Fio de Ariadne: O peso de ser diferente

10 julho 2010

O peso de ser diferente

“Não me mostre o que esperam de mim porque vou seguir meu coração. Não me façam ser o que não sou. Não me convidem a ser igual porque sinceramente sou diferente.” Clarice Lispector


Nunca fui das mais populares. De qualquer forma, sempre consegui meu lugar em alguma turminha por onde passei. Sempre me senti querida. Sempre fui o ouvido que ouve, o abraço que conforta, a palavra que aconselha. Algumas vezes fiquei esquecida nessa brincadeira, mas sempre lidei bem com isso. Afinal, nunca gostei muito de me revelar. Acostumei-me a agregar à minha vida pessoas muito diferentes de mim. Amá-las, compreendê-las, aprender com elas. Com o passar dos anos, fui percebendo que a mais diferente de todos era eu mesma. E fui entendendo, e sentindo, o quão penoso isso pode ser.

Sempre consegui me entrosar, mesmo sendo diferente, mas a diferença nem sempre é compreendida, inclusive, por aqueles a quem chamamos de amigos. Sou a amiga careta. Nunca fumei, nunca fui de ficar por ficar, nunca dei um “tapa na pantera”, nunca bebi, a não ser uma caipirinha aqui, uma tacinha de vinho acolá. Nada que me deixe mais que risonha. Aprecio uma boa conversa, adoro programas culturais, odeio lugares cheios demais, não suporto ter que gritar para ser ouvida e, numa noite de sábado, o que me atrai é música suave, um barzinho tranquilo, com companhias agradáveis. Nada disso, porém, supera meu prazer de estar em casa. Amo minha casa, meu quarto, meu canto, minhas divagações.

A questão é que tudo isso , por muitas vezes, me faz ser vista como um E.T. Mais que isso: me coloca como a má amiga, a companhia chata, a pessoa esquecida. É o fardo que se carrega por ser diferente. Ele, às vezes, é dolorido. Tenho aprendido a lidar com ele, no entanto. Tenho entendido que maior que o incômodo de carregá-lo é o incômodo de fazer algo que não quero ou que não combina comigo. É o fardo de trair a mim mesma: minhas vontades, convicções, meu “estar bem comigo mesma”. Não quero me isolar do mundo, me trancar na minha caverna de Platão. Sou apaixonada pelo ser-humano e toda a sua maravilhosa complexidade. Confesso, inclusive, que, por vezes, me concedo a licença de extravasar. E faço isso com a consciência de quem sou. É tudo o que eu espero da vida: A liberdade de ser quem sou, agir conforme o que me conforta, ainda que isso seja diferente da maioria ou diferente de mim mesma, de vez em quando. A liberdade de ser quem sou e ser amada assim, exatamente desta forma, pois foi assim que aprendi a amar tanta gente à minha volta que em nada se parece comigo.

3 comentários :

Aline disse...

Adorei o texto, como sempre..rsrs
Me identifiquei com tudo q vc escreveu. Tbm sou assim "diferente" mas qr saber eu gosto. E já me acustumei...

Parabéns , bjos

Ariadne Lima disse...

Obrigada, linda! Ser diferente tem suas chatices, mas no fundo eu gosto também. Um beijo, companheira de planeta! rsrs

Lígia disse...

Amiga, eu também sou assim... eu também gosto de ser assim... e, para mim, você é ótima amiga! Embora nem sempre eu seja boa com você... te amo milhões!