Fio de Ariadne: Francesinha da Savassi

03 julho 2010

Francesinha da Savassi

Foto: Alessandro Bastos

É inverno e os ipês colorem a Praça da Liberdade. Amo a Praça da Liberdade. Amo os ipês. Adoro o inverno na Savassi. Tem um ar que beira o europeu. Norah Jones ao fundo me transporta ao cenário, de casaco pesado, botas, cachecol, gorro e maquiagem despretensiosa. Quase posso sentir o vento que carrega as folhas e brinca com meus cabelos, pretos e curtos, que saem pelas laterais do gorro. Bem me disseram que o novo corte tinha me deixado como uma “francesinha”. Pois então: sou a francesinha da Savassi. Amélie Poulain das montanhas. Uma francesinha brazuca, metida à besta, achando que seu cachecol e gorro cabem bem ao inverno de um país tropical.

Lá vamos, então, Norah Jones e eu, caminhando entre os ipês da Praça, como se a vida estivesse ganha, como tudo o que ela esperasse de mim fosse uma caminhada matinal com ar de “rien ne compte” (ou “nada importa”, no bom e velho português). De fato, quando vejo os rosas, roxos e amarelos dos ipês, misturando-se ao azul do lindo céu de inverno, realmente nada importa. É como se aquelas cores tomassem minha alma, ampliassem meus sentidos. Visão, olfato, tato e audição: todos sobressaltados, atentos e maravilhados com tudo ao redor.

Se Monet ainda vivesse, talvez fizesse dali um de seus jardins. É como se ali, naquela Savassi metida a Paris, não existisse nada além de mim e minha alma de poesia. Como se fossemos somente eu, minhas roupas de frio e a voz doce e chorosa de Norah Jones, dizendo-me que meus sentidos me levam a qualquer lugar e fazem de mim o que minha imaginação permitir: inclusive uma francesinha da Savassi.

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