Fio de Ariadne: Coleção

26 setembro 2010

Coleção


Nem selos, nem cartões de telefone, nem miniaturas. Eu coleciono pessoas. Trouxe cada uma de algum lugar por onde passei ao longo da vida. Cada peça é especial, exclusiva e muito bem guardada. Colecionar pessoas exige cuidados. É preciso entender que cada uma delas tem características próprias e idiossincrasias que as fazem especiais. Cada uma tem suas alegrias e dores e, com cada uma, há de se saber lidar de forma diferente. É preciso saber moldar-se às pessoas. Todas carecem de afeto e atenção, mas cada qual a seu modo e intensidade. Colecionar pessoas exige flexibilidade e capacidade de observação. Sou feliz com minha coleção. Ela oferece algo que outras não conseguem: a troca. De cada um dos exemplares, recebe-se algo diferente: um aprendizado, um sentimento, uma alegria.

Minha coleção é grande e bem polida, sem marcas, mas com ótimas histórias. Tenho aquelas que trouxe da infância, da escola e das brincadeiras no quintal. As da adolescência têm as histórias mais divertidas, as maluquices e chatices que todo adolescente tem para contar. Algumas vieram dos lugares onde trabalhei. Tiveram a oportunidade de conhecer-me no dia a dia, com todas as minhas chatices cotidianas, mas foram aquelas com quem tive algumas das melhores oportunidades de aprender a ser alguém melhor. Há ainda aquelas que garimpei em um dos melhores períodos da vida: na faculdade. Essas são especialíssimas, obras raras e resistentes, com as quais dividi grandes pressões, mas, sem dúvida, as melhores histórias de todos os tempos.

Não posso esquecer das peças que trago da família. São as que me conhecem melhor e, ainda assim, conseguem dar-me em troca as amostras mais sublimes de amor. Em uma prateleira especial, guardo meus amores. Com eles, aprendi lições incríveis, exerci a arte da entrega, da simplicidade, da compreensão e, principalmente, entendi o quanto ceder pode ser bacana. Há, enfim, muitas pessoas em minha coleção, espalhadas pela vida, pelos lugares e pelo tempo, mas todas muito bem guardadas debaixo do meu sentimento.

Nem todo mundo sabe colecionar pessoas. Há quem machuque seus exemplares e faça com que eles percam sua principal característica: a da troca. Há quem deixe pessoas quebradas por onde passa, sem notar que isso o torna mais passível de quebrar-se também. Às vezes vejo isso de perto e me aborreço, mas logo entendo que é só mais um exemplar rebelde que, cedo ou tarde, vai compreender que as coisas não são bem assim. Enquanto isso, sigo com as minhas peças, as minhas pessoas, exclusivas, especiais e que me fazem sentir-me assim também. Pessoas ricas que me enriquecem e me fazem colecionar, além delas, alegrias inumeráveis.

5 comentários :

Lígia disse...

Sinto-me privilegiada por ser uma peça de sua coleção. Não uma peça qualquer, mas uma peça muito bem cuidada, o que faz com que eu me sinta muito especial...

Ariadne Lima disse...

Uma peça rara e guardada em um lugar pra lá de especial. :)

Talita Cruz disse...

Confesso que gostaria de ter uma coleção dessas, mas ainda sou um pouco "rebelde"..rsrs..bjss

Ariadne Lima disse...

A rebeldia passa, Talita. A gente aprende com a vida. E, pelo que percebo, tem sensibilidade suficiente aí nesse coração pra ela passar. :)

Fabiana Gonçalves disse...

Lindo o texto, parabéns!
beijos