Fio de Ariadne: Sol de primavera

01 setembro 2010

Sol de primavera

"Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos..." Beto Guedes


Tenho tendências a imaginar coisas. Em todas as épocas do ano, todos os dias da semana, ocasiões diversas, eu divago. Sonho, especulo, faço planos futuros para um presente imaginário. E na primavera, curioso, esta é uma característica que transborda, chega a passar pelos poros e se espalha pelo ar como um perfume que deixa marcas sem pedir licença.

Não sei se por ser assim ou por outro motivo qualquer, basta entrar setembro e percebo algo diferente também nas pessoas. Talvez a causa seja fisiológica. É fim do inverno e o sol traz de novo a liberdade e a leveza das roupas da estação, é equinócio no hemisfério sul, o céu parece mais limpo e a claridade funciona como energético natural nos dias mais difíceis. Pode ser ainda que a culpa seja de uma tal psique primaveril, uma aura colorida, desperta pelo perfume das flores ou pela brisa mais forte, que insiste em levantar vestidos e atrapalhar cabelos.

É hora de deixar a pele à mostra e parece que à mostra também ficam os sentimentos. Ficamos mais vulneráveis a paixões anônimas instantâneas e mais entregues àquelas que têm nome, forma e endereço certos. Sem dúvidas, há algo de não sei o quê no ar de setembro. Tem cheiro de O Mundo de Sofia e sabor de embalo na rede ao som de Chico Buarque.

Acho que em setembro fico mais pensante. As coisas passam suaves diante dos olhos, como um filme que nunca olhamos e de repente paramos pra ver, descobrir. E surpresos ficamos diante das sutilezas de palavras, gestos, pessoas, detalhes. Tudo o que a escuridão do inverno não nos permitiu perceber. Às vezes passamos mesmo pela vida como quem passa por um poste.

É 1º de setembro e o ar muda. Chega a ser cabalístico. Uma influência dos astros que vem para anunciar que, dali a 22 dias, uma força mágica erguerá plantas, quebrará o silêncio dos pássaros, abrirá flores. Mais que isso: abrirá corações e chamará mentes à reflexão. Em setembro, imagino mais coisas que no restante do ano, uma produção de pensamentos em larga escala, quase uma hemorragia do pensar. E do sentir. E de acreditar que ainda há o que fazer pela humanidade, e que a natureza das coisas (e das pessoas) é a de florescer mesmo depois de um rigoroso inverno.

2 comentários :

Jordana Flávia disse...

Oi Ariadne! Ótima lembrança a da chegada da primavera. Também me delicio com os dias mais quentes e ensolarados, e setembro já vem anunciar que logo estaremos vivendo mais um ciclo de muitas flores e cores! Estou contando os dias pra chegar...

Thales Willian disse...

Tempo bom esse. Momento para sentir e ser sentido, amar e ser amado. Uma época que chega para iluminar todas as vidas. Mais uma vez, belo post.