o mundo. Hoje, essa expectativa não existe mais. Entendi que, cedo ou tarde, o mundo se encontra, ainda que do jeito dele. Pura teoria de Gaya. O x da questão está nas pessoas. Elas bagunçam tanto o pobre do mundo, que ele tem crises absurdas de identidade. Está surtando, mas eu ainda acho que ele se encontra. Acho mesmo que este é o sentido da vida: encontrar um lugar no mundo, o encaixe perfeito, como uma peça de quebra-cabeça, ainda que isso demore e signifique muitas tentativas frustradas. Enquanto isso, tudo vai girando. O mundo não pára para a gente descer, nem espera que encontremos um bom assento. Às vezes, vem a mão de Deus e dá uma forcinha, coloca a gente no lugar exato, mas o grande teste consiste em identificarmos as pistas e encontrarmos nós mesmos a ilha perdida.

Ainda estou colhendo meus sinais. São muitos e o caminho parece longo. Quer saber? Não me importo. Tenho gosto pelo desafio. Olha só: agora mesmo acabou de surgir uma pista! É exatamente assim que elas aparecem: no destino disfarçado de cotidiano. O mais saboroso é tentar desvendá-lo, entender suas charadas e surpreendê-lo, fazendo de conta que caiu na sua conversa de que “hoje é só mais um dia comum”. Lá na frente, a gente mostra pra ele que o seguimos, por gosto e convicção, por sabermos que, por mais tolas que as coisas aparentem ser, elas podem nos encaixar perfeitamente neste quebra-cabeça chamado vida.

12 outubro 2010

Constatação do Amor perdido nº 2


Era uma manhã diferente. Não tinha cheiro de primavera como aquelas que passara ao seu lado. Não tinha gosto de sorvete na praça, e a sensação que trazia não era o conforto daquele abraço. Era uma manhã cinza antes de tudo. Vazia. Silenciosa. Sem o barulho gostoso das gargalhadas em sintonia, sem o sabor de um bom dia especial, do olhar e do sorriso que, juntos, diziam mais que todas as palavras de todas as línguas do universo. Era uma manhã sem porquê.

Por mais que ela se perguntasse não encontrava respostas. É duro descobrir depois dos 25 que há perguntas sem respostas. Ou que há respostas que é melhor permanecerem escondidas no fundo do armário, simplesmente porque doem. Doem e não são capazes de nos dar a solução. Era prudente não buscá-las.

E naquela manhã estranha, sem cores, sem sabores, sem porquê, ela abriu os olhos e tentou encontrar algo a fazer. Não algo que trouxesse de volta as cenas que ininterruptamente ela recordava, mas algo que a fizesse cumprir o papel de estar ali. Desistira de buscar soluções. Já estava constatado: mais um amor perdido. “Triste coleção a minha”, pensou. Verdade. Triste coleção essa de amores passados, frustrados, contos de fadas sem o “felizes para sempre”.

Suas lágrimas já não tinham indignação. Eram lágrimas resignadas. Daquelas que rolam, mas sabem que trazem o peso do aprendizado. Mais um. Nada se rompe sem dor. E a dor é um grande mestre. Ela já aprendera, por exemplo, que é impossível tornar as lembranças palpáveis. Recordava e, ali mesmo, no seu masoquismo solitário, tentava extrair de dentro de si um pouco do sentimento que vivera naqueles instantes passados. Os sorrisos, os olhares, as bobeirinhas e confissões. As sensações, os toques, os conselhos e torcidas. O orgulho, a corujice trocada, o beijo suave, a êxtase de estarem juntos, o encantamento de terem se encontrado nesse mundo insano e tantas outras coisas que davam às outras manhãs todas as cores, aromas, sensações e sabores agora perdidos.

E naquele dia sem graça e sem sol, ela levantou e resolveu seguir. Ainda sem rumo, ainda sem forças, mas resoluta. Iria em frente. Um dia, certamente, todos aqueles aprendizados serviriam e ela não mais precisaria constatar que o amor, e toda a sua aura mágica, acabou perdendo-se no tempo, na distância, nas mágoas, nos desencontros, no espaço. O cinza não duraria para sempre.