Fio de Ariadne: Fora do alvo

23 setembro 2010

Fora do alvo


Era um dia comum. Nada de diferente no céu, o mesmo clima, os mesmos vizinhos mal educados, o mesmo engarrafamento na Avenida Antônio Carlos, as mesmas árvores na Pampulha. Alice queria apenas entender o que estava acontecendo. Dentro dela, sobretudo. Tudo estava muito estranho desde o dia em que decidiu que aquele seria seu próximo amor. Fez algumas análises e concluiu que ele tinha boas características. Não era feio (nem bonito também), era inteligente, estudado, tinha um bom emprego e demonstrava lá certa sensibilidade. Era um bom alvo. Talvez tenha sido esse o erro de Alice: tratá-lo como alvo.

A conquista virou uma meta e Alice que, nem apaixonada estava, acabou acertando a si mesma. De cara percebeu-lhe o jeito alheio, o distanciamento, a imaturidade. Alice, no entanto, queria tanto acertar o alvo que tomou aquilo como charme. Tolice. Nem era charme, nem Alice era capaz de defender-se. Quando percebeu, já estava enredada por aquele homem confuso, que a levava para a mesma caminhada sem rumo, sem destino, sem sucesso. E, assim, Alice, que pensou em acertar, se viu acertada. Passou a ser alvo de um jogo estranho, que sequer sabia se era mesmo jogo, mas que lhe fazia mal porque ora a fazia feliz, ora a deixava perdida, sem respostas, sem amparo, sem companhia.

Ela não conseguia entender e, algumas vezes, nem queria, mas, naquele momento, era preciso. Sabia que ela também era um bom alvo. Era bonita, inteligente, estudada, tinha um bom emprego e sensibilidade. O que havia de errado, então? Ainda que ele não a quisesse, nada justificava aquele tipo de atitude. Ele sumira sem deixar pistas, como uma criança amedrontada e egoísta. Deixou para trás muitas possibilidades e uma boa moça, sonhadora, mas plenamente capaz de fazê-lo feliz. Dentro dela, ficara apenas a dúvida e o vazio, o espaço reservado para uma história que não aconteceu, mas que, ela sabia, traria, no mínimo, um pouco mais de tempero a duas vidas sem muito sal nem muito açúcar. Alice respirou fundo e seguiu. Finalmente, o trânsito fluía na Avenida Antônio Carlos.

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