Fio de Ariadne: Amor de livro

26 agosto 2010

Amor de livro


Era um amorzinho cult. Tinha cheiro de livro novo, desses que a gente compra, alisa a capa e fica louco para conhecer o conteúdo. Lembrava um amor de infância, inocente mesmo, sem beijo na boca e sarro atrás da prateleira. Nem por isso tinha menos sabor. Era um amor de olhares. Eles tentavam se esconder por trás das páginas dos últimos lançamentos da FLIP, mas acabavam descobertos por outros olhinhos curiosos.

João trabalhava em uma livraria metida à besta, das muitas que existem na Savassi, dessas aspirantes a café argentino. Alice não era uma cliente como as outras. Tinha um quê de personagem do Garcia Marquez, lembrava os versos de Neruda e carregava um certo mistério de Agatha Christie. Ele gostava do seu jeito hippie cult e seu ar de Clarice Lispector. Ao entrar na livraria, por sua vez, os olhos de Alice já escaneavam as estantes à procura de João. Ela também adorava o estilinho do rapaz, aparentemente despretensioso, mas que no fundo escondia deliciosas intenções. Alice gostava do seu olhar. Era um olhar firme, porém doce, a la Che Guevara mesmo. Um olhar de quem já leu Dostoievski .

À primeira vista, Alice viu apenas o vendedor de livros. O segundo olhar, depois das críticas bem construídas sobre cada edição de uma pilha, foi bem mais profundo. Ouvindo a voz suave, a descrição pausada, os comentários ponderados, a jovem deixou-se perder naqueles olhos. Eram olhos que guardavam uma biblioteca.

- O que achou? - perguntou ele.
- Ahn?
- Perguntei o que achou.
- Ah! Achei maravilhoso. - respondeu ela, com um sorriso que se via mais nos olhos do que na boca.

A partir de então, as idas à livraria tornaram-se constantes. As críticas literárias dos jornais e revistas nunca foram tão atrativas como depois daquele encontro. Elas ditavam a pauta da próxima visita. Alice decorou os horários de João e ele, então, passou a viver a expectativa de esperá-la. Os comentários sobre as obras ficaram cada vez maiores e mais elaborados. Alice interagia, fazia suas críticas também. As bienais do livro transformaram-se em “copas do mundo” da literatura.

Era um amor de livros, sorrisos e olhares. E eles não precisavam mais que isso. Era um amor que não precisava ultrapassar as prateleiras, sob o risco de perder o encanto. A livraria metida da Savassi era o cenário. Alice e João, os personagens e autores de uma história que não precisava de outros elementos. Por si só, tinha a doçura de um final feliz.

2 comentários :

Talita Cruz disse...

Amor e livros..combinação perfeita!

Thales Willian disse...

O ambiente livraria é mágico. Muito bacana o texto, gostei. Abraços.